Não ouçam Krugman, não.


Luís Menezes Leitão,

 

Salvo o devido respeito, este post do Rui Rocha não me convence minimamente da necessidade de continuar a seguir a política de Vítor Gaspar, que é evidente que só pode conduzir ao desastre. Mas o Rui Rocha acha que no confronto entre os avisos de Krugman e a política de Gaspar, a razão tem que estar do lado desta última. Vejamos quais os argumentos.

 

Em primeiro lugar, é utilizada a estratégia que na gíria futebolística se chama “jogar o homem e não a bola”. Antes de tudo, Krugman, um economista respeitado internacionalmente e que já recebeu o prémio Nobel, merece os piores epítetos. É em primeiro lugar um “académico (teórico, portanto)“, o que constitui um supremo pecado. Mas, apesar do seu “mérito académico“, o que faz são “colunas bem escritas de opinião política“. Se os economistas, não se podem expressar politicamente, não se percebe qual a sua utilidade. Para além disso, é parcial. Tem, imagine-se, “uma posição marcada quer no âmbito da discussão das opções internas americanas, quer quanto às relações entre os EUA e a Europa (e o dólar e o euro)“. Tratar-se-ia, portanto, de um americano perigoso que só quer destruir o euro.

 

Mas o que é que este perigoso americano defende? “Que os Estados com contas públicas equilibradas (isto é, a Alemanha e poucos mais) devem adoptar uma política expansiva“. Se bem me lembro, foi essa a solução adoptada, quer nos EUA, quer na Alemanha para sair da Grande Depressão. Nessa altura aprendeu-se que a austeridade não era a solução para sair de uma crise, e todos os manuais de economia recomendam que não se adopte medidas de austeridade em alturas recessivas. E esta conclusão é universal, independentemente de estar em causa o frio do Alaska ou o sol português. Mas como a proposta de Krugman só vale para a Europa em geral e não para cada Estado em Portugal, todos os Estados europeus têm que sofrer medidas de austeridade. Apesar de como se estar a ver, irem cair todos como peças de dominó.

 

Quanto à afirmação aqui de Krugman de que os salários têm que baixar 20%, falta referir uma coisa: que Krugman propõe que isto se faça por via da inflação. Ora, a inflação é um processo muito menos agressivo de conseguir o ajustamento. Basta emitir moeda que o preço dos produtos sobe e os salários reais diminuem progressivamente. E a emissão de moeda nesta fase de crise económica profunda não parece trazer quaisquer riscos de espiral inflacionista nem de descredibilização do euro. Os americanos não têm parado de imprimir dólares desde a crise sem qualquer problema. Já um corte salarial de 25% em dois anos tem efeitos dramáticos na economia, como todos os dias estamos a ver.

 

Diz-se depois que “para Portugal a austeridade não é uma escolha. É, antes de mais, uma imposição da realidade e, depois, daqueles de quem dependemos para comprar os melões“. Que eu saiba, não foram aqueles de quem dependemos para comprar os melões que mandaram lançar impostos extraordinários ou cortar os subsídios. Foi antes uma decisão de um Ministro das Finanças que já conseguiu incumprir o défice para 2012 nas primeiras duas semanas do ano. Pela minha parte entre os avisos de Krugman e as políticas de Gaspar opto claramente pelo primeiro. E gostaria que alguém me demonstrasse que Krugman não tem razão. Porque o que resulta da sua posição é que a política de Vítor Gaspar só por milagre pode conduzir a um resultado útil. E como eu não creio em milagres, acho que é altura de encarar essa realidade.

9 comentários em “Não ouçam Krugman, não.”

  1. Impressionante números de asneiras:

    A- Estado Português com Sócrates no Governo injectou na Economia mais de 50% do PIB.
    Ou seja aumentou o endividamento nesse valor, Duplicou a nossa dívida.
    Mais de 90 mil milhões de Euros.
    Esses 90 mil milhões de Euros deram quanto de retorno? Qual foi o crescimento económico desses 90 mil milhões de Euros
    Parece que nada de especial, não podemos pagar as contas.
    Talvez devesse pensar nisso.

    B- Portugal não está em austeridade pois ainda não começou a pagar a dívida. Nem sequer está em terreno neutro. Continua a aumentar a sua Dívida.

    C- como demonstrado em A o dinheiro não cria necessáriamente riqueza, para criar riqueza é saber fazer coisas que tragam tanto beneficio que as pessoas estejam dispostas a comprar livremente – isto é sem incentivos , compras de hipotecas por empresas para-estatais, benefícios fiscais e outras distorções dos reguladores- Fabricar mais casas num pais que já tem demais, construir a 4ª autoestrada não é mais riqueza.

    D- Tudo o escreveu parece que para si não houve nada anómalo na economia mundial. Não existiu bolha de crédito, bolha imobiliária. Ou seja a frequência e preços das transacções que no topo da bolha dita especulativa deram tantas receitas ao Estado Social de Corrupção para cobrir e muito mal no caso português -dívida aumentou cerca de 100%- os crescentes gastos para si foram tão normais que você quer recuperar esses níveis de transacções económicas que nunca tinham sido atingidos e só o foram por causa de uma bolha de crédito que devido ao seu extraordinário volume não teve retorno.

    E- Os Países Europeus são competitivos. Todos eles aumentaram as exportações desde que o Euro nasceu. O problema é que não são competitivos o suficiente para um Estado e uma Economia Política que cresce muito mais que a Economia Livre. Por isso é que o Estatistas Keynesianos querem obviamente adoptar as receitas inflacionistas Sul Americanas.

    1. Para quem acusa os outros de dizer asneiras, há aí várias coisas muito interessantes: uma é de que não estamos em austeridade e outra é de que os países europeus são competitivos. Não quer divulgar essas teses pelo país?

      1. Claro que não estamos em austeridade. Julga que 7% défice é austeridade? Estamos numa política expansionista que não dá resultado porque não é o dinheiro que traz crescimento. O corpo do atleta dopado está exangue, a droga não faz efeito.
        Mas isso já é evidente há muito tempo.

        É como dizer que aumentar de peso 7kg em vez de 12kg é dieta.
        A austeridade começa quando se começar a reduzir a dívida. O peso. Não noutra altura.

        “os países europeus são competitivos.”

        Portugal produz hoje mais agricultura que nos anos 80, Portugal exporta mais que quando entrou para o Euro, a Grécia também exporta mais e todos também tiveram mais turismo.
        Agora nada disto é sustentável com o enorme nível de crescimento dos gastos.
        É como alguém com um cargo mediano que é promovido para a categoria acima passar a usar o cartão de crédito como o CEO.
        Estará na bancarrota rápido.

  2. Concordo com tudo Luis, excepto a parte da opção. Por muito que Krugman tenha razão ainda não ha maneira de os portugueses imporem aos alemães um politica de expansão por via de inflacão.

    Existe sim opções para Portugal e o seu governo, mas nenhuma delas é a opção do Krugman por razões óbvias. A opção é défault, e saída possível do euro (como a Grécia), e a austeridade imposta numa porporção muito superior ao que existe agora. Ou então cumprir o plano da troika tal como é nos imposto, nomeadamente os alvos do défice no fim do ano, algo que sabemos é várias vezes repetido pela mesma.

    Essas são as opções que existem para o governo, e se tiver alguma solução de como o pais pode aplicar uma politica sem imprimir moeda, e sem se endividar mais, então faça a todos um favor e explique… Até la não esta a fazer mais nada do que criticar o governo por fazer o menor dos males… (ja criticar o governo por não ser mais activo em reclamar aos alemães que estes deviam imprimir moeda, ai sim, concordo, mas sabemos que não foi essa a critica…)

    1. O Governo está a fazer o pior dos males e isto não vai levar a lado nenhum. Pior de que um crime, é um erro. É preciso explicar aos alemães que é necessário imprimir moeda, em vez de acatar os cada vez mais disparatados Diktats que vêm de Berlim, sendo essa uma das críticas que faço com mais frequência. Nós não estamos a cumprir o programa da troika, porque quisemos propositadamente ir além da troika. É por isso que vamos ser os únicos responsáveis por este desastre.

      1. ” É preciso explicar aos alemães que é necessário imprimir moeda, em vez de acatar (…)”

        Mas os alemães estão a impor os Diktats apenas porque nunca ninguém lhes explicou que é preciso imprimir moeda? Querem ver que não sabem ler o Inglês do Krugman?

        Continuas a fazer parecer que uma alternativa a não cumprir com as exigências é apenas ir lá explicar. Enquanto isso como paga o estado os salários? E os subsídios? E os custos todos? Viramos para quem sobrevive (pessoas e empresas) à conta do estado e dizemos, “olhem, como o estado não tem dinheiro para todos os compromissos e os alemães ainda não perceberam que a melhor solução é aplicar sobre eles uma taxa escondida em forma de inflação, esperem só um pouco até eles perceberem, pode ser?”

        Ou viramos para a Troika e dizemos, “olhem, não cumprimos com o que acordámos para vocês nos darem dinheiro que precisávamos apenas porque ninguém explicou aos alemães que o melhor é eles terem mais inflação, mas continuem a mandar dinheiro, que nós vamos ali explicar a eles como é, ok?”

        E não fomos além da Troika, arranjámos uma artifício de pensões, e todos os políticos (dentro e fora) olharam para o lado e bateram palmas por poderem escrever um valor “para além da troika” no papel. Excepto os mercados financeiros que como se vê perceberam bem que não estamos a cumprir nada.

        E concordo que é um erro, até à um ano atrás foi nosso, e agora é a Europa. Cumprir é mau? Sim, mas é melhor cumprir e esperar que a Europa perceba o erro, do que deitar já tudo fora e não cumprir agora levando com as consequências do dia seguinte de uma falência completa do país. Isso é que era o verdadeiro crime…

        1. Se concorda que é um erro o que estamos a fazer, não sei porque continuamos a insistir nele. E não vamos conseguir cumprir, como já se percebeu nas duas primeiras semanas do ano. Para quê insistir nisto, se o resultado é nulo e as consequências desastrosas? Apenas pelo temor reverencial que nos impede de explicar que assim não pode ser? E haverá alguma razão para que a Alemanha mande na Europa desta forma, levando a que a política monetária europeia seja por ela ditada?

  3. Luís, o que digo é que a posição de Krugman sobre a austeridade, independentemente do valor que se lhe reconheça, não é aplicável a Portugal nas actuais circunstâncias. E o próprio já o deu a entender várias vezes:

    http://krugman.blogs.nytimes.com/2010/05/17/et-tu-wolfgang/

    A nossa escolha é entre a austeridade dentro do euro (se é que isso ainda está ao nosso alcance) ou a austeridade no âmbito de um default ou a austeridade com a saída do euro. O resto não depende de nós.

    1. Depende de nós procurar convencer os outros Estados de que é preciso outra política. O euro é uma moeda de todos e a política monetária não pode viver em função das posições de um único Estado europeu. As cimeiras europeias têm de deixar de ser a Alemanha e os 26 anões e passar a ser uma cimeira em que cada Estado defende os seus pontos de vista. Valha-nos o facto de o Reino Unido e a República Checa já se terem começado a pôr de fora.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *