Duas verdades, uma mentira e um desejo insincero de concretização improvável sobre a minha relação com o dia de hoje


escafandro,

Sou republicano, adoro ouvir os discursos de Cavaco e ainda hei-de aproveitar o dia para visitar os jardins do Palácio de Belém. Mas acho que este feriado não faz sentido.

 

Adenda: É possível que no dia 1 de Novembro aqui coloque novamente a segunda frase, eliminando apenas a adversativa. E no dia 8 de Dezembro. E no dia 7 de Junho do próximo ano. E no dia 15 de Agosto. Quanto aos restantes feriados, provavelmente deixá-los-ei em paz.

10 comentários em “Duas verdades, uma mentira e um desejo insincero de concretização improvável sobre a minha relação com o dia de hoje”

  1. Penso que o feriado de 1 de Novembro continua a fazer sentido. Pois é a única oportunidade regular da sociedade como um todo se confrontar com o enigma da morte. Que permanece o grande tabu.

    Faz falta um “dia dos mortos”, um dia memorial, para que todos os dias sejam dias de pegar a vida, por mais dura que seja. Esconder os mortos, ignorá-los, é apenas criar um mundo de mortos-vivos. Uma sociedade de zombies é o que temos.

    1. O “dia dos mortos”, como V. lhe chama, é 2 de Novembro e não 1, que é o de “todos os santos”…

  2. Assaltou-me agora uma inquietação: com a prevista fusão (“agregação”) de municípios, vamos ter fusão de feriados municipais? Vai ser um berbicacho…

    1. Ora, ora… Não vai haver qualquer fusão, agregação ou seja lá o que for de municípios. Ou V. ainda acredita em histórias da carochinha?

  3. Reporter da história:

    …” De volta de dois meses de férias nas doces margens do lago Leman, cheguei a Lisboa na véspera da revolução.
    Poucas horas depois de um breve tiroteio de barricada no alto da Avenida e de um lacónico bombardeamento proveniente de uma insubordinação de marinheiros a bordo de um navio de guerra, proclama-se perante Lisboa atónica e, imediatamente depois, perante a passividade do país inteiro, o triunfo dos revolucionários.
    Este desenlace quase incruento ´em sua aparente superficialidade o trágico desmoronamento instantâneo de todo o velho mundo. É o reviramento, com o de dentro para fora e com o debaixo para cima, de uma sociedade inteiramente desarticulada. É uma nação ferida de morte na contiuidade da sua tradição e da história.
    …” Pobres homens, mais dignos de piedade de que rancor, os quais inaginam que é com um carapuço frígio, talhado à pressa em pano verde e vermelho, manchado no lodo de uma revolta num bairro de Lisboa, que mais dignamente se pode coroar a veneranda cabeça de uma pátria em que se geraram tantos grandes homens, a cuja memória imperecível, e não aos nossos mesquinhos feitos de hoje em dia, devemos ainda os últimos restos de consideração a que podemos aspirar no mundo. Pobre gente! Pobre pátria!

    Ramalho Ortigão
    Farpas 1911

    1. Citação adequada, AMendes. Como referi no post, sou republicano (essa era uma das verdades). Mas admito que todo o processo de implantação da República – e, depois, a própria República – deixou muito a desejar.

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