Rentes de Carvalho sobre a nossa ideia da amizade na política. Brilhante, como sempre. Permito-me – o desplante! – apenas uma achega: nós acreditamos que a amizade (ou aquilo que lhe faz as vezes) é importante na política por estarmos habituados a que seja importante para tudo. Por estarmos habituados a que, neste rectangulozinho deprimido e tantas vezes deprimente, as coisas se resolvam (e a formulação é propositada, já que resolver é especialidade da casa enquanto prever e planear são verbos remetidos a utilização retórica) através da relação pessoal (do favorzinho, do jeitinho, da cunha) e não da competência nem da assumpção de responsabilidades. Já era tempo de crescermos.
Rentes de Carvalho e a amizade na política
escafandro,

falou o “brilhante como sempre” rentes e o jaa avassalou.
falou o “brilhante como sempre” rentes, trazido para a ribalta lusa pelo francisco josé viegas, vendedor de enciclipédias e (agora) secretário de estado da cultura.
nada me move contra o escritor rentes de carvalho, mas interessa-me o processo do percurso para o reconhecimento pátrio.querendo ser e insistindo que quer ser diferente, afinal é reconhecido como “brilhante como sempre” por obra e graça da amizade (embora não o tenha pedido), como demonstra este texto do vendedor de coleccionáveis francisco viegas, sobre rentes de carvalho:
http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/1 066293.html
“Talvez por ser um português desses, como eu, do Douro transmontano, semita, apaixonado pelos caminhos das montanhas (e pelos nomes das terras, pelos muros das aldeias, pelas árvores dos vales, pelos cemitérios abandonados), nasceu entre nós uma cumplicidade que só eu senti e que só eu vivi…E reconheci um daqueles portugueses que admirava noutras histórias, saído de Portugal, sem vontade de regressar, herói exilado, herói longe da Pátria que não o lê…Nessa altura, quando o entrevistei, jurei a mim próprio que, um dia, se eu fosse editor alguma vez, publicaria os seus livros com o cuidado que eles mereciam”.
aproxima-se a hora do “sempre brilhante” rentes de carvalho receber uma honraria material.é fatal como o destino.
Carlos:
– O post não era sobre Rentes de Carvalho, antes sobre algo que ele escreveu – mas tudo bem;
– Não conheço Rentes de Carvalho e a Francisco José Viegas apertei-lhe a mão uma vez na Feira do Livro do Porto quando lhe pedi para autografar “Lourenço Marques”;
– Sim, acho que Rentes de Carvalho é brilhante;
– Se duvida da qualidade literária dele, faça-me (e faça-se) um favor e leia-o. Recomendo-lhe “Ernestina” ou o recente “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, que ainda estou a ler. Gostei um tudo-nada menos de “La Coca” mas não deixa de ser bom. Os restantes ainda não li; porém, desconfio que também darão boa conta do recado;
– Aqui ou em qualquer outra parte do mundo, o processo normal de um escritor ser publicado é um editor gostar do que ele escreve. Que FJV tenha simpatizado com ele não configura exactamente um crime (você mesmo escreve “embora não o tenha pedido”).
Ando para escrever um post sobre Com os holandeses, o meu primeiro Rentes de Carvalho. Gostei tanto que estou ansiosa para ler mais, jaa.
E eu tenho “Com os Holandeses” na estante, à espera de vez, Leonor.
É não-ficção como sabes mas gostei do modo desassombrado com que escreve, sem a menor preocupação do politicamente correcto. A seguir acho que vou comprar Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, adoro o título. Recomendas?
Apesar de ainda só ter lido cerca de um terço (estou a ler dois ou três contos de cada vez, no intervalo entre outros livros), claro que sim. O primeiro conto (pelo menos acho que é o primeiro; estou a duzentos quilómetros do Porto e do livro), por exemplo, é um hino à inteligência e sensibilidade femininas. E o estilo de Rentes de Carvalho permite quase sempre a dúvida de saber se o que relata é mesmo ficção.
repare, não sou eu que vai discutir a valia literária do escritor rentes de carvalho. não estou habilitado para isso.
ainda bem que gosta e espero que continue a gostar. pelo menos para si isso deve ser bom.
posso observar, contudo, que muitos livros do rentes de carvalho já tinham sido publicados em portugal, por outras editoras, desde 1968 até 2001 (basta ver a bibliografia), sem êxito particular literário ou de vendas (não sei se concorreu a prémios).
o escritor teve grandes êxitos nos paises baixos, mas os seus editores (de lá), não internacionalizaram a sua obra, sabe-se lá porquê.
depois, as mesmas obras começam a ser republicadas, desde 2009, pelo francisco josé viegas e aí o resultado é outro.
são coisas que acontecem num espaço de dez a oito anos e será um caso de estudo interessante (o percurso, o público alvo, o porquê do sucesso).
e a amizade é uma coisa muito bonita e os amigos são para as ocasiões, desde que não pisemos os direitos dos “outros”.
Carlos: a anterior falta de êxito de Rentes de Carvalho por cá só reflecte a nossa frequente incapacidade para apreciar o que merece ser apreciado. Pela minha parte, só posso agradecer a FJV ter feito com que eu o descobrisse. Para mais, parece-me ter sido uma excelente decisão comercial.
Amo o escritor Rentes de Carvalho. Escreve com sentimento, acompanho no seu blog o sentir de uma vida humana tendo que conviver com a ignorância, por vezes, de gente muito próxima. Comparo-o com Balzac na forma como descreve a emoção das pessoas, sua maneira de ser.
Aporrinhado no Face Book escreveu: “a vida não é um face book!”
Bom, eu não o amo, até porque ele é um pouco velho, um bocadinho feio e do sexo errado. (Just kidding.) Mas concordo que é um excelente escritor. Já não leio Balzac há tantos anos (e, de qualquer modo, só li o ‘Père Goriot’) que não me atrevo a comentar a sua comparação, CAL.