Primeiro Acto.
Ontem à noite. Abro com gestos largos uma encomenda da Amazon que, entre outras coisas, inclui umas óperas em blu-ray (excelente forma de ver ópera ou bailado, deixem que vos diga). Verifico com espanto e horror que o Don Giovanni dentro da caixa é em DVD. Praguejo três vezes, na minha voz de barítono (com – é um efeito fantástico – uns laivos de falsetto). Pela listagem inclusa, confirmo que encomendara a versão em blu-ray. Ainda que o erro não seja meu, praguejo mais três vezes para reforçar a ideia de que não estou satisfeito. Ponho o DVD de lado juntamente com a listagem de itens encomendados decidido a tratar da devolução hoje pela manhã. Vou jantar.
Segundo Acto.
A meio da manhã trato do pedido de substituição. As coisas correm bem – no site da Amazon está tudo pensado para que o cliente sofra o mínimo de incómodo possível. Imprimo os formulários: uma folha para meter dentro da embalagem de retorno, um rótulo de correio registado dos CTT, um comprovativo. Não é preciso pagar portes. À hora de almoço vou a uma estação de correios. Compro um envelope almofadado, meto o DVD lá dentro juntamente com a folha adequada, a senhora que me atende cola o rótulo ao envelope com fita-cola, carimba a folha de recibo e cobra-me noventa e cinco cêntimos pelo envelope (a Amazon dizia para usar a embalagem original mas é demasiado grande). Vou almoçar.
Terceiro Acto.
Às duas e tal verifico que chegou uma mensagem da Amazon. Pedem desculpa, referem que já estão a tratar do envio da versão em blu-ray e dizem-me que, atendendo aos custos da devolução, posso ficar com a versão em DVD. Sugerem que a ofereça para beneficência mas isto só leio mais tarde porque já estou saindo a correr para a estação de correios. Pelo caminho, praguejo mais seis vezes. É que, não sei se estão a ver, a Amazon dava-me trinta dias (trinta!) para fazer a devolução. Por que diabos tive de tratar do assunto logo no primeiro? Chego a arfar. Tiro uma senha. Faltam seis números para a minha vez. Nada mau. O pior é quando um funcionário com um grande saco ao ombro sai em direcção a uma carrinha estacionada na rua. Fixo o olhar no saco com tanta intensidade que fico certo de não ter nascido em Krypton (em miúdo cheguei a ter esperanças). Pondero abordá-lo e obrigá-lo a abrir o saco mas contenho-me e deixo-o ir embora na carrinha. Chega a minha vez. Explico o que se passou. A funcionária que me atende fala com a que me atendeu antes (está mesmo ao lado, com outro cliente). Ela lembra-se de mim (modéstia à parte, lembram-se sempre) mas, com um trejeito de horror típico de ópera buffa (mas mais na linha de Rossini do que de Mozart) exclama: «Ah, não sei se ainda cá está!». Levanta-se e vai remexer num cesto. Sorri. Mostra o envelope na mão erguida. Anuncia: «Eccolo qui!» (Talvez tenha sido em português, já não estou certo.) Apetece-me saltar o balcão e dar-lhe um beijo (até porque é gira). Ela despacha o outro cliente e depois trata de mim (será impressão minha ou isto não soa bem?). Abandono os correios com o envelope na mão prometendo a mim próprio ser menos eficiente no futuro. Considero a hipótese de ir lanchar mas é demasiado cedo.
E agora, em que instituição de solidariedade apreciarão Mozart?


Valeu… sobretudo pelo beijo dado à garota dos correios.
Ainda bem que não nacionalizaram os CTT, senão, o beijo jaa tinha sido dado a uma chinezinha…
Bartolomeu: talvez infelizmente, eu ainda consigo separar as minhas vontades dos meus actos. 😉
E agora, em que instituição de solidariedade apreciarão Mozart?
Prevejo que resolver esse problema irá ser mais difícil do que tudo o que descreveu antes.
É claro que pode sempre dá-lo a um(a) amigo(a) e, em determinados casos, isso poderá ser considerado fazer uma boa acção.
Desconfio que não vão faltar, especialmente depois de lerem este post, zedeportugal. Mesmo que não gostem de ópera. 🙂
“All is well, that ends well”!
Texto interessante. Comecei a ler e só consegui parar no fim 🙂
Cristina: modéstia à parte mais uma vez, cosí fan tutte. 🙂
Aprecio o tipo de registo utilizado. Li o texto como se de um romance se tratasse!
Obrigado. E é tudo verdade, excepto os ligeiríssimos exageros.
E acredita que a coisa te correu muito bem… olha o que a Amazon mandou a esta estudante: http://hypescience.com/estudante-re cebe-cocaina-gratis-ao-comprar-livro-usa do/
Este teu episódio no correio lembrou-me O Túnel, do Sabato, e aquele desesperado pedido de devolução da carta.
A quem dar o dvd? Mas é óbvio! À Maçonaria.
Lol . A chatice foi ela ter comprado um livro sobre terrorismo e temer ser anthrax . Se tivesse comprado um livro sobre drogas tinha-se divertido um bocado ou feito um bom dinheiro vendendo a coca a um qualquer corretor de bolsa…
Comparar uma posta-buffa com o Sabato é quase criminoso, Ana. Pior do que vender cocaína a corretores de bolsa.
E percebo a tua recomendação. Sempre lhes ocupava o serão de forma mais educativa do que seja lá o que for que eles fazem. E com menos consequências negativas para o país. Mas, caramba, eles têm dinheiro para comprar DVDs. E, de resto, não conheço nenhum.
Eles que vão à Loja, queres tu dizer? Tens razão.
Lembrei-me do Sabato porque a situação da carta é a mesma, mas tu tiveste mais sorte do que o doido do Castel.