Da bestialidade humana


Pedro Correia,

 

Em França, um pai aparentemente furioso por o filho de três anos se ter portado mal na creche decide enfiá-lo na máquina de lavar a roupa e ligar o aparelho. A morte trágica da criança indefesa às mãos de quem devia assegurar-lhe sustento, agasalho e segurança em nome do mais elementar traço de civilidade, já para não evocar aqui a voz do sangue, suscita por estes dias larga polémica na pátria de Descartes e Diderot. Andámos durante demasiados anos entretidos por vendedores de ilusões que nos prometiam livre acesso à “modernidade” e supostas engenharias sociais que permitiriam forjar “novas famílias” subitamente despojadas do pecado original. Como se este estranho animal a que chamamos homem fosse moldado em plasticina.

Reparem no que se passa à nossa volta: por toda a parte irrompem sementes de violência, em tudo iguais às que assombram a espécie desde a primeira madrugada do mundo. Percebo bem esta perplexidade generalizada na pátria do iluminismo: andam os arautos da virtude há quase trezentos anos a prometer-nos o homem novo e a todo o momento regressam afinal as sombras do passado, empurrando-nos para longe das luzes, num cíclico retorno às trevas.

Leio as edições digitais dos periódicos franceses, onde não faltam as habituais teses prontas a invalidar o livre arbítrio em função de “factores sociais” que permitem “compreender” senão mesmo justificar os mais repugnantes crimes. Nada de novo: também o extremista norueguês que assassinou 77 pessoas em Julho acaba de ser considerado inimputável por respeitáveis psiquiatras encarregados de o examinar. Crente na bondade natural do homem, esta amável legião de sábios dos nossos dias encara sempre o mal como algo alheio aos tortuosos labirintos da mente.

De novo me interrogo se a noção de progresso é aplicável a qualquer horizonte sulcado pelos descendentes de Caim. De novo me questiono, como Adorno, se é possível haver poesia depois de Auschwitz ter acontecido. De novo me pergunto, com aquela angústia existencial que vislumbramos nos melhores quadros de Munch, se haverá limites para a bestialidade humana.

32 comentários em “Da bestialidade humana”

  1. Pedro, no caso norueguês a inimputabilidade garante que ele passa a vida inteira num manicómio em vez de 15 ou 20 anos numa prisão. Não é uma coisa má (claro que a alternativa era existir prisão perpétua, mas deixo a sua defesa para os indignados que ainda não comentaram este post).

    1. Por coincidência, ia hoje falar sobre o caso norueguês aqui. Não é garantido que ele passe a vida inteira num manicómio, Luís. Se ele for considerado curado – e para isso haverá avaliações periódicas do tratamento prescrito pelos médicos – vai acabar por sair em liberdade. Não sei se é justo ou injusto, sei que pode ser perigoso. E eu acredito na tese da doença. Como não acreditar nisso, depois das arrepiantes imagens da reconstituição do crime, em que ele estava absolutamente tranquilo e sem dar qualquer mostra de emoção enquanto revivia o banho de sangue? Só alguém muito alienado teria aquela atitude. O problema é que nenhum médico pode garantir que não se repetirá, mesmo que todos os indicadores sejam favoráveis. O desvio daquela mente é de uma profundidade assustadora.

      1. Confesso que a moldura penal é o que menos me interessa neste caso. O que me choca, isso sim, é verificar que um indivíduo que matou de forma fria, meticulosa e deliberada 77 seres humanos pode vir a ser considerado inimputável. Se qualquer ‘serial killer’ é louco, por definição, no limite nenhum deles responderá em juízo criminal. Não estaremos, com tais atestados de desresponsabilização, a incentivar novos actos de “loucura”, a qualquer momento, em qualquer lugar?

        1. Ana, há uma altura em que temos de confiar nas instituições — e é por isso, simetricamente, que devem ser mais vigiadas pela opinião pública. Custa-me a admitir que se curem assim casos destes, e por outro lado considera a alternativa: numa prisão estaria cá fora em quinze ou vinte anos.

          Pedro, não creio que o sistema penal no Ocidente esteja preparado para casos-limite, e seria interessante tentarmos perceber porquê. Restam-nos as defesas da saúde pública. Uma coisa é certa: aquela pessoa nunca andará sem vigilância, mesmo que saia para a rua.

          Outra questão: se a loucura de uns incentiva outros? Claro que sim.

          1. A questão que levantas é interessante, Luís. E daria um ‘post’. Ou dois ou três.
            De acordo: a loucura é contagiosa. Nunca devemos menosprezar o efeito mimético proporcionado pelos piores canalhas à face da terra. Uma espécie de atracção pelo abismo. Ou pelo esgoto.

  2. O pai que mata o filho na máquina de lavar como castigo, o outro pai que meteu a mão da filha dentro de azeite a ferver para ela aprender a não mexer nas coisas que estão ao lume, coisas como esta não são bestialidade. São apenas imbecilidade.
    A bestialidade humana manifesta-se pela crueldade com que pessoas cultas e inteligentes praticam ou mandam praticar a tortura. É difícil imaginar o que um homem é capaz de fazer a outro. Os louva-a-deus comem os olhos aos gafanhotos com eles vivos; os canídeos selvagens começam a comer as suas vítimas antes delas estarem mortas, os gatos brincam com os ratos antes dos comerem. Nada disto se compara aos tratos de polé da Idade Média, aos castigos dos nossos Administradores de Circunscrição aos indígenas das nossas colónias, ou a maneira como os soldados franceses matavam os argelinos antes da independência da Argélia.
    São só pequenos exemplos, claro!

    1. Salvo melhor opinião, nada é comparável ao que um pai daqueles é capaz de fazer ao próprio filho. Você chama-lhe imbecilidade: acho que está a ser muito suave na escolha do vocabulário. Imbecilidade é algo que até pode ser inócuo. Nada a ver com um comportamento criminoso deste género.
      Não falo da Idade Média nem de tempos mais recuados: falo dos dias em que vivemos, quando a noção de progresso está mais disseminada que nunca. E ponho em contraste, por isso mesmo, esse “progresso” material, tecnológico, científico, com o atavismo da natureza humana, que teima em permanecer amarrada à era das cavernas.
      Esta é uma realidade dura, incómoda, que muitos de nós insistem em não ver. Mas existe, não é possível negar tal evidência.

      1. Julgo que o Rómulo da Silva pretende dizer é que os crimes sistemáticos e institucionalizados que passam por um processo que deveria ser civilizacional por passar por um escrutínio de muitos são diferentes para pior que os casos destes pais.

        O termo imbecilidade está bem empregue se não virmos imbecilidade como apenas uma asneira mas como algo mais profundo.

        1. Houve muitas “imbecilidades” na Idade Média? E hoje, não há também “imbecilidades”? Ou será que acabaram na Guerra da Argélia? A escolha das palavras nunca é irrelevante.

  3. Por acaso pensava nisso mesmo a propósito de outro tema – não conhecia essa horrível notícia. Enfim, acreditar na bondade natural do Homem é normalmente meio caminho andado para o desastre.

  4. Seleccionar comportamentos vantajosos para uma espécie através da selecção natural demora milhões de anos.
    A espécie humana descobriu métodos muito mais rápidos de alcançar essas vantagens através da educação que forma o verniz da civilização.
    Claro que é um método com as suas fragilidades, visto que o ADN continua muito parecido ao que era (a tal natureza humana) mas é muito melhor do que esperarmos uma eternidade para acedermos a uma sociedade mais decente.

    1. Tocou num ponto certo: a educação forma o verniz da civilização. Apenas o verniz. Se não fosse assim como conseguiríamos explicar que o nazismo, talvez o mais bárbaro regime de todos os tempos, tenha germinado numa das nações mais cultas da Europa, berço das luzes que pretendia iluminar o mundo?

  5. Não creio que haja limites, Pedro. Somos capazes do melhor e do pior, todos nós, em determinadas circunstâncias. A bestialidade é uma grande parte da massa de que somos feitos. E a restante é frágil.

    1. O que é que o Carlos Slim e as mulheres africanas têm a ver com a história do homem que matou o filho em França e com o louco inimputável que assassinou 77 pessoas na Noruega? Meter tudo no mesmo saco acaba por nos impedir a reflexão. Porque a partir de certa altura limitamo-nos a raciocinar com base em chavões, do género: “Por detrás de uma grande fortuna está sempre um grande crime” (Balzac); “O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe” (Rousseau); “Não há rapazes maus” (Padre Américo).
      Etc, etc.
      Resultado: a responsabilidade individual dilui-se sempre na chamada responsabilidade colectiva. A culpa é da sociedade, por ser tão injusta.

        1. Não é a sociedade que corrompe o homem. O homem é corruptível por natureza. É uma questão filosófica que gostaria de debater. Mas não nesta caixa de comentários. Haverá outras ocasiões para o efeito.

          1. já vi que Rousseau e Locke não te convencem, Pedro… és mais Hobbes e Russel 🙂 Vamos lá à metafísica, que a física está pela hora da morte.

          2. Um debate que aguardo. Note que não discordo que o homem seja corruptível. É-o certamente.
            Onde parecemos discordar é que essa corrupção sempre um acto de vontade e, sobretudo, de liberdade.

            Já agora, para esta discussão, prefiro usar “circunstâncias” em vez de “sociedade”. A sociedade tem costas largas.

  6. Bom: ontem não tive coragem de te ler. Ou melhor: não me apeteceu ler… Cá estou agora. É que se há violência execrável, aberrante e humanamente inconcebível é a de pais para filhos (e vice versa). Se calhar, todas as gerações se escandalizaram, como nós. Mas também me parece que, ou me engano muito, ou os códigos penais e os penalistas do séc.XX têm os dias contados. Mais contados, de certeza, do que essa ‘leveza’ de que falas com que se constroem (?) famílias, como se as pessoas fossem um valor tão descartável quanto o humor do dia e tão relativo’ quanto os vanguardismos de geração . É o logo se vê. É o “apetece-me, logo existo”.

    1. É como digo, Laura. Andaram demasiado tempo a iludir-nos com o “homem novo”, com a “modernidade” das relações humanas. Tretas. O homem velho, com os seus fantasmas ancestrais, permanece sob uma finíssima capa de verniz.

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