Opinião pública.


vidabreve,

Para alguma coisa há-de servir lermos Júlio Dinis: sempre nos dá um retrato do Portugal caciqueiro, sabujo e vil que antes de gritar merda repara no lado de que a merda vem.

 

Assistir ao comportamento da opinião pública nestes dez ou vinte anos em que foi passando das mercearias para os blogs e dos terços a Salazar para as invectivas em economês é um exercício doloroso e acabrunhante.

 

Os que fustigaram Cavaco por ser um parolo novo-rico, autoritário e rodeado de corruptos foram os mesmos que perdoaram a Sócrates a saloiice de fatinho laroca, o despotismo e a máfia que agora ocupa os conselhos de administração dos empreiteiros.

 

Não se espere mais consciência cívica dos apoiantes deste Governo. Às suspeitas sobre ministros respondem com um assobio para o ar, ao saque dos lugares públicos com um sorriso amarelo, às incursões ansiosas nos media com um encolher de ombros, às privatizações que se preparam sabe deus como dedicam silêncios fecundos, ao abuso das polícias uns considerandos filosóficos.

 

A única ética que sensibiliza a opinião pública lusitana é a que se pratica no comentário aos jogos da Liga: os nossos filhos da puta são melhores que os filhos da puta dos outros. Eis o seu credo e o fundamento da sua razão prática.

 

Que uma democracia sobreviva e frutifique entre gente assim é um milagre. Mas os milagres não existem, não se merecem nem, como veremos, costumam ser eternos.

12 comentários em “Opinião pública.”

  1. Muito bom, afinal na Aldeia da Roupa Branca não há só Lavadeiras, também há pessoas atentas e equilibradas. Parabéns !

  2. «Que uma democracia sobreviva e frutifique entre gente assim é um milagre.»

    Que uma democracia sobreviva e frutifique? Portugal não é uma democracia. É um autoritarismo que nem sequer se dispensa de alguns ridículos completamente evitáveis.
    Quanto a democracia, a única melhoria dos últimos tempos foi o Dr. Ricardo Salgado ter demitido (ou despedido) o Sócrates pela televisão, quando é certo que poderia tê-lo feito em privado e até através de terceiro, como lhe permite a constituição.

  3. E felizmente no tempo de Júlio Dinis não havia foot-bal……(futebol em inglês é assim?).

  4. Luís, e eu, se tivesse o teu talento para a escrita, assinaria na hora este teu post. É mesmo um milagre que uma democracia frutifique entre gente assim.

  5. Também gostei do seu post, mas penso que ele não perdia nada se o amigo tivesse poupado as mães dos jogadores de futebol que, no meu entender, não merecem ser tratadas assim. Se fossem as mães dos dirigentes dos clubes (grandes), também não concordaria consigo, mas entendia a sua raiva.

  6. Acompanho-te, Luís, em quase tudo.

    Porque estás a ser demasiado benévolo quando admites que a democracia frutifique neste ambiente. Não te iludas, não há milagres. Vivemos num simulacro permanente de democracia em que só os “filhos da puta “, como tu dizes, são de carne e osso.

    O resto são meia dúzia de esforçados anónimos, alguns funcionários desajeitados, muitos vermes rastejantes e uma multidão de desempregados, reformados e “sem terra”.

    1. Eu terra teinho a da minha abó, bou para lá no Natal.

      Não sou fatalista, Sérgio: as pessoas estão mais educadas, os media mais dispersos e menos manipuláveis, é uma questão de tempo. Embora também haja muitos atrasadinhos mentais, claro.

  7. Penso que faltou uma parte crucial.
    No Futebol dentro do campo a rivalidade continua.
    Por isso podem competir com os melhores na Europa.
    Nas assembleias da caciquagem depois de se chamar nomes uns aos outros nos media faz-se acordos para dividir o queijo.
    O Dr.Cavaco forçou o PSD à vez cúmplice e renitente a deixar passar 25% da Dívida de Sócrates.

    Por uma questão simples: é preciso ir ao bolso de todos buscar o queijo logo a ruptura não pode existir.

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