No Diário de Notícias– 270 toneladas de prata, no valor de 170 milhões de euros, num navio encontrado a 4700 metros de profundidade.
No Jornal de Notícias – 240 toneladas de prata, no valor de 150 milhões de euros, num navio encontrado a 4000 metros de profundidade.
No Diário Digital: 200 toneladas de prata, no valor de 170 milhões de euros, num navio encontrado a 4700 metros de profundidade.
No Sol – 240 toneladas de prata, no valor de 170 milhões de euros, num navio encontrado a quase 5000 metros de profundidade.
No Dinheiro Digital – 220 toneladas de prata, no valor de 160 milhões de euros, num navio encontrado a 4700 metros de profundidade.
No Público: 240 toneladas de prata, no valor de 170 milhões de euros, num navio encontrado a 4700 metros de profundidade.
E, last but not the least, a notícia choque no Correio da Manhã: Barco afundado poderá lucrar 34 milhões de euros. Bom proveito lhe faça, lá nas profundezas, que a mim dói-me muito a cabeça.


Questão de tonelagem e profundidade, além de respeito pelo pluralismo das fontes.
Percebe-se que aquela malta que desce às profundezas do abismo vem azucrinada e baralha a tonelagem ou, hipótese credível, vai metendo uns cobres ao bolso.
Se eu ponho a mão naquele vil metal….
Pois, é capaz de andar por aí alguém com os bolsos mais pesados, PM.
Passámos directamente da Idade Média em que o que interessava era a fé das pessoas e a obediência à hierarquia para o relativismo em que é tudo uma questão de opinião pessoal. Aquela parte do iluminismo e da eventual existência de uma realidade objectiva externa à nossa vontade passou-nos completamente despercebida. E é também a inumeracia em todo o seu esplendor.
Exacto. Foi um pouco o que eu quis sublinhar. Números sobre tudo, mas nem com eles se consegue rigor… JJA.
Mas mesmo assim está tudo dentro da mesma ordem de grandeza, já se tem visto pior.
Enfim, entre o Diário Digital e o Diário de Notícias são só 70 toneleadas de diferença.
Este post lembrou-me um texto que escrevi há uns tempos sobre esta questão: http://diasimperfeitos.blogspot.com/200 9/11/os-jornalistas.html
Parece-me que os números (tais como os do Euromilhões) são de facto o mais complicado de se acertar. 🙂 Ainda ontem foram publicadas, em alguns jornais diários, notícias sobre um assunto que conheço que envolve verbas e que, mais uma vez, estavam incorrectamente referidas. 🙁
Pois é, Ana. Se a coisa funciona assim com números imagine-se como será… pois.
Rui: como gostas de “acertar contas” com as notícias, fica outra sugestão. Há dois dias, vários órgãos de informação portugueses papaguearam esta “notícia” por sua vez papagueada também em certos blogues: «O PS francês venceu com maioria absoluta as eleições para o Senado.» Bastava ler os resultados, disponíveis em qualquer sítio político ou jornalístico francês na Internet, para se perceber que a “maioria absoluta socialista” era afinal a soma de várias forças de esquerda – socialistas, ambientalistas, comunistas, trotsquistas, etc. 9-senatoriales-un-vote-obligatoire-mais-d efraye)
Por acaso a força política mais votada até foi a UMP, do Presidente Sarkozy…
De caminho, houve quem chamasse ao Senado, alternadamente, ‘câmara baixa’ e ‘câmara alta’. E quase todos omitiram que esta não é uma eleição por sufrágio universal mas de ‘grandes eleitores’, com um universo de apenas cerca de 80 mil votantes.
(www.liberation.fr/politiques/0101236161
Tudo muito edificante e muito rigoroso, como se vê.
Também reparei nisso, Pedro. Cada vez é mais necessária uma leitura activa. De investigação mesmo, sob pena de ficarmos com uma visão completamente errada da realidade.
E nesse aspecto acaba por ser uma coisa positiva! Acomodámo-nos de tal forma a ter as notícias a sair quentinhas com o café da manhã, sem esforço nenhum, que creio que nos faz muito bem estes momentos de perplexidade e indignação face àquilo que é, em abono da verdade, um jornalismo da trampa…
Sim, Hugo. Tal como na selva, devemos manter-nos em alerta permanente.
“Sua majestade imperial visitou o Sr. Alexandre Herculano. O facto em si é inteiramente incontestável. Todos sobre ele estão de acordo, e a história tranquila.
No que, porém, as opiniões realmente divergem – é acerca do luggar em que se realizou a visita do imperador brasileiro ao historiador português.
O Diário de Notícias diz que o imperador foi à mansão do Sr. Herculano.
O Diário Popular, ao contrário, diz que o imperador foi ao retiro do homem eminente que…
O Sr. Silva Túlio, porém, declara que o imperador foi ao tugúrio de Herculano (ainda que linhas depois se contradiz, confessando que o imperador esteve realmente na tebaida do ilustre historiador que…).
Uma correspondência para um jornal do Porto afiança que o imperador foi ao aprisco do grande, etc.
Outra vem todavia que sustenta que o imperador foi ao abrigo desse que…
Alguns jornais de Lisboa, por seu turno, ensinam que sua majestade foi ao albergue daquele que…
Outros, contudo, sustentam que sua majestade foi à solidão do eminente vulto que…
E um último mantém que o imperador foi ao exílio do venerando cidadão que…
Ora, no meio disto, uma coisa terrível se nos afigura: é que sua majestade se esqueceu de ir simplesmente a casa do Sr. Alexandre Herculano.”
(Eça de Queiroz, in “Uma Campanha Alegre, LXXV” – Fevereiro de 1872)
Pois é, Francisco. Nada se perde e pouco se transforma.