Xangai: momentos de nostalgia


jmmcc,

À Diana e ao José Maria

Cultivo uma loucura nostálgica por duas cidades que me perdem e onde me deixo perder e que estou sempre pronto a revisitar, as duas por igual: Xangai e Praga.

 

 

Por qualquer razão, associo sempre o filme E Tudo o Vento Levou à ocupação da China pelos japoneses, que invadiram Xangai e provocaram, em 1941, a debandada desesperada dos elegantes bairros de ocidentais. (A foto acima documenta que, também em 1941, o filme estava igualmente no Queen’s Theatre, em Hong Kong.)

Era nesses bairros que pontuavam as famílias americanas e europeias, que tinham introduzido aí uma indústria e comércio de pujança sem paralelo, a par de um insólito modo de vida ocidentalizado de que os xangainenses ainda hoje conservam alguma herança.

À chegada dos japoneses, Gone With The Wind estava num imenso cartaz no frontispício de um dos cinemas mais bem frequentados de Xangai (aparece em alguns trabalhos publicados e é visível no filme O Império do Sol).

 

 

Por esses dias, o Tema de Tara era a grande moda e tocava-se no melhor salão da cidade, no mais conhecido hotel em pleno “Bund” (a área histórica dos belos edifícios de arquitectura ocidental, junto ao rio), onde ficou famosa a banda de jazz que aí enchia as noites.

 

 

Já agora, para terminar e a talhe de foice: hoje em dia, vários edifícios do “Bund” voltaram a ser hotéis e bancos; alguns deles estão ocupados por estabelecimentos McDonald’s, Kentucky Fried Chicken, Pizza Hut, etc., onde fervilham milhões de chineses, numa espécie mais do que suspeita de regresso aos tempos áureos, uma forma de glorificação desse passado pujante que os americanos, como sempre, puxam a si.

 

 

Ainda isto: quando referi milhões de chineses nas lojas não foi a brincar. A longa, enorme, Avenida de Nanquim, na Baixa de Xangai, é indescritível e costuma ser considerada a artéria urbana mais movimentada do mundo…

(Publicado aqui)

16 comentários em “Xangai: momentos de nostalgia”

  1. Que agradável surpresa, João. 😉 Obrigado dos dois!

    Gostávamos de também ter conhecido a cidade nesses tempos, na verdade até desde o final do sec XIX quando a cidade começou a ganhar a importância que hoje tem.

    A Avenida de Nanquim deve ser aquilo que conhecemos por Nanjing (capital do sul) Lu, no novo sistema de chinês “vocalizado”. 🙂

    Já agora, o grande refúgio da cultura ocidental continua a ser o Bund, que, com a vista sobre Pudong, dá a sensação de se estar numa qualquer capital ocidental.

    1. Dá realmente vontade de ter conhecido Xangai desde que «a ganhar a importância que hoje tem» e, sobretudo, quando ganhou a importância que teve no segundo quartel do século XX. É extraordinário como o Bund nos parece uma cidade costeira europeia de arquitectura neoclássica.

      A Nanjinh Road (ou Lu) é essa mesmo. Nanjing está para Nanquim como Beijing está para Pequim: tratando-se de escrever por aproximação fonética, não encontro uma diferença tão grande que justifique alterar a tradição que temos cultivado há tanto tempo, mas este é apenas o meu ponto de vista.

  2. Desculpe o detalhe insignificante, mas deve ser o Tema de Tara, não?
    A foto da avenida é impressionante. É sempre pedonal, ou tem dias?

    1. Claro que é o Tema de Tara e já me apressei a corrigir o lapso. Obrigado.

      A avenida tem muitos quilómetros e só já muito afastada é que começa a perder importância comercial. As vezes que fui lá era quase toda destinada a tudo o que mexesse. Apesar das faixas destinadas a peões, a bicicletas e a automóveis, a verdade é que era uma desorganização de pôr os cabelos em pé! Ali, o caos é (ou era) mais uma atracção.

  3. QUEM PASSA POR XANGAI,NAO PASSA SEM LÁ VOLTAR!
    ÀS FEIRAS, AOS JARDINS DAS PONTES SERPENTEADAS ,~´AS MESQUITAS LINDÍSSIMAS ONDE A TRANSCENDÊNCIA É TOTAL, ÀS ESTAÇÕES DE COMBOIO ONDE A MULTIDÃO ANULA LITERALMENTE O INDIVÍDUO,

    ÀOS ROSTOS ESFOMEADOS ,ALGUNS DEFORMADOS POR DOENÇAS OU INCÊNDIOS MUITO FREQUENTES EM ZONAS PAUPÉRRIMAS,ÀS RUAS MALCHEIROSAS E RESTAURANTES INDESEJÁVEIS…

    SER AVERTRUZ NA CHINA,É UMA TRAIÇÃO À GRANDE CIVILIZAǺAO E AO SEU POVO.

  4. Fantástico: então é mesmo assim, como dizem. Só que a coisa (a traça ‘europeia’) vem muito mais de trás do que eu supunha: 2º quartel do séc. XX.
    As fotos centrais, digo-te: se me dissessem que eram de Philadelphia (foi o que me ocorreu, por conhecer bem) eu acreditava.

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