Quando um dia o meu filho com nove anos se saiu a falar em tom displicente dos “portugueses”, os alarmes soaram na minha cabeça. Quantos comentários do género teria ele ouvido até assimilar aquilo? Não precisava de reflectir muito para me declarar culpada e assumir que como qualquer tuga que se preze tinha passado esse testemunho à minha descendência como antes os meus pais e familiares próximos passaram a mim. É assim que todos os portugueses se tornam outsiders. Desde a mais tenra idade aprendem que embora portugueses, nada têm a ver com os portugueses.
Esta esquizofrenia nacional, que tanta perplexidade desperta nos estrangeiros, tem uma razão de ser: a falta de fé no colectivo é tanta que se torna necessário, por uma questão de auto-preservação, acreditar que cada um de nós é a excepção à regra. Vendo o fenómeno sob este ponto de vista, não deixa até de ser saudável vivermos, como povo, em negação. Só que o reverso da medalha é esta falta de garra, que nos apontamos uns aos outros. A tristeza, o fatalismo, a abolia, ai que nervos! Porque é que eles – não nós – porque é que “eles” são assim?
A resposta é complexa, mas para simplificar podemos assinalar as elites. É com certeza a saída menos injusta cobrar-lhes responsabilidades e exigir-lhes soluções. Afinal por alguma razão se aprende em psicologia das organizações que são os líderes que fazem o sucesso e o insucesso das empresas, instituições e demais coutadas que governam. Por isso é que eu, que praguejo contra os portugueses desde miúda, não me sinto com moral para criticar os taxistas quando fazem o mesmo, mas tenho cada vez menos pachorra para o discurso das elites políticas e económicas sobre a falta de iniciativa perante as adversidades, a baixa produtividade, a irresponsabilidade e o pessimismo dos tugas.
Deixem-se de prosápia e façam por merecer o estatuto de excepção. A prova de que este povo macambúzio ainda tem capacidade para acreditar é que vota quando há eleições. Só que depois as coisas não mudam. Isso é que é deprimente, ver sempre as expectativas frustradas. Aqui é assim desde que se nasce até que se morre. Por isso é que aprendemos aquela cartilha esquizofrénica cedo demais e somos o povo mais deprimido da Europa. Percebem, ó estupendaços?
Nota: Inspirei-me para este post não no discurso do Passos Coelho, que acho que foi mal interpretado, mas na discussão sobre a pieguice nacional que se seguiu.


Muito bem, Teresa. Muito bem.
Obrigada, Vasco.
“A falta de personalidade das elites portuguesas
constitui um perigo nacional permanente”
Artur Ribeiro Lopes, citado por Brandão Ferreira, antigo piloto militar, sobre o último discurso do MDN.
E do estado a que chegou este Estado.
Para mim, produto das últimas duas décadas e particularmente dos seis gloriosos anos do fim.
‘Elites’ como: Barroso, Santana, Sócrates & Associados? Vê-se.
Há, esqueci-me.
Acabo de ver o filme sobre Lady Tatcher.
E que tal o filme, gostou?
Partilho a falta de paciência para a conversa do ‘reinventemo-nos’. As pessoas estão a passar mal mas há quem se recuse a descer do pedestal e a ver como é. Quanta insensibilidade!
Gostei muito desta tua reflexão.
Obrigada, Leonor. Anda para aí um discurso didáctico-moralista que me anda a irritar profundamente.
O filme? Excelente para mim, um pouco pesado para a patroa.
Excelente actriz, boa achega para rever Lady MT como PM.
A vontade e liderança ou o carácter da senhora.
E o “It is the economy…” ainda.
Estou muito curiosa. Vou vê-lo nos próximos dias, não falha.
É fácil falar do alto da redoma. Vão lá dizer a quem ganha o ordenado mínimo e cada vez mais na miséria para não ser piegas. Que treta de discurso! Não suporto.
Que cena, um miúdo, português, de 9 anos a falar mal dos portugueses. Por um lado até pode ser preocupante, mas simultaneamente não deixa de ser muito engraçado.
Será que teria sucesso se tentasse comercializar figuras de acção do Medina Carreira?
Pois, ficou para o anedotário da família. Quanto às figuras de acção, era bem capaz de ser um sucesso. Mas entre os graúdos 🙂
Muitíssimo bem escrito. Até dá raiva. Até porque o cansaço geral está definitivamente instalado.
Cumprimentos.
Obrigada, JLB.