Este envolvimento…


jmmcc,

Neste meu regresso à Terceira, fiz escala em São Miguel e passei algumas horas em Ponta Delgada, onde vivi três anos e onde não ia há uns dois anos e meio, desde que me mudei para Angra do Heroísmo. Guardo dentro de mim, sem o esconder, um imenso gosto por São Miguel e pela vida em Ponta Delgada, ainda que a cidade não seja especialmente atraente. Foi assim que me lembrei da primeira crónica que escrevi (com o título deste post) a pedido de uma publicação editada em Lisboa, pouco depois de me ter instalado nos Açores, em 2006. Não resisti a repescá-la.

 

 

Há qualquer coisa indefinida nos Açores que nos envolve. Em especial, na ilha espaçosa de São Miguel, a gente sente algo que está para lá do nosso olhar, do que é palpável, do que temos por óbvio. Somos misteriosamente envolvidos e vamo-nos deixando envolver.

O envolvimento imediato é a natureza. A moldura marítima da ‘ilha verde’ mal serve para conter os imensos cambiantes verdes da paisagem, que oscila entre os tons mais profundos e as manchas mais subtis. Quase temos medo de lhes tocar, para que não se estraguem.

É difícil perceber que há terra por baixo disto tudo, terra mesmo, terra pura, terra mineral, terra dura e terra mole, terra de pedra e terra de pó. É difícil encontrá-la. A terra está ali, tem de estar, mas não se vê. Com excepção de um ou outro cabeço de vegetação parca e rasteira, onde se descobrem os basaltos, tudo o resto é coberto de verde. A vegetação estende-se sem deixar terra à vista: se não é bosque denso, é pastagem ampla; se não é arvoredo, é erva; se não são arbustos de folha perene, são flores coloridas sazonais. Terra? Terra só se adivinha. Não se vê.

Continua a haver mais qualquer coisa. Percebe-se que há carinho. A ilha é lavada e aparada todo o tempo. Grupos de cantoneiros e jardineiros correm diariamente as estradas da ilha: o asfalto é lavado e as bermas são limpas; as águas pluviais, quando chegam para regar a ‘ilha verde’, acompanham livres as descidas das estradas; os homens aparam as ervas pujantes, plantam arbustos, preenchem intervalos; os da frente trabalham com cortadeiras e juntam com instrumentos de cabo os pequenos montes que os de trás recolhem em viaturas. Cantoneiros e jardineiros abraçam a natureza e plantam carinhos.

Mas há mais qualquer coisa. A opinião pública vem aos jornais: aqui, o sinal de trânsito ameaça dobrar-se; ali, aquele muro pequeno foi derrubado e está a desmanchar-se; acolá, aquela árvore precisa de ser podada e reencaminhada para o céu; além, aquela curva da estrada está a receber uns deslizes de terras quando chove. Depois, a gente vai aos lugares e vê que já se compôs: o sinal foi recolocado, o muro foi refeito, a árvore foi cuidada, as terras foram sustidas e a curva foi limpa.

Há mais qualquer coisa. Os sentidos percebem o que se alcança, mas pressente-se algo mais que nos rodeia. A via rápida que contorna Ponta Delgada não tem qualquer designação fria e formal. Não se chama primeira ou segunda circular, nem via de cintura interna ou externa, tão pouco eixo Norte-Sul ou Nascente-Poente. Nas placas avisadoras que a apontam, lê-se o nome que lhe dão: «envolvente».

É poético, é carinhoso. É também um detalhe, é certo. Por isso é ainda mais poético, mais carinhoso. Nunca podia ser simples via rápida: é «envolvente». É assim, em São Miguel: há sempre mais qualquer coisa. É este afago constante que nos envolve…

28 comentários em “Este envolvimento…”

  1. Maravilha, João: não me lembro de ler nada tão sedutor e convidativo sobre S. Miguel. Aproveita bem esse sítio onde o tempo ainda é tangível e consegue fazer sentido.

  2. Adorei o texto. Há um outro envolvimento que adoro nos Açores: as pronúncias com sonoridades riquíssimas e variadas que nos envolvem num calor humano especial 🙂

  3. Pois. Eu já tinha percebido que, nos Açores, tinha de haver qualquer coisa de especial.
    Por um daqueles acasos que se não explicam, só li Mau tempo no canal há uns 4 ou 5 anos. Li e já reli no todo ou em partes mais do que uma vez. Sempre o achei fascinante, mas agora percebo que o adjectivo é outro: envolvente.
    Belo texto, John.

  4. O texto é, de facto, envolvente e encantador.
    Mas nada supera o que encontramos em S. Miguel, aquela beleza simples em cada esquina e aquelas incrivelmente surpreendentes que nos aparecem à frente, apesar de já as conhecermos por fotografia, mas que são ainda maiores belezas do que alguma vez sonhamos.
    Nada lhe fará justiça, de tal forma abençoada e linda é essa terra.
    Ainda bem que pudeste lá voltar e como eu desejo voltar também.
    Muito boa esta repescagem… dá cá uma saudade!
    Viveria aí para sempre.

      1. Revisitaria cada esquina como se de romagem de saudade se tratasse.
        Esses verdes, essas cores que teimosamente mudam de tom consoante a luz do sol, conferem-lhe um encanto ímpar.
        A partir daí, penso deliciada, que há paraíso na terra.

  5. Já visitei os Açores por três vezes.
    Duas exclusivamente em S.Miguel e outra em S.Migue,Faial, Terceira e Pico…
    Mas S. Miguel encheu-me os olhos, os sentidos todos e a alma…
    Sempre que sinto saudades revejo as fotos e então…QUE SAUDADES!!!
    Bem Haja

  6. Excelente texto. E estou totalmente de acordo. Os Açores são um lugar especial. Em Ponta Delgada só não sei se gosto (que é como quem diz, acho que não gosto) da marina nova (visível na última foto que usaste). Pode ter ficado um espaço “moderno” e com grande utilidade mas eu preferia-o mais desafogado e natural. Como dei a entender aqui:
    http://escafandro.blogs.sapo.pt/242621.html

    1. Tens inteira razão. Aquela obra monumental é muito mais do que uma (segunda) marina, visto que se trata de um complexo extenso. Ainda aquilo não tinha começado e já eu escrevia que o projecto nada augurava de bom, pelos motivos que são conhecidos: afastar e contribuir para o divórcio entre uma cidade costeira e o mar tende sempre a ser uma decisão péssima.

  7. Deixei-me envolver e fui buscar um trecho de Laurinda Alves: «Os açorianos são pessoas especialmente hospitaleiras e atentas aos outros. Com uma curiosidade quase infantil ouvem as perguntas que lhes fazemos e sorriem como quem conhece há muito a resposta a dar. Mostram o caminho, ensinam os atalhos, acompanham-nos na estrada e só desistem de nós quando temos a certeza de encontrar aquilo que procurávamos. Parecem anjos na terra, sempre com tempo, sempre a sorrir, sempre prestáveis e sempre sem pressas. Esboçam no ar gestos antigos para mostrar os caminhos que eles próprios traçaram. Vamos, voltamos e eles continuam no mesmo lugar…»
    Tem dias em que gostava de ter um açoriano, assim, perto de mim.

      1. ehehehe
        Ainda bem, que não faz o seu género, ou seria uma decepção.
        Mas que apetece ter 1 açoriano, por perto, com aquelas caracteristicas….lá isso apetece. :-))

          1. Sobrou com certeza. Não faltarão açorianas capazes de o ajudarem a descobrir mais qualquer coisa. Um afago, talvez.

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