Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.


No Torga, prefiro os contos à poesia. Mas alguns poemas são muito, muito bons. Este é um deles.
Estou exactamente como tu. Mas quando são bons… esmagam. Agora ando a ‘torgar’ bastante, coisa para que antes não tinha grande inclinação. A proximidade tem destas coisas, às vezes repele (e tenho a casa-museu a poucos metros da minha…)
Quando são bons, esmagam. É isso mesmo, Laura.
Uma das minhas mais memoráveis experiências jornalísticas foi a deslocação a São Martinho da Anta, onde conheci a humilde casa da família de Torga. Uma casinha completada com um minúsculo quintal que lhe serviu de berço e de inspiração para muitos dos seus textos mais marcantes.
Torga é um dos nossos melhores contistas de sempre. O seu ‘Diário’ é uma obra de referência, do ponto de vista literário mas também do ponto de vista histórico e cívico.
E tem também momentos excepcionais como poeta, em livros como ‘Poemas Ibéricos’, embora a sua poesia – como a do Manuel Alegre, por exemplo – seja sobretudo para ser recitada (recordo sempre com emoção a ‘Ode à Poesia’, dita pelo Villaret: «Vou de comboio… / Vou, / Mecanizado e duro como sou / Neste dia; / – E mesmo assim tu vens, tu me visitas! / Tu ranges nestes ferros e palpitas/ Dentro de mim, Poesia!»). Ou para ser cantada.
Estranho, aliás, que tão poucos compositores e cantores a tenham aproveitado até hoje. Uma das excepções aconteceu com o Rui Veloso, logo no álbum inaugural, em que tão bem cantou “Sei de uma camponesa”.
Engraçado, Pedro, não sabia que essa letra do Rui Veloso é um poema de Miguel Torga! Obrigada pela informação. Agora que o sei parece-me lógico, é forte e telúrico como quase tudo o que ele escreveu.
A memória traiu-me, Ana. A canção com letra do Torga vem no segundo álbum do Rui Veloso, o ‘Fora de Moda’, e chama-se ‘Bucólica’.
Assim é que é.
Não me lembrava dessa canção, o poema de Torga é muito conhecido e é lindo. Mas olha que a outra letra, mesmo sendo aquele jogo de palavras tão característico do Tê, também podia ser do Torga.
S. Martinho de Anta é Adolfo Rocha. A casa museu, na praceta Fernando Pessoa, é Torga…
Engraçado isso que dizes, Pedro, porque de facto os poemas dele são rítmicos, sincopados, engrandecem numa voz. A Ode à poesia… que auto retrato perfeito.
Bucólica
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
E haverá poesia que se preze que não seja para ser recitada? Ou cantada? (Este por acaso é das coisas que eu mais gosto de cantar). Diz quem sabe:
“Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte
de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de fato tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos
lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.”
Isabel: eu tb ouvia a Nau Catrineta, loool 🙂 Ainda seremos do tempo em que as lengalengas para adormecer eram de antologia, que sorte a nossa!
Ups! A preguiça é a mãe de todos os vícios. Devia ter verificado a versão que colei aqui. Recomeço:
Bucólica
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
Dever esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
Belíssima, Isabel. Esta, sim, é uma «bucólica» tradicional. Mas por acaso o que o que mais aprecio no Torga é um pouco o contrário disto, porque aí é que ele é diferente. Acho mesmo que nunca li autor que tanto conseguisse inspirar-se na ruralidade sem cair no género bucólico habitual, meio casto, meio ingénuo: com ele, a maioria das vezes, é tudo muito forte, quase bruto. Puro, está bem: mas nem sempre ‘gracioso’. Chega a ser cáustico. E eu gosto muito desse lado.
Talvez. Mas eu sempre tive a convicção de que a vida é feita de nadas. E faz-me lembrar muito o meu próprio pai…
A grande qualidade da literatura em geral, e da poesia em particular, é que “bate” em cada um como em cada qual. 😉
Por isso a lemos… Afinal é essa ciência – da vida feita de “nadas” – que se calhar distingue os que gostam de poesia daqueles que não gostam.
Cá está a ‘Bucólica’, que (tão bem) foi cantada pelo Rui Veloso.
Nem mais! Bem bonita. Tens razão, Pedro: alguns cantores deviam pegar mais em Torga.
Interessante. Não conhecia, e por acaso não gosto, provavelmente por ter na cabeça outra versão completamente diferente, mais lírica ou, melhor, mais “cantabile”.
E já me estava a esquecer de outra relação muito pessoal com este poema: tal como a Sophia de Mello Breyner, ainda antes de saber ler (ou ao mesmo tempo que aprendia, uma vez que das sessões de fisioterapia faziam perte sessões de b-a-ba, t-a-ta, t-a-ta, BA-TA-TA!) ouvi frequentemente este poema declamado pelo meu médico numa voz de estentor. O mesmo médico que me ofereceu os Lusíadas quando eu fiz a qurta classe. 😉
Que engraçado, Isabel 🙂 Os livros, como a música, são das teias de cumplicidade mais poderosas que conheço. E não parece.
Lembrei-me também deste, que é muito bonito e de uma simplicidade desarmante:
UM POEMA
Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço…
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz…
Lindo: simples como uma operação de aritmética… (é um elogio!)
Claro que é um elogio! A simplicidade é a sofisticação máxima.
“Caídas” ou “caiadas”, as casas?