Ontem de manhã, por ter de esperar a minha vez num consultório, dei por mim a ver um programa de televisão (vi agora numa pesquisa que se chama “Cartas da Maya – O Dilema”) no qual a taróloga Maya respondia às dúvidas de uma senhora que tinha ligado para o canal através de um número de telefone começado por 760. Segundo se dizia são consultas de orientação pessoal ao vivo e em directo. Para lá da importância que se atribui à tarologia, numerologia ou astrologia a forma como as previsões ou conselhos são interpretadas por cada um também varia. Mas confesso que fiquei verdadeiramente boquiaberta quando, perante queixas de dores nas costas, por parte da tal senhora, ouvi, num tom de voz peremptório, expressões como: “é um problema muscular, não é grave, não é operável, passa com anti-inflamatórios”. E, pelos vistos, há várias “consultas” deste género por programa.
Podemos pensar, claro, que ninguém confia, mais que um tanto, nestes conselhos. Quando muito considera-os complementares. No entanto só a existência da dúvida numa matéria deste tipo parece-me bastante grave. Tanto investimento na formação de médicos e em meios de diagnóstico e depois, em segundos, as cartas que saem de um baralho dão, de uma penada, o diagnóstico e a terapêutica?
O dilema é portanto optar entre ir consultar um médico e pagar as novas taxas moderadoras ou fazer uma chamada telefónica o que, mesmo que seja para um número de valor acrescentado, sempre ficará mais barato. E daí…

Tens toda a razão, Ana. Espanta-me como é possível deixar passar estas “consultas” numa televisão.
Exactamente, Teresa. Não é na televisão pública mas a verdade é que, para muitos efeitos, toda a televisão é pública…
Inacreditável, Ana! E não é tão inócuo como pode parecer, já que a audiência desses programas é também constituída por pessoas fragilizadas e doentes, que ficam descansadas com esses diagnósticos simpáticos.
Claro que não é inócuo. Basta uma pessoa dar ouvidos a esta conversa, ser levada a ter um comportamento errado e ser prejudicada por isso, para já ser muito grave.