Ontem à noite assisti no noticiário da SIC a uma peça versando as declarações em que Angela Merkel deu as auto-estradas e túneis da Madeira como exemplo de má aplicação dos fundos estruturais. Falou ela, depois foi transmitida a posição de Alberto João Jardim (em voz-off, que ele limitou-se a emitir um comunicado apelidando Merkel de ignorante e garantindo que teria feito ainda mais obras se não lhe tivessem cortado o dinheiro), a seguir apareceu o vice-presidente do governo regional declarando, num momento de inebriante inspiração, que a Europa é que precisa de ver a luz ao fundo do túnel, depois surgiu Guilherme Silva dizendo esperar que as declarações de Merkel até façam os alemães ter vontade de conhecer a Madeira e finalmente o líder do CDS-Madeira reconheceu que Merkel tinha razão no que dizia mas criticou-a por dizê-lo. Ah, e ainda houve imagens de Carlos César, dos Açores, que se terá solidarizado com Jardim. Esqueçam a nacionalidade das criaturas por um instante: qual(is) merece(m) um mínimo de consideração?
Podemos lamentar-nos, irritar-nos, mostrarmo-nos ofendidos. Podemos apelidar os alemães de metediços, arrogantes e prepotentes. Podemos clamar que somos um Estado independente há quase mil anos. A Grécia pode até reclamar ser o berço da civilização ocidental. Isso não altera a realidade: fomos, e em muitos casos ainda somos, mal governados. E, em grande medida, fomos mal governados porque escolhemos ser mal governados. Jardim foi reeleito em Outubro passado. Sócrates foi reeleito em Setembro de 2009, quando os sinais de alarme já eram claros. Acham estranho que os alemães duvidem de nós? Eles até podem estar dispostos a fornecer-nos a cana de pesca – mas sabem que primeiro têm de nos ensinar a pescar. O problema é nós não querermos aprender. Somos crescidos, sabemos tudo, passámos há muito a fase dos conselhos e das imposições. E, no fundo, também não queremos a cana: queremos o peixe.

Eu estou para aqui farto de aprender com a Alemanha. Já pesquei dois safios e um alforreca, só com aquilo que aprendi com aquela gestão exemplar da crise da zona euro.
Mas afinal queremos que eles intervenham ou que eles não intervenham?
(Tem cuidado; penso que as alforrecas não se comem.)
Aviso geral: alterei a primeira palavra do post porque foi ontem que vi a reportagem da SIC e não anteontem. Dizem que há uma idade em que os dias começam a confundir-se uns com os outros. Parece que, para mim, foi aos quarenta.
“Eles” são os alemães? Por acaso gostava muito que as “intervenções” não fossem alemãs, mas colectivas, provenientes das instituições europeias. E quanto à “intervenção” da Merkel, não gostei nada. Era bom evitarmos que daqui para a frente se andasse a pesquisar os arquivos da PAC, por exemplo, em busca de provas de investimentos ruinosos no Norte da Europa.
E nem vou às razões de tacto político, de respeito pelas nacionalidades, etc. A senhora não é paga para ser consultora, recordemos — e muito menos para defender os nossos interesses.
“Por acaso gostava muito que as “intervenções” não fossem alemãs, mas colectivas, provenientes das instituições europeias”
Com dinheiro de quem?
Do banco central europeu. Uma pergunta simplista merece uma resposta simplista, jaa.
No problem. Claro que sabes qual seria a próxima pergunta mas fiquemos por aqui.
Era sobre a inflação, era? O senhora Merkel não ia gostar nada, ó ó.
Pára lá de pensar na senhora, carago. Quanto à inflação (desde o acordo, apetece-me acrescentar um ‘c’ a palavras como esta), é verdade que nós sempre gostámos. Também nunca arranjámos hipótese de poder não gostar.
Que queres, a senhora Merkel tem este condão de aparecer quando nós não esperamos. E eu julguei que gostavas, pronto.
Chato é que provavelmente andamos a pensar mais nela do que, sei lá, na Charlize Theron.
Vou fazer um postezinho só para ti.
Já vi. Obrigado. Devias ter colocado um aviso porque, como está, aposto que mais gente o vai ler.
Sou uma vendida. Mas aqui não me safo com a concorrência liberal. Tinha de ser mais simpático para os comentadores (imagino a seca).
“…queremos o peixe. …” Claro que queremos o peixe !! Robalos, de preferência… ou aquele peixe sem espinhas…o filete…assim não dá trabalho …
Mas se for preciso também aceitamos umas vacas da Baviera, não é verdade?

Isto dito assim, não é que não seja verdadeiro, até parece que os alemães são uns santinhos, que não foram ajudados a ter a vida que têm. Trabalharam para erguer um País? Claro que sim! Pagaram pelos estragos que causaram nos outros? Claro que não! Foram ajudados? Claro que sim! Querem ajudar os outros? Claro que não! Mas isto é a minha ignorância, histórica. A Srª Merkel (nunca sei se é assim que se escreve), a única coisa que pretende é ajudar os paises com dificuldades a saírem delas, por isso os alemães nos condenam quando incentivamos o investimento a paises fora da Europa. Governamos mal? Ninguém duvida! Sem ajudas conseguiremos sair deste estado caótico? Não. Com a ajuda que a Srª Merkel nos quer dar saíremos deste estado? Não creio.SE por um lado governamos mal….por outro também não temos ajuda.
zeparafuso: é inevitável que façamos um ajustamento; pensar que o famoso “crescimento” resolveria todos os nossos problemas é uma ilusão porque cresceríamos, mais uma vez, da forma errada (através de obras, consumo interno, etc.), o que só (ou também) agravaria a situação. É e vai ser difícil? Sem dúvida. Podíamos ser mais ajudados? Claro que sim. Mas há coisas que temos de fazer primeiro. Nesta fase, somos como um daqueles países a que se impõem condições para receber ajuda internacional. Nestes, normalmente são de mais democracia, mais liberdade de imprensa, menos corrupção, mais garantias de que a ajuda chega a quem precisa dela – por cá, são de mostrar que sabemos arrumar a casa por forma a, a médio prazo, podermos aguentar-nos sozinhos.
O mal dos alemães é terem-nos dado peixe.
Fundos estruturais foram e são peixe.
E queremos mais. Em nome do crescimento.
Se os dinheiros em causa, dos fundos estruturais, fossem passíveis de ser utilizados de forma diversa, na educação, na saúde, etc, etc, eventualmente Merkel teria alguma “moral”.
Caso contrário, os fundos foram aplicados nas áreas em que era possível aplicá-los.
Mais, como cada vez mais se ouve, a “competitividade” passa em grande parte por factores de contexto: educação, estruturas, mercado interno, etc.
A Alemanha já tem tudo isto; é natural que lhes pareça estranho gastar dinheiro em estradas e semelhantes.
(nota: com isto não quero dizer que acho que os dinheiros foram todos muito bem aplicados; muito pelo contrário. Só que isso não dá direito a hipocrisias.)
AF:
Claro que precisávamos de algumas obras públicas. Há um par de anos, até escrevi isto: 917.html
http://escafandro.blogs.sapo.pt/135
Mas, depois de Cavaco lançar o modelo, nunca conseguimos (ou não quisemos) perceber que ele não gerava crescimento económico sustentável – e mantivemo-lo ad eternum. Das auto-estradas ao aeroporto de Beja, passando pelos centros de congressos, pelas rotundas, pelas piscinas e pelos pavilhões gimnodesportivos. Temos (ou já tivemos, não fui ver os números actuais) mais quilómetros de auto-estrada por unidade de área do que a Alemanha. Pelo que é um bocadinho exagerado chamar hipócritas aos alemães. Eles conseguiram fazer uma reunificação e conseguiram (pelo menos, até ver) manter-se competitivos por mérito próprio. Nos últimos tempos estão a lucrar com o facto de serem a economia de refúgio, com certeza – mas tiveram o cuidado (com falhas, especialmente por volta de 2003) de manter uma visão de futuro. Nós fizemos o que sempre fizemos, tirando o período da ditadura (em que nos isolámos do mundo): gastámos mais de que devíamos, apostámos nas áreas erradas (algumas oligarquias agradeceram) e, se ainda tivéssemos escudo, agora estaríamos a desvalorizar e a perder poder de compra. Não tendo escudo, nota-se mais – mas o processo não é muito diferente. Por alguma razão nunca enriquecemos. Ao contrário dos alemães.
jaa,
Se calhar a minha percepção da coisa pode estar errada.
A ideia que eu tenho é que os fundos estruturais só davam pra “encaixar” coisas desse estilo. Ideia esta que me ficou ao longo dos anos, pelo que fui ouvindo, por casos próximos de candidaturas, enfim, não é que seja “proibido” candidatar-se a coisas no âmbito das novas tecnologias, por exemplo. O problema é que, como tudo o resto, como não há “cunha”, normalmente o grosso vai pros “amiguinhos”.
O nosso azar é que se calhar tem havido muitos “amiguinhos” da construção nos ultimos anos.
(Estive a ver a cobertura do FEDER, que é o fundo com mais volume, e lá cabe muito mais que auto-estradas.)
Portanto, resumindo, dou o braço a torcer. Mas só um bocadinho! 😉
Porque me irrita estar sempre a ser englobado nesta coisa dos “Portugueses lixam sempre tudo e são calaceiros e não se governam etc etc”, quando na realidade é apenas umas “dúzias” de cabrões que inevitavelmente lixam esta treta toda.
AF: independentemente dos campos de aplicação dos fundos, analisando o que Merkel disse e tentando domar sensibilidades que nos fazem ver críticas directas em tudo, é até possível que ela estivesse mais a criticar os critérios usados pela UE até aqui (dando como exemplo dos seus maus resultados a Madeira) do que a aplicação dos fundos por parte da Madeira. Quanto à questão da generalização, estamos de acordo – mas é inevitável e a verdade é que, como eleitores e como cidadãos, ajudámos à festa. Lucrar é que só lucraram uns quantos.
Quais merecem um mínimo de consideração?
Trata-se de uma pergunta retórica, não é verdade, caro jaa ?!
Ora, tásse mêmaver que quem merece – relativamente às formas de utilizar os fundos destinados à Madeira – consideração, são Alberto João Jardim e José Manuel Coelho. Um, porque sabe assumir plenamente o seu papel de Rei (mais exuberante talvez na época carnavalesca) o outro, porque efectivamente, assume em pleno o seu papel de oposição (mais exuberante talvez, quando tenta substituir o presidente do governo, no parlamento). Mas como ambos se apelidam de loucos, e ambos se perdem um pouco nas razões que atestam a loucura de cada um… acho que se pode afirmar com segurança, que no meio de toda a loucura a que assistimos, eles serão os únicos mentalmente sãos, portanto, os únicos que mantêm as capacidades para atestar a razão.
Percebo o ponto de vista mas coloquemos a questão da seguinte maneira: se Jardim e Coelho estivessem perdidos num bote no meio do Atlântico e eu passasse por lá de barco (vamos imaginar que eu tinha um barco – um veleiro, já agora), como gesto humanitário atirar-lhes-ia para o bote uma garrafa de água e uma faca, de modo a que o mais rápido (espero que fosse o Coelho) dispusesse de bebida e de um meio para arranjar comida. Se bem que a carne de qualquer deles deva ser dura pra caramba…
Bom… na verdade, caro jaa, aqueles dois personagens, já se encontram no meio do Atlântico. A diferença é que não são eles que estão perdidos, nem nós que navegamos no veleiro e… bem vistas as coisas, é o Alberto João que nos atira a naifas e somos nós que tentamos comer-nos uns aos outros.
O mais caricato de tuda a situação, é que no fim… é ele que fuma os cubanos… enquanto o outro vai fazendo o arraial… Não me admirava nada que o folclore do Coelho, fosse subsidiado pelo Alberto, assim só para fingir que não existe absolutismo nenhum na Madeira.
Só.. só.. um pequeninississimimo exemplo:
Eles reconstruiram com sangue suor e lágrimas Berlim…em poucos anos…”
Nós não conseguimos reabilitar, por exemplo, a Av Almirante Reis de Lisboa… em centenas de anos!
Tudo o que nos dizem é verdade.. nós somos pela fachada… vá lá… não se lembrou das rotundas!!!
Lembrei-me na resposta a um dos comentários… 🙂
Concordo com a análise.
Ora bolas, assim que piada tem? 🙂
Por vezes discordo, mas quando está bem, está!. E deixa-me triste que as pessoas não percebam que é criticando que se evolui. Se todos estivermos de acordo (e errados) então vamos todos em fila indiana pelo cano abaixo. Ora se estamos mal e achamos que estamos bem, nada melhor que alguém (nem que sejam estrangeiros) nos alerte e nos faça pensar. Não vejo mal nenhum nisso. Acho que será bem pior dar com os cornos na parede… Mas o tuga, orgulhoso como sempre, não é capaz de parar para pensar, leva tudo a peito. Faz-me lembrar o tuga castiço (bem apanhado diga-se) da música dos deolinda Fado Toninho, “agarrem-me senão parto-lhe a boca toda”… 😀
Parabéns pelo texto! Concordo! E também já deixei comentário no post do colega sobre aquela notícia inenarrável!
Obrigado, Cristina. O jornalismo anda pelas ruas da amargura. Raramente se percebe a história completa lendo um jornal português.
Um “milhão “a quem encontrar nas grandes cidades alemãs…ruinas da guerra…
A nós… basta-nos ir á baixa…lisboeta…
3 ( tres) auto-estradas para o PORTO!!!
10 Estádios de futebol!!!!
Depois, não querem que digam mal da malta…
Muito nos poupam!
Eu coro de vergonha!
Calma: só são dez estádios de futebol porque ainda não demoliram um ou dois para cortar nos custos…