O som dos nomes antes de os saber escrever


Rui Rocha,

Não sei se também vos aconteceu… No meu caso, antes de aprender a ler, os nomes de algumas pessoas soavam de maneira bem diferente daquela que vim a descobrir ser a forma correcta de os escrever. Por exemplo, para mim, Zeca Afonso era Zé Cafonso. Lembro-me também do Omar Xerife (na minha imaginação de menino, naturalmente, um herói do velho oeste) ou do Igreja Isqueiro (Igrejas Caeiro). A maior desilusão foi todavia o Sam Peque em Paz. O nome real de Sam Peckinpah não lhe servia nem para moço de recados.

30 comentários em “O som dos nomes antes de os saber escrever”

  1. Não me recordo dos nomes que dava às coisas, ou pessoas e personagens, mas reparo que os miúdos têm uma capacidade incrível de tornar as coisas mais simples. Por exemplo, conheço um amoroso, extremamente inteligente para a sua idade, que adaptou o nome de uma personagem dos seus desenhos animados favoritos. Passou de Tom Mate para Toma Leite. Há que reconhecer o espírito inventivo. 🙂

  2. E quando em miudo viajava no eléctrico da carris e o “pica”, puxando a correia de cabedal que percorria o trem, junto ao tecto e accionava uma campainha por cima da “mechela” do guarda-freio… sim, porque o que contava na quela época de velocidades vertiginosas, era saber guardar o freio com firmeza, e ordenava; pó de seguir… que era um pó que fazia o ronceiro engenho, mover-se…
    Ou então, quando passeava de mão dada com os meus pais, pelas ruas da baixa, inebriado pelos “artigos” expostos nas montras das pastelarias finas e ao passar por um invisual-músico-cantador, sentado num banquinho articulado, ele interrompia o canto e pregoava; é pó ceguinho…

  3. Vivi no Alentejo em plena época da revolução de Abril, recém-casada, e o meu apelido nessa altura era Vasconcelos. Resultado: todos por lá achavam que o meu marido se chamava José Vasco Gonçalves.

    Mas a melhor que conheço desse género é a de uma velha empregada, maravilhosa cozinheira mas quase analfabeta (nunca aprendeu a escrever mais do que o próprio nome) que se orgulha muito do seu Xico Zé. E tem toda a razão, não há outro cheese cake que lhe chegue aos calcanhares!

  4. :):) 🙂 Conheço uma criança que, quando instada a começar a eliminar os diminutivos, fez uma operação total e passou a chamar ‘golf’ ao golfinho… 🙂
    E para mim, uma certa cantilena que me cantavam para adormecer e rezava «uma velha tinha um gato / e debaixo da cama o tinha», foi, durante muitos anos, uma velha que guardava o gato debaixo da “camotinha”… Com essa autoridade, usava a palavra a torto e a direito 🙂 Fiquei envergonhadíssima quando descobri a tramóia que me tinham pregado…

  5. Assim de repente só me lembro dum Conderedondo e dum primo (de certeza…) duns primos meus de Valladolid,ainda por cima Duque, o Dávila …

    1. Pedro, não me digas que esse aí tinha a ver com um certo ‘must’ – perfume horrível – dos jovens-homens da geração acima da minha: – ”Brutus’, de seu nome.
      Sim, sim… eu sei. Foi há “n” décadas e eu era de facto uma pobre adolescente.. Mas já tinha muito faro 🙂 🙂

      1. Desse não me lembro, mas do Agua Brava, eh parentes, litros de Agua Brava…e Eau Sauvage…e Brut (…quand on aime et quand on est aimé…on pense..on offre…Brut…de Fabergé…! )

        (para o estilo good gracious me eram o Tabac e o Old Spice…)

  6. Lembro-me de coisas que não aconteciam “nem à leidabala” e de outras que passaram bem além da aquisição da leitura, como transuente (para além de cônjugue, claro): fui uma leitora muito precoce, mas certas palavras fizeram-me trocar os olhos durante anos.

  7. Já eu era adulto, quando descobri que a linha do Minho tinha dois ramais, um de Nine a Braga e outro de Trofa a Fafe. Até aí, pensava que apenas havia um – de Nine a Braga – e que outro era de “trofafafe”, ou seja, com comboios a carvão.

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