“Nunca pensou em si como sendo mais do que um ser humano comum, que teria dado tudo para que o seu casamento durasse para sempre. Tinha-se casado com essa única expectativa. Mas em vez disso o casamento transformou-se na sua cela prisional, e assim, ao cabo de muitos pensamentos tortuosos que assaltavam a sua mente enquanto estava a trabalhar e quando devia estar a dormir, começou de forma intermitente mas obsidiante a cavar o seu túnel de evasão. Não era isso que faria um ser humano comum? Não é isso que os seres humanos comuns fazem todos os dias? Não tinha a pretensão de ser excepcional. Apenas vulnerável, frágil. E com a convicção de ter um dia direito ao perdão pelas privações a que eventualmente tivesse sujeitado os seus filhos inocentes para não viver metade do tempo em estado de perturbação mental.”
Pergunta-se: Este texto foi escrito por um homem ou por uma mulher? Fundamente a sua resposta. O nome do(a) autor(a) será divulgado logo que haja respostas suficientes para que este desafio tenha algum interesse. E, para que tenha realmente interesse, por favor evite a batota. Isto não é um concurso de erudição nem o objectivo é identificar os autores. O que realmente se pretende é discutir se existe ou não uma escrita literária sexuada, ainda que as amostras que aqui apresento sejam, como é óbvio, necessariamente insuficientes para classificar toda a obra de um autor.
Nota: Texto traduzido.
Solução: Philip Roth – “Todo-o-Mundo”. Escritor homem, personagem homem. E esta, hein? (como diria o saudoso Fernando Pessa) Volta a não haver nem sombra de consenso, o que dá mais alguns pontos à minha teoria… ganho novo ânimo, caríssimos comentadores. Amanhã sai o próximo teste (por confusão minha saíu hoje, mas os comentários já feitos não vão perder-se). Até amanhã e não desanimem!


É de uma mulher! Os homens imaginam-se mais a sair pela porta – rodando a maçaneta ou arrombando-a! (O sexo na escrita, não tem que corresponder ao biológico – assim estou mesmo protegido!)
Pois, Jarra, não estava protegido não senhor…
este parece-me ser o texto com menos identidade sexual, Ana.
mesmo assim aposto no feminino, pois há uma componente ética e moral muito forte, apegada à família, com o pensamento centralizado nos filhos.
todos os pais amam os filhos, mas as mães levam sempre nove meses de avanço…
Tenho a dizer, Luís, que eu responderia “mulher” neste teste, e pelas mesmas razões que apresenta. A responsabilidade culpada em relação aos filhos é uma coisa muito feminina, e a expectativa de um casamento “para sempre” também costuma ser feminina. And yet…
Vulnerável e frágil? Cheira-me a casca de banana. Estes atributos são imediatamente colados às mulheres, que tantas vezes os invocam, às vezes sem necessidade. Porém, há uma situação em que excepcionalmente os homens não se importam nada de os reclamar como seus: quando decidem ser infiéis. Ah, a carne é tão fraca… A convicção de que depois terão direito ao perdão também é muito masculina (a relação das mulheres com a culpa é muito mais complicada). Dito isto volto à dúvida que já senti várias vezes: o personagem é masculino, mas a mão que o descreve, será? Arrisco, sem grandes convicções, a dizer que não é. Voto numa mulher.
Era, Teresa. Mas a tua argumentação é excelente. Não posso deixar de sorrir (de concordância…) com a tua frase “há uma situação em que excepcionalmente os homens não se importam nada de os reclamar como seus: quando decidem ser infiéis”. Típico, típico. 🙂
Homem.
Essa convicção do direito ao perdão parece-me tão masculina …
Isso é verdade, Ivone, as mulheres estão muito mais habituadas a não ser perdoadas pelos seus “erros”. E a viver com isso…
Este é de facto difícil, põe-se a questão do sexo do/a autor/a e da personagem. Tanto para um, como para o outro, não tenho opinião formada. O facto de encarar o casamento como uma prisão tende mais para o homem, mas também pode ser uma mulher, pelo facto de se ter apercebido da “cela prisional” só depois de ter casado (o homem já poderá ter essa ideia entes de casar).
Concordo com a Teresa, em que vulnerabilidade e fragilidade são mais assumidas pelas mulheres, mas há casos em que os homens as aceitam (e até as desejam, lutam por esse direito). O direito ao perdão também é mais masculino…
Aposto num homem a escrever sobre uma mulher. Mas é mesmo só um palpite…
Um palpite meio-certo, Cristina. 🙂
Texto bem escolhido, a causar muito problemas 😉
Sim, como a Ana diz mais abaixo, a ideia de estabilidade e rotina é muito masculina. Daí o desejo de um casamento para sempre. O que não implica, necessariamente, fidelidade…
Ah, pois não… a fidelidade está fora da equação, Cristina! Talvez seja por isso que não os assusta a estabilidade. 😉
Hum, estou duvidida. Numa primeira vista, parece-me Mulher, mas aquele final é estranho. Ainda assim, arrisco Homem.
Ganhou à tangente, Carla! 🙂
Mulher. O casamento com expectativa de que dure para sempre é coisa de mulher. Os homens vão andando, não fazem planos a tão longo prazo
Será, Leonor? Por outro lado, eles temem mais a quebra das suas rotinas, e o casamento “para sempre” é uma ideia muito confortável…
Homem – O texto soa como um edifício de auto-justificações elaborado por um homem, sobretudo esta parte: “Não tinha a pretensão de ser excepcional. Apenas vulnerável, frágil. E com a convicção de ter um dia direito ao perdão (….).”
Muito bem, Leonor. Excelente expressão, essa do “edifício de auto-justificações”. Neste caso, um edifício que prepara já o sismo que se segue e vai sacudindo as culpas pelo caminho… 🙂
Texto de homem, acho. Porque os homens podem também escrever assim.
Pois podem, Joaquim. Gosto de ver-te outra vez por cá! 🙂
A personagem indubitavelmente feminina, pela menção aos filhos e outras pequenas nuances. O autor, não sei, pode bem ser um homem que acredita que uma mulher é indubitavelmente assim… o que nem sempre é verdade.
É também o que eu diria, Andrea. Mas estávamos ambas enganadas. Desta vez, é homem o escritor e também a personagem do texto.
Muito interessante, vindo precisamente do Philip Roth, tantas vezes acusado de criar personagens machistas. O mais engraçado é que já li esse livro e não o reconheci.
Escolhi o Roth exactamente por causa disso, Andrea. 🙂
Mulher. 3x a falar de casamento, vulnerável e frágil.
Wrong number, Lucklucky. Os homens também podem ser obsessivos nestes temas…
Acho que é um homem a escrever sobre uma mulher.
Leva a terminação, Helena… 😉
“Mas em vez disso o casamento transformou-se na sua cela prisional, e assim, ao cabo de muitos pensamentos tortuosos que assaltavam a sua mente enquanto estava a trabalhar e quando devia estar a dormir, começou de forma intermitente mas obsidiante a cavar o seu túnel de evasão”
Mulher.
Ups. Homem.
Ana
O casamento como cela e a “necessidade” de cavar um túnel…hum… é coisa de Homem.
Será? Os projectos de uma vida são cada vez mais temporários e utópicos. Como pensar o amanhã se não estamos preparados para o hoje? Isto é “coisa” de ambos os sexos…
Ainda assim, temos predominância masculina no texto 🙂
É verdade, Fernanda, cada vez há menos diferenças nesse aspecto. Mas acertou.
E olhe, Ana, trata-se de um escritor que eu adoro. Não o reconheci, mas este tem uma escrita claramente masculina. Melhor, escreve sobre temas “de homens”, sendo a sua escrita demasiado complexa para que possa ser catalogada. Não concorda?
Concordo, sim. Por isso o escolhi, como já disse. Queria ver se não haveria dúvidas com ele. E houve, muitas. 🙂
Este texto parece conter uma armadilha: temos de imediato a tendência a considerar o sexo da personagem como sendo o mesmo do autor.
Seguindo essa linha de pensamento, em relação à personagem, acho que será a de um homem: “(…) teria dado tudo para que o seu casamento durasse para sempre. Tinha-se casado com essa única expectativa.” Uma mulher não se casa com uma única expectativa.
A cela prisional como imagem de um casamento “(…) o casamento transformou-se na sua cela prisional, (…)” é uma associação habitual para o sexo masculino.
“(…) privações a que eventualmente tivesse sujeitado os seus filhos inocentes (…)” também se associa a um homem, no sentido clássico de ser o homem a prover ao sustento da família.
No entanto, o estilo de escrita parece-me de uma mulher. Frases longas e melodiosas, escolha cuidadosa de palavras, a preocupação de se perguntar, de se justificar: “(…) ao cabo de muitos pensamentos tortuosos que assaltavam a sua mente enquanto estava a trabalhar e quando devia estar a dormir, começou de forma intermitente mas obsidiante a cavar o seu túnel de evasão.”; “Não era isso que faria um ser humano comum? Não é isso que os seres humanos comuns fazem todos os dias? Não tinha a pretensão de ser excepcional. Apenas vulnerável, frágil.”
Concluindo, penso que é uma autora a escrever na pele de uma personagem masculina.
É claro que o raciocínio pode ser exactamente o inverso…
Ora para um raciocínio tão retorcido aqui está uma excelente conclusão errada!
Meia taça é sua, Sofia. 🙂
Um homem a escrever sobre uma mulher.
Pois… também acertou em metade, JP.
Quem diz isto é um homem.
Os homens é que na sua maioria assumem pretender ser excepcionais. O facto de se justificar com este não-desejo é (por enquanto) necessário quase somente ao masculino.
A questão dos filhos é posta em forma de dividendo, coisas de pai culpado. Uma mãe atormentar-se-ia muito mais.
(Vamos lá ver se não estou a atirar completamente ao lado 😉 )
Não estava, não, Paula. Acertou em cheio.
Parece-me escrita masculina, uma vez mais.
E mais uma vez acertas, Pedro. Ainda ganhas um prémio… 🙂
Homem a escrever sobre uma mulher.Entre outras frases esta por exemplo: «Não tinha a pretensão de ser excepcional. Apenas vulnerável, frágil.» E depois, o direito ao perdão …
Muita gente pensou o mesmo, MFM.