Alguns dos escritores portugueses actuais apressam-se a chegar em primeiro lugar à escrita em ‘acordês’, esquecendo as responsabilidades que têm na defesa da norma ortográfica clássica, baseada na etimologia, como sucede na generalidade das línguas cultas.
Que contraste entre este conformismo dos nossos dias e a oposição tenaz que alguns dos nossos maiores escritores do século XX, como Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner Andresen e Vergílio Ferreira, moveram ao famigerado ‘acordo’ de 1990. Honrando uma longa tradição de rebeldia, iniciada por Fernando Pessoa e outros membros da geração Orpheu contra a reforma ortográfica de 1911.
Que diferença entre o desassombro daqueles mestres da literatura portuguesa e a passividade actual, com tantos intelectuais de orelha murcha e joelho no chão, acatando “ordens superiores” do poder político para saberem como devem escrever.


Às ordens da baixa produção política e da fraca realização do professor Casteleiro, quedam-se e rendem-se à anti-intelectualidade sem valor crítico que caracteriza os dias que passam e desonra os grandes que muito bem recordas, compadre.
Em duas décadas, a capacidade de indignação dos intelectuais portugueses foi ficando pelo caminho, compadre. Basta uma comparação entre o que foram as acesas polémicas de 1988-90 e o marasmo actual, com diversos escritores apressando-se para escrever em acordês como se não houvesse amanhã. Uma falta de dignidade – e de apego à língua portuguesa, a sua ferramenta de eleição – verdadeiramente vergonhosa da parte destes ‘intelectuais’.
A propósito deste assunto, permito-me citar Bernardo Soares:
«(…) Minha Pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
»Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»
No “Livro do Desassossego.
E dizer que muitos desses “escritores” portugueses actuais fazem-se passar por «Pessoanos». O descaramento nunca teve limites. Têm-se em demasiada consideração. Por esses espécimes, não tenho consideração nenhuma.
Cumprimentos,
André.
Não podiam vir mais a propósito essas citações. Obrigado, André.
Ou ensaiando melhor:
«(…) Minha Patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ypsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
« Sim, porque a orthographiia tambem é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da translitteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto regio, pelo qual é senhora e rainha.»
Cumpr.
Não leram Bernardo Soares, Pedro.
Pois não, Ivone. E nem querem saber, o que ainda é mais grave.
Antes…
Doutros tempos desassombrados
por gentes de grande cultura
ficaram empenhos lembrados
de tão valorosa postura.
Agora…
Dessas palavras perdidas
entre falsas alegações
sobejam honras vendidas
por reles empertigações.
É isso, Manuel, é isso…
Escrever é transgredir mas não para todos. Alguns fazem apenas cópias esforçadas.
Pois, Leonor. É inútil esperar deles mais que isso.
Eu não sigo o acordo (e nalgumas coisas nem o que havia antes do acordo sigo). Tenho visto uns quantos livros mais recentes e em certos casos até, só como leitor, fico envergonhado. Com erros, frases sem sentido, coisas imperceptíveis. Mas tudo, digamos assim, legal. Parece ser o que interessa.
Mas isso já não tem a ver com o acordo, António.
Isso ainda consegue ser mais grave do que o aborto ortográfico, António.
Se os bons revisores literários e ortográficos estavam em extinção, a crise encarregou-se de enterrar os que sobreviviam. Poupam-se mais uns tostões.
Isso de chamar “escritores” a toda a gente que publica livros tem muito que se lhe diga.
Tem razão, Javali.
Tive à pouco tempo o prazer de ler, finalmente, uma edição,
tida como completa, fora o que possa ainda sair do baú, como a obra completa do Engº Álvaro de Campo, editada
pela Estampa, com organização, fixação e notas de Teresa Rita Lopes, em que é mantida a ortografia usada por Pessoa.
E mesmo para mim que já vou nos 66, há coisas que fazem pensar e estranhar. Sahida já conhecia das portas dos cinemas mais antigos, mas há outras palavras com o ai que tinham o h mudo. Farmácia e outras palavras que se liam e falavam como f mas escritas com ph. Mas já menos vulgar é sonno e consoantes mudas.
A questão para mim é se em nome da pureza da língua a
ortografia deve congelar e não acompanhar, digamos a vida. Aliás neste último acordo há uma questão de pragmatismo queremos uma língua comum a muitos milhões ou ficar “orgulhosamente sós”
Caro Fernando: a língua não deve congelar, nem congela. Todos os dias se renova, todos os dias recebe os mais diversos contributos – uns óptimos, outros péssimos (como os que vêm do jargão económico ou são más traduções do americanês).
A questão é que nenhuma língua – em todas as suas componentes, incluindo a ortográfica – se impõe ou modifica por decreto. Os políticos não são linguistas nem lexicógrafos e quando se aventuram por tais vias fazem asneira grossa, como foi o caso deste (des)acordo ortográfico mal concebido e mal parido.
Pior que tudo é verificar que bastaram 20 anos para se notar um evidente esmorecimento e uma clara apatia na sociedade portuguesa que nos levam a consentir tudo sem um esboço de protesto – e neste caso alguns dos piores exemplos partiram dos chamados “intelectuais”. Que já tiveram a pretensão de ser o farol do mundo e hoje, na maior parte das vezes, mais não conseguem ser do que uma espécie de carro-vassoura lá do bairro onde moram…
Louvo-lhe a elegante resposta mas não me abstenho de lhe dizer particularmente que as dificuldades com a gramática no comentário a que responde são por norma (infiro do muito que tenho lido a acorditas mais ou menos empenhados) muito mais frequentes nos acorditas que nos que se opõem à…. coisa, embora haja falhas de parte a parte naturalmente.
O que me leva a concluir com alguma razão, que o… «coiso», podendo não inteiramente ser de burros (de chicos-espertos sim), é um produto voltado a esse mercado. Claro que os burros se regozijam muito da oferta, que de mais a mais lhes parece grátis. Haviam lá os burros de entendê-lo.
Cumpts.
(Sendo que chegue ao destinatário, melhor é deixar este por publicar.)
Tive à pouco tempo…, ou tive HÁ pouco tempo…, meu caro Sr Fernando Miguel? Já que estamos a falar de “bom português”…
Pedro: nas últimas décadas fomos atacados por um novo-riquismo atroz que em grande medida se manifesta na adoração de tudo o que pareça moderno (e para que algo pareça moderno basta que se proponha mudar o que existia). Os intelectuais não ficaram imunes. Eles acham que é assim que ficam na vanguarda. Nem se apercebem (porque, convenhamos, são intelectuais fraquinhos) da vacuidade que tal seguidismo revela.
Sei disso, meu caro, e mesmo assim ainda me espanto ao ver que alguns deles acorrem, pressurosos, a abraçar a ‘nova’ ortografia numa revista literária e num jornal literário que aí se publicam. Tornando a ortografia tão irrelevante e descartável como um balde de pipocas.
Deixei de comprar ambos. Há três meses até escrevi sobre a conversão na revista, como te lembrarás: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/31 93033.html.
Folheei o primeiro número pós-acordo no mês passado e verifiquei que – ao menos isso – quase todos os colunistas escreveram segundo a norma anterior. As duas ‘exceções’ que recordo eram Agualusa e Eduardo Pitta. Digamos apenas que pelo menos num dos casos isso não surpreende.