Sophia e Sena: o dever de ver (I)


Pedro Correia,

O género epistolar, que os computadores condenaram à extinção, devia ser um maná para as editoras. Tem sido esta a regra noutros países, nomeadamente os de cultura anglo-saxónica, mas não é assim em Portugal, onde são raras as cartas de gente famosa que chegam à forma de livro. Isto deve-se, em boa parte, ao temor de herdeiros que receiam ferir susceptibilidades alheias às vezes muitos anos depois da morte dos visados. Neste país de brandos costumes (Salazar dixit), o respeitinho e a necessidade de “parecer bem” sobrepõem-se a outros critérios – desde logo o de divulgar documentos com inegável interesse histórico. Felizmente há excepções. E quando existem logo se transformam em acontecimentos culturais. Foi assim em 2005, com a publicação das cartas entre António José Saraiva e Óscar Lopes, e também com as cartas escritas por António Lobo Antunes à mulher, quando cumpria o serviço militar em Angola. No ano seguinte Manuel Fonseca, da Guerra & Paz, trouxe-nos outra obra similar: a correspondência trocada entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner durante quase duas décadas (1959-78). Um acontecimento editorial, sem dúvida, embora com um conteúdo aquém das expectativas geradas. Não só por o número de cartas ser reduzido, mas também por não haver nelas qualquer menção a factos fundamentais da História portuguesa desse tempo, como o fim do longo consulado de Salazar e o 25 de Abril. Neste aspecto, a correspondência entre António José Saraiva e Óscar Lopes resultou num livro muito superior.

 

Graças ao trabalho meticuloso de Mécia de Sena (viúva do poeta de Metamorfoses), que guardou e coligiu as cartas recebidas de Sophia e as cópias das cartas endereçadas por Jorge de Sena à autora do Livro Sexto, ficámos a conhecer melhor os mecanismos de cumplicidade que irmanaram dois dos maiores nomes das nossas letras. Sena e Sophia não escondiam uma genuína admiração mútua, rara nos nossos meios culturais. Admiração reforçada no combate à ditadura salazarista, que ambos detestavam, mas também à hegemonia comunista no panorama literário português entre as décadas de 40 e 70 – hegemonia que excomungava todos quantos, sendo de oposição ao Estado Novo, não toleravam também eventuais ditaduras de sinal contrário. “Acho que não se pode criar em nome do antifascismo um novo fascismo”, escrevia Sophia a Sena em Março de 1962 – uma das mais notáveis missivas incluídas neste volume.

6 comentários em “Sophia e Sena: o dever de ver (I)”

  1. Também sou um entusiasta deste género de literatura. José saramago deixou dito que a obra de um escritor só se completará quando a sua Correspondência for publicada, principalmente as cartas trocadas com os seus leitores.
    A todos os títulos notável a Correspondência trocada entre José Saramago, enquanto director editorial da editora Estúdios Cor, e José Rodrigues Miguies então no seu exílio americano e que foi publicada, em 2010, pela Caminho.
    Tudo começa com uma mera correspondência profissional, entre editor e autor, e acaba numa sentida afectividade e admiração mútua.
    As agruras do exílio desse hoje tão esquecido José Rodrigues Migueis, impelia-o a querer meter-se em tudo, desde o tipo do papel, ao tipo de letra, ao facto de os livros serem cosidos à mão ou à máquina.
    Interessante a paciência com que Saramago lida com Migueis, respeitando as suas indicações e o escrupulo com que pretendeu que o autor, dadas as suas dificuldades financeiras, recebesse, atempadamente, os seus direitos de autor.

    1. Quero conhecer esse livro da Caminho pré-aborto ortográfico, Sammy: agradeço-lhe a sugestão que aqui nos traz. Gosto da escrita epistolar, entre outros motivos, porque não nos obriga à leitura prisioneira da sucessão de páginas. Podemos começar pelo fim, acabar no princípio. Saltar páginas a meio, voltar a elas mais tarde, fazendo anotações dispersas aqui e acolá, aprendendo sempre alguma coisa com estes escritores que nas cartas nos ajudam a iluminar aspectos mais obscuros das suas obras.

    1. Tens toda a razão, Pedro, o género epistolar tem sido muito descurado, não só em casos como este, de interesse documental, como também na arquitectura narrativa. Tirando o Lusitânia do Almeida Faria, não me lembro de outro romance epistolar de relevo.
      Tocas aqui num ponto interessantíssimo: a admiração mútua, coisa tão rara, por cá, entre pares. É bonito de ler.

      (os itálicos continuam a não me sair)

      1. Foi um dos aspectos que mais fixei neste livro, Ivone: a genuína admiração mútua entre Sophia e Sena. Algo tão raro neste país que alguns insistem em tornar ainda mais pequeno. Começando precisamente pelas figuras dos chamados meios intelectuais.

    2. Tornei-me ainda mais adepto do género epistolar desde que entrámos na era dos sms, Laura. Uma era que nos tem levado a uma rápida compressão vocabular. Fala-se cada vez mais rápido e cada vez de forma mais “económica”: bastam algumas dezenas de vocábulos para assegurar a comunicação instantânea. Tudo muito básico, muito linear. Ano após ano, centenas de palavras entram definitivamente em desuso entre nós. Para combater esta tendência, nada melhor do que regressar a páginas já antigas, algumas até de livros com páginas amarelecidas pela erosão do tempo. Regressar aos romances do Eça, regressar ao ‘Livro do Desassossego’ do Pessoa. Regressar aos diários do Torga, regressar à prosa diarística do Vergílio Ferreira, aos contos do Cardoso Pires, aos versos da Sophia, aos inflamados panfletos do Sena. Às cartas de todos eles.

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