MAÇONARIA
I
José Xavier Mouzinho da Silveira (1780–1849) matriculou-se em Outubro de 1797 na Faculdade de Direito de Coimbra, onde obteve o grau de bacharel cinco anos mais tarde e terminou a formatura com a classificação final de nemine discrepante a 10 de Julho de 1802.
Colaborou na resistência às Invasões Francesas e esteve colocado em Marvão, de onde foi tranferido para ser empossado como juiz de fora na então vila de Setúbal a 29 de Maio de 1813, lugar que manteve até 22 de Novembro de 1816.
«Sete anos mais tarde, o corregedor da comarca vai acusá-lo de ter propagado em Setúbal a seita dos “pedreiros-livres”, garantindo constar que até “estabelecera duas lojas deles, sendo um libertino de primeira ordem, e tão escandaloso que nunca ouvia aqui missa”. Sem dúvida, quando se fala do movimento liberal, a Maçonaria está necessariamente implícita e faz tempo que Mouzinho, no mínimo, se sente muito chegado aos maçons com quem costuma privar.» (O Supremo Tribunal de Justiça em Portugal: Dois Séculos e Quatro Regimes de Memórias; João Carvalho; STJ, 2003.)
Como se vê, mesmo sem ser líquido que Mouzinho da Silveira fosse já um maçon aos 30 anos, foi acusado de o ser, pois era um libertino que parece que nem ia à missa. Uma acusação proferida e posta a circular por um superior de Mouzinho, que se referia ao eventual comportamento dele sete anos antes.
II
Mouzinho foi uma figura de proa do Liberalismo e até do Portugal que temos hoje. A sua reforma administrativa era totalmente irrealista na dimensão, mas foi em frente com alterações insuficientes e ainda agora está por corrigir. Contudo, a sua construção de raiz de uma nova Justiça independente revelou um trabalho sem paralelo que ainda prevalece e que já então colocava Portugal entre os países mais avançados, segundo um regime com um sistema judicial que ainda é comum aos Estados civilizados.
Em suma: há coisas que a Maçonaria não pode tolher, como sejam a questão civilizacional que nos consome, a transparência do desempenho político, a ética na gestão dos assuntos públicos. Se assim não for, certas obediências, obscuras ou não, tornam-se incongruentes e destituídas de sentido, especialmente quando reclamam o seu altruísmo e os seus elevados valores.
Enquanto se trocam galhardetes ocos, convém recordar que o País fica a marcar passo em discussões menores e o tempo escasseia cada vez mais para os avanços imprescindíveis. Tenham juízo e tentem manter a cabeça levantada. Lembrem-se que Mouzinho foi um exemplo indiscutível de patriotismo, entrega e seriedade.
O único problema que actualmente se coloca entre quem exerce cargos e funções políticas de relevo é simples: estão a ser sérios ou não? Porque o facto é este: a exigência que todos fazemos não tem de estar incluída ou de vir a fazer parte de qualquer estatuto político. Pode incluir-se, sim, se fizerem muita questão disso, mas o que se quer de facto sempre fez parte de qualquer estatuto. Chama-se seriedade — e isso é obrigatório.


Confesso que numa sociedade democrática,com tudo o que a palavra alcança e determina, não vejo a utilidade e posso dizer que me repugnam, sociedades de cariz secreto, laicas ou religiosas, com ” linguagens ” e ” códigos ” secretos, mais as influências que vão movendo. Sou um ingénuo, é bom de ver…
Está visto que é, Fernando. Mas só importa que nos governem com seriedade.
Continuar a insistir-se que a maçonaria é uma sociedade secreta é surrealista. Os seus dirigentes dão entrevistas, os seus membros são conhecidos, há um museu da maçonaria, livros publicados, etc. etc. Obviamente, os seus rituais são reservados aos membros. Qual o prejuízo disso para a democracia, não percebo. Grande parte dos foundig fathers americanos eram maçons, incluindo o George Washington, membros da familia real inglesa são da maçonaria, tudo aceite e acarinhado pacificamente, em nome da tradição, uma tradição que tem origem remota na Idade Média, e aqui, temos medo da maçonaria a achamos que a maçonaria é uma ameaça à democracia, imagine-se. Muitos democratas maçons, lutadores pela liberdade ao longo dos séculos, ficariam espantados. Para que precisam os maçons de conspirar contra a democracia ou exercer influências nefastas, ou fazer negócios escuros, nas suas reuniões, quando qualquer um o pode fazer nas suas casas ou à mesa de um café?
Um discurso sobre sociedades secretas do Presidente Kennedy es
Pretender que uma sociedade secreta ou discreta não levanta problemas é pensar que somos tolinhos.
http://www.youtube.com/watch?v=xhZk8ronc
agradecia muito que me explicasse quais as raízes medievais da Maçonaria. Mas, por favor, comprove-o com documentos.
De facto, muito simples: to be or not to be sério!
É o que todos esperamos. Apenas isso.
Deixemo-nos de fait divers.
Isso mesmo.
O que Mouzinho fez tábua rasa de todas as instituições do país, traduzindo do francês as leis centralistas de organização administrativa, que foram impostas. Os resultados não foram brilhantes – como se pode verificar.
Pois fez tá bua rasa. Isso foi para repetir o que eu disse? Mas fez muito mais, como seja criar quase todo o sistema judicial. Eu também disse isso, mas vejo que V. não repetiu tudo.
Mas o sistema admistrativo ou sistema judicial português teve alguma coisa de original? Foi totalmente copiado do francês, aos parágrafos inteiros, vírgula por vírgula.
E antes de Mouzinho, Portugal tinha o seu sistema judicial, como todos os outros países europeus e nos finais do séc. XVIII não se encontrava desfasado do resto da Europa. A esse respeito, agora está mais.
Sobre o perigo que há para a democracia a existência da organizações secretas, com programas próprios e deveres de protecção dos irmãos, parece ser uma verdade que não precisa de ser demonstrada.
Seria muito extenso dar aqui conta da obra de Mouzinho, numa época em que a constituição da França, a de Cádis e pouco mais ainda procuravam acertar um modelo judicial. Mas já é justo reconhecermos que ele sabia mais sobre os novos ventos que se agitavam na Europa e no Novo Mundo do que qualquer outro. Uma sabedoria que já não era coisa pouca e que passou a vida a pôr ao serviço do País.
O modelo judiciário moderno já tinha nascido – mas em Inglaterra. Ainda hoje a França não tem habeas corpus (sic).
Desculpe, mas acho que não faz a mínima ideia da história do seu país.
Eu é que peço desculpa. Ao escrever o grande volume O Supremo Tribunal de Justiça em Portugal: Dois Séculos e Quatro Regimes de Memórias, que o Supremo Tribunal de Justiça quis editar em 2003, devia antes ter falado consigo.
Comigo não, mas com as fontes.
A sua reforma administrativa era totalmente irrealista, mas foi em frente com alterações insuficientes e ainda agora está por corrigir.
Poderia por favor elaborar o que quis significar com isto?
A única coisa que sei (ou julgo saber) dessa reforma administrativa foi que reduziu o número de concelhos a metade, tendo eliminado como sedes de concelho muitas vilórias (como Linhares da Beira, por exemplo) que com o tempo tinham perdido importância e população.
Leia a resposta anterior e acrescente o seguinte: Mouzinho copiou o modelo francês, que quis transferir para cá sem tirar nem pôr. Chumbado pela maioria parçamentar, esta acabou por aprovado um modelo muito semelhante alkgum tempo depois, o qual pouco diminuiu o exagero do original.
Agora passe bem, porque já sei que não volto a pôr-lhe a vista em cima por aqui.
Não vejo bem como é que Mouzinho possa ter copiado o modelo francês. De facto, após a reforma de Mouzinho Portugal ficou com cerca de 300 concelhos, enquanto que a França tem atualmente, que eu saiba, cerca de 90 “departamentos”, os quais são de extensão e população muitíssimo superiores à dos concelhos portugueses.
A não ser que pela cópia o J.C. entenda alguma outra coisa que não o número de concelhos. Era isso que gostaria que me esclarecesse.
Teria de reler umas coisas para lhe responder com alguns detalhes e não de memória, o que V. pode fazer sozinho. Digamos que Mouzinho copiou e importou sem grandes delongas o modelo francês à época.
Qual maioria parlamentar???? Os decretos do Mouzinho foram feitos nos Açores. Com a guerra ganha por D. Pedro, tornaram-se lei no continente, em 1834, impostos pelo vencedor, sem qualquer discussão.
V. tem de ler mais História, que faz bem à mente. Passaram-se muitos anos entre as leis e a construção judiciária elaborada nos Açores e durante o Cerco do Porto, por um lado, e a preparação da reforma administrativa, já D. Pedro tinha morrido há muito, a guerra civil estava esquecida, D. Miguel tinha-se evaporado e D. Maria da Glória tinha o País relativamente pacificado. Não sabia?
O quadro geral da destruição das instituições foi traçado por Mouzinho e as suas leis entraram em vigor em 34.
A grande reforma administrativa foi a de Costa Cabral em 1842.
A guerra civil esquecida? Não antes de 51. Enfim…
Ah, se quiser indicar exactamente que Parlamento e que maoria entravaram ou desvirtuaram as leis de Mouzinho ficaria agradecido.
O único problema que actualmente se coloca entre quem exerce cargos e funções políticas de relevo é simples: estão a ser sérios ou não?
Já o meu paizinho, homem de grande sabedoria, dizia que sérios são eles todos… especialmente quando não se estão a rir.
Já o meu dizia o mesmo. E diziam muito bem, Zé.
O meu também assim dizia e frequentemente!
Sei muito pouco sobre a maçonaria.
Curiosamente, almocei hoje com um amigo meu, que eu ignorava ser maçon (adormecido, ao que parece, aparentemente pelas mesmas razões que sempre me impediriam a mim de pertencer a um partido político ou a uma igreja). Esteve umas duas horas a falar do assunto e de entre as várias coisas interessantes que disse, uma delas tem a ver com o segundo facto que eu sei e que referirei adiante: disse-me ele que duas pessoas da sua loja, numa cidade de província, se deslocam todas as semanas (aparentemente esta loja tem reuniões semanais) a essa cidade da província para não pertencerem a uma loja de Lisboa.
O segundo facto que conheço conta-se em dois segundos: há anos uma amiga disse-me que o marido morria e estalava (expressão minha) se não entrasse para a política, mas atendendo a que era um outsider, as hipóteses eram nulas. Tempos depois disse-me que ele tinha sido convidado para a maçonaria. Não lhe perguntei a resposta, mas uns tempos mais tarde ele entrou para o governo.
Penso que pôr a questão simplesmente em termos de seriedade é um pouco simplista. As declarações de interesses (económicos, por exemplo) não implicam falta de seriedade. São simplesmente peças importantes do puzzle da realidade.
Nem preciso de desdizê-la: posso concordar com as declarações de interesses, como referi no meu texto. Apenas lhe recordo que o essencial (sempre, sempre) é a seriedade. Obviamente, com competência e tudo isso que sabemos. Mas seriedade acima de tudo.
João Carvalho, a seriedade é condição necessária. Mas não é suficiente.
Esgotar a discussão da influência excessiva de um qualquer grupo na política portuguesa ma questão da seriedade é fazer de nós tolinhos, como diz por aí alguém.
O que está em causa, Isabel, é pertencer ou não a um grupo que reclama altruísmo e altos valores ao serviço da sociedade. Provar que assim é torna-se simples: demonstrar seriedade e pôr o patriotismo e a competência ao serviço da causa pública. Isto esgota coisa nenhuma, mas dá corpo ao que realmente é desejável.
O João desculpe-me a pergunta: mas está a brincar, não?
Diz-lhe alguma coisa a palavra cooptação?
Sabe, isto não tem nada a ver com a maçonaria propriamente dita, nem com os valores de que se reclama. Tem a ver com pescadinhas de rabo na boca.
Há um bom par de anos fiz parte de um júri de um concurso para um lugar numa organização internacional. O júri era constituído por 5 homens e eu, a única mulher, era acessora. Bastou-me ver o desfasamento entre as peguntas dos homens do júri e as respostas das mulheres candidatas ou, vice-versa, entre as minhas perguntas e as respostas dos homens candidatos para adquirir a firme convicção de que todos os júris deveriam ser mistos. Podemos estar a afirmar a iguladade entre homens e mulheres até vir a mulher da fava rica que nunca lá chegaremos se não fizermos isso.
E podemos estar a discutir a bondade da maçonaria até vir a mulher da fava rica que nunca impediremos o feedback positivo na sua importância como grupo nas instâncias de poder. E eu, como bióloga, sou uma acérrima defensora da biodiversidade.
Para além do mais, a maçonaria tem um programa político específico próprio, que podemos encontrar corporizado na 1ª república. Veja-se o que foi a 1ª república (expulsão de jesuítas, sujeitos a medições de crânio, etc, perseguição religiosa, clientelismo, milhares de nomeações, etc etc etc).
quanto ao presente, ainda há menos de um ano, o Eng. Henrique Neto explicava como é que pessoas tidas por incompetentes, de repente, “não era bem assim” e eram nomeados para o cargo…
V. sabe umas coisitas pela rama, mas é fracote. Pode continuar a escrever-nos que, se não for insultuoso, continuarei a editá-lo, mas deixei-lhe aqui as últimas respostas.
Agradecem-se factos e datas, não apreciações.
O autor do texto parece ser maçom… Ou será apenas séria impressão. Valeria a pena saber para interpretar adequadamente o texto. (Em tempo, sou católico, não o escondo e, se esta informação é importante para a interpretação deste comentário, hei-la aqui.)
Não sou.
Palavras do fiscalista Tiago Caiado Guerreiro:
http://www.youtube.com/watch?feature=pla yer_embedded&v=RNr1eOhA4qE