Quase um poema de amor


lauraramos,
 


 

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

22 comentários em “Quase um poema de amor”

    1. Estou exactamente como tu. Mas quando são bons… esmagam. Agora ando a ‘torgar’ bastante, coisa para que antes não tinha grande inclinação. A proximidade tem destas coisas, às vezes repele (e tenho a casa-museu a poucos metros da minha…)

  1. Uma das minhas mais memoráveis experiências jornalísticas foi a deslocação a São Martinho da Anta, onde conheci a humilde casa da família de Torga. Uma casinha completada com um minúsculo quintal que lhe serviu de berço e de inspiração para muitos dos seus textos mais marcantes.
    Torga é um dos nossos melhores contistas de sempre. O seu ‘Diário’ é uma obra de referência, do ponto de vista literário mas também do ponto de vista histórico e cívico.
    E tem também momentos excepcionais como poeta, em livros como ‘Poemas Ibéricos’, embora a sua poesia – como a do Manuel Alegre, por exemplo – seja sobretudo para ser recitada (recordo sempre com emoção a ‘Ode à Poesia’, dita pelo Villaret: «Vou de comboio… / Vou, / Mecanizado e duro como sou / Neste dia; / – E mesmo assim tu vens, tu me visitas! / Tu ranges nestes ferros e palpitas/ Dentro de mim, Poesia!»). Ou para ser cantada.
    Estranho, aliás, que tão poucos compositores e cantores a tenham aproveitado até hoje. Uma das excepções aconteceu com o Rui Veloso, logo no álbum inaugural, em que tão bem cantou “Sei de uma camponesa”.

    1. Engraçado, Pedro, não sabia que essa letra do Rui Veloso é um poema de Miguel Torga! Obrigada pela informação. Agora que o sei parece-me lógico, é forte e telúrico como quase tudo o que ele escreveu.

        1. Não me lembrava dessa canção, o poema de Torga é muito conhecido e é lindo. Mas olha que a outra letra, mesmo sendo aquele jogo de palavras tão característico do Tê, também podia ser do Torga.

    2. S. Martinho de Anta é Adolfo Rocha. A casa museu, na praceta Fernando Pessoa, é Torga…
      Engraçado isso que dizes, Pedro, porque de facto os poemas dele são rítmicos, sincopados, engrandecem numa voz. A Ode à poesia… que auto retrato perfeito.

  2. Bucólica

    A vida é feita de nadas:
    De grandes serras paradas
    À espera de movimento;
    De searas onduladas
    Pelo vento;
    De casas de moradia
    Caídas e com sinais
    De ninhos que outrora havia
    Nos beirais;
    De poeira;
    De sombra de uma figueira:
    Meu pai a erguer uma videira
    Como uma mãe que faz a trança à filha.

    E haverá poesia que se preze que não seja para ser recitada? Ou cantada? (Este por acaso é das coisas que eu mais gosto de cantar). Diz quem sabe:

    “Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte
    de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.

    Eu era de fato tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.

    Pensava também que se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos
    lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.”

  3. Ups! A preguiça é a mãe de todos os vícios. Devia ter verificado a versão que colei aqui. Recomeço:

    Bucólica

    A vida é feita de nadas:
    De grandes serras paradas
    À espera de movimento;
    De searas onduladas
    Pelo vento;
    De casas de moradia
    Caiadas e com sinais
    De ninhos que outrora havia
    Nos beirais;
    De poeira;
    De sombra de uma figueira;
    Dever esta maravilha:
    Meu pai a erguer uma videira
    Como uma mãe que faz a trança à filha.

    1. Belíssima, Isabel. Esta, sim, é uma «bucólica» tradicional. Mas por acaso o que o que mais aprecio no Torga é um pouco o contrário disto, porque aí é que ele é diferente. Acho mesmo que nunca li autor que tanto conseguisse inspirar-se na ruralidade sem cair no género bucólico habitual, meio casto, meio ingénuo: com ele, a maioria das vezes, é tudo muito forte, quase bruto. Puro, está bem: mas nem sempre ‘gracioso’. Chega a ser cáustico. E eu gosto muito desse lado.

      1. Talvez. Mas eu sempre tive a convicção de que a vida é feita de nadas. E faz-me lembrar muito o meu próprio pai…

        A grande qualidade da literatura em geral, e da poesia em particular, é que “bate” em cada um como em cada qual. 😉

          1. Interessante. Não conhecia, e por acaso não gosto, provavelmente por ter na cabeça outra versão completamente diferente, mais lírica ou, melhor, mais “cantabile”.

            E já me estava a esquecer de outra relação muito pessoal com este poema: tal como a Sophia de Mello Breyner, ainda antes de saber ler (ou ao mesmo tempo que aprendia, uma vez que das sessões de fisioterapia faziam perte sessões de b-a-ba, t-a-ta, t-a-ta, BA-TA-TA!) ouvi frequentemente este poema declamado pelo meu médico numa voz de estentor. O mesmo médico que me ofereceu os Lusíadas quando eu fiz a qurta classe. 😉

          2. Que engraçado, Isabel 🙂 Os livros, como a música, são das teias de cumplicidade mais poderosas que conheço. E não parece.

  4. Lembrei-me também deste, que é muito bonito e de uma simplicidade desarmante:

    UM POEMA

    Não tenhas medo, ouve:
    É um poema
    Um misto de oração e de feitiço…
    Sem qualquer compromisso,
    Ouve-o atentamente,
    De coração lavado.
    Poderás decorá-lo
    E rezá-lo
    Ao deitar
    Ao levantar,
    Ou nas restantes horas de tristeza.
    Na segura certeza
    De que mal não te faz.
    E pode acontecer que te dê paz…

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