Essa pergunta não é de resposta fácil, Ana Sofia. Acho que já disse por aqui que nunca leio só um livro de cada vez. Mas, como a maioria dos livros que empilho na mesa de cabeceira é de poesia – neste momento há uma invasão da maravilhosa poesia brasileira, vários livros oferecidos e com dedicatórias que me comovem – falarei aqui do último que li em prosa, acabado ontem mesmo (atravessou comigo o ano, por sinal). É O Túnel, o primeiro romance do argentino Ernesto Sabato. Dele, já tinha lido em tempos “Heróis e túmulos”, um livro empolgante que me deixou água na boca e foi considerado, penso que muito justamente, o melhor romance argentino do século XX. O Túnel é um texto muito diferente, embora nos agarre igualmente pelos colarinhos e não nos deixe respirar até à última página. A estrutura é quase policial: um mergulho lento e a cada capítulo mais profundo numa trama obsessiva e tão bem urdida que, mesmo revelado o desfecho logo na primeira frase do livro, a história não perde o suspense, pelo contrário.
Juan Pablo Castel, um pintor de talento reconhecido – embora despreze totalmente as opiniões dos críticos sobre a sua obra – repara, numa exposição sua, numa mulher que, por sua vez, observa um dos seus quadros atentamente. Maravilha-o que ela se fixe num pormenor do quadro que ninguém mais parece valorizar: uma pequena janela, a um canto, através da qual se vê uma mulher olhando o mar. Está dado o mote: esta sequência, aparentemente inocente, de observadores e objectos de interesse – pintor>mulher>quadro>janela>mulher>mar – dá início a um caleidoscópio alucinante, um jogo de espelhos em permanente mutação que nos desvenda a labiríntica e tortuosa mente do narrador, o próprio pintor. Sob a batuta de uma paixão súbita e avassaladora (não mais do que um pretexto, já que o amor por Maria não passa da busca de um nome para um papel pré-definido), começa o opressivo bailado nupcial de predador e presa, dois seres desesperados e cada um deles perdido na sua própria e inescapável solidão: Maria, a vítima, que permanece triste e misteriosa até ao fim, e Castel, o implacável algoz, que nos vai conduzindo até à exaustão pelos abismos do seu pensamento, meticulosamente organizado mas circular: “Em geral, esta sensação de estar só no mundo aparece misturada com um orgulhoso sentimento de superioridade. Desprezo os homens, vejo-os feios, sujos, incapazes, ávidos, grosseiros e mesquinhos. E então a minha solidão não me assusta, é quase olímpica. Mas naquele momento, como noutros semelhantes, encontrava-me só como consequência dos meus piores atributos, das minhas baixas acções. Em tais casos sinto que o mundo é desprezível, mas também que faço parte dele, e sou invadido por uma fúria de aniquilação.” É este homem que, mesmo nos momentos de felicidade com a mulher que considera a sua alma gémea e a única pessoa no mundo capaz de compreendê-lo, é incapaz de aceitar essa felicidade e semeia nela uma dúvida envenenada até deitar tudo a perder. Um espírito destrutivo que tão bem cabe naquela frase de Schopenhauer: “Quando não tenho nenhuma angústia, é isso mesmo que me angustia”.
A narrativa, primorosamente escrita e rica de inquietantes metáforas (não falta até uma referência a Kafka e às suas metamorfoses, com a descrição de uma transformação do narrador em pássaro, num sonho), vai num crescendo de angústia e loucura que só pode levar a um final trágico. Já o sabíamos desde a primeira página, mas chegamos lá sem fôlego e ainda expectantes de alguma coisa que possa ter-nos escapado.
Ernesto Sabato é um desses escritores mágicos em que a América Latina tem sido pródiga. Tem uma escrita vibrante e lúcida, que prende irremediavelmente o leitor desde as primeiras linhas. Morreu neste ano que agora acabou, a dois meses de completar cem anos. Vale a pena lê-lo.
Título: “O Túnel”
Autor: Ernesto Sabato
Editora portuguesa: Relógio d’Água
135 páginas (de puro prazer)
E tu, António, o que andas a ler por estes dias?


Li há muitos anos ‘O Túnel’, numa edição dos Livros do Brasil. Um livro insólito, a meio caminho entre a literatura fantástica e gótica, que me fez lembrar uma conhecida novela de Branquinho da Fonseca, ‘O Barão’. A propósito, seria interessante estudarmos as influências recíprocas, supostas ou reais, entre alguns títulos emblemáticos da literatura portuguesa e certas obras da literatura universal. Com um pormenor digno de registo no caso que referi: a novela de Branquinho da Fonseca é de 1942 e ‘O Túnel’ só surgiu em 1947.
Outro exemplo, além do que deixo aqui, é a estreita ligação entre os ‘Capitães da Areia’, de Jorge Amado, e ‘Esteiros’, de Soeiro Pereira Gomes. Sucedendo neste caso ao contrário: o romance de Jorge Amado foi publicado em 1937, quatro anos antes dos ‘Esteiros’. E há as analogias, mais célebres ainda, entre ‘Madame Bovary’, de Flaubert (1857), e ‘O Primo Basílio’, de Eça (1878).
Também já li “O Barão” e tens razão, há semelhanças entre eles. Este tema das influências dava uma bela série para 2012.
Já agora, a propósito de “Os Capitães da Areia” (o meu livro preferido de Jorge Amado): não percas o filme, que deve estar a chegar a Portugal. A realização é da Cecília Amado, neta do escritor. Vi no Brasil e gostei muito.
Esses efeitos de contágio são realmente interessantes. E normais, como o próprio Eça reconhecia.
Eu li-o recentemente, na edição da Relógio d’Água, e também gostei bastante. Se calhar porque as obsessões me fascinam…
A mim também, Jaa. Não existe paisagem mais fascinante do que uma mente em exercício. Se for obsessiva e inteligente, mais ainda.
Agora apanhaste-me, Ana: não conheço e fiquei muito curiosa. Um puro prazer assim anunciado não se perde por nada deste mundo, embora o predador não faça exactamente o meu género 🙂
Eu empresto-te o livro (levo-to no próximo jantar).
Um predador destes não faz falta a ninguém, Laura, embora seja fascinante como objecto de estudo para quem está de fora. (e, no entanto, eu já conheci um muito parecido).
É sempre bom estarmos preparadas para reconhecer os sinais… Voilà. 🙂
Pfff… a nós já não nos apanham …
Espero bem que não… lol