Modo de Vida (22)


Adolfo Mesquita Nunes,

Cheguei atrasado ao fado, um pouco como quem se encontra na religião depois de a ter negado. Não dou grande importância ao atraso, até porque permitiu a boa sofreguidão na descoberta, mas não o nego. Não entendo por isso aqueles que, de uma década para a outra, fingem nunca ter desdenhado a coisa. E desdenhado é favor, que houve quem fosse saneado ou esconjurado ou relegado só por, na linguagem de agora, ter dado voz ao sentir português.

5 comentários em “Modo de Vida (22)”

      1. É… muitas vezes, a memória dos homens revela-se curtíssima, sobretudo a daqueles que não lhes incomoda nada vender a alma ao diabo, e poderem mostrar os sapatos novos.
        Esses, agora afirmam a pés juntos, que sempre adoraram o fado, que sempre respiraram fado, que o fado sempre lhes correu nas veias.
        Amanhã, logo se verá…

    1. E vão três. Agora não há bicho careta que não cante fado e não se arme em defensor de uma coisa que antes considerava menor. Ao que parece o fado está na moda, e ainda bem. Mas, como de costume neste país que se envergonha de tudo o que é seu, foi um movimento de fora para dentro que o valorizou: não fora a World Music espalhar o fado aos quatro ventos e ainda estaríamos a hesitar entre gostar dele ou não…

      1. Se a hesitação estivesse só entre gostar ou não, ainda era como o outro, Ana. O que hoje se diz, e de certa forma bem, do fado enquanto elemento integrante da nossa identidade vai muito para além disso. E quem tão empenhadamente se apressou a tratar de, com a arrogância típica dos que acham que criam o Homem novo, relegar o fado para um qualquer baú aí estão a aplaudir a imaterialidade do património…

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