As cidades que amamos são como os homens que amamos. Nem sempre conseguem dizer a palavra certa no momento certo, nem sempre estão lá quando precisamos daquele incentivo lamechas de que as mulheres tanto gostam, por vezes deixam as meias desapernadas pelo quarto, os sapatos desarrumados a um canto, há dias em que se remetem a silêncios profundos e prolongam os cigarros fumados em quietudes próprias, excluindo o que se encontra em volta numa redoma intransponível. E, contudo amamo-los, porque nesta forma peculiar de amar não nos deixam e caminham de forma discreta mas consistente a nosso lado sem alardes exuberantes. Como as cidades de que gosto. Nem sempre demasiado belas, nem sempre arrumadas, raramente exuberantes e sempre mas sempre com a dose certa de mistério para que o amor se cumpra. Dificilmente amarei algo que compreenda na plenitude. Há um desafio permanente nesta centelha enigmática que me vai iluminando os dias, algo intangível que me mantém na esperança de tudo compreender. Praga é bela, demasiado bela para o meu amor. Pouco enigmática. Que há mais naquela cidade além da beleza arrumada de ruelas e pontes? E por tudo isto, caio de amores por Berlim. Não é demasiado arrumada, a espaços surgem desalinhos vários, desarrumações e espaços de fealdade abertos aos olhos do mundo. Não é demasiado bela portanto. Lá longe dos olhares dos turistas há lugares onde não há beleza, e, no entanto, a cidade tem lugares deslumbrantes como Kollwitzplatz ou Gendarmenmarkt, cada uma à sua maneira, praças que nos embalam na leveza de dias felizes de uma bebida descontraída entre risadas e mãos que se procuram, dedos que se enlaçam E há pedaços surpreendentes como Postdamer Platz, a sensação quase de vertigem de uma outra vivência, mais dramática na metamorfose completa. O amor também se metamorfoseia. E há espaços que doem na memória, todos os amores têm lugares que doem. Há marcas que nos surgem enquanto calcorreamos caminhos, murros no estômago que nos apanham desprevenidos para nos lembrar que há uma História e estórias. E caminha a meu lado. Eu caminho a seu lado. Praga é demasiado bela. Berlim suficientemente humana. Como o amor.
Também n’ A Curva da Estrada

Excelente texto e excelente paralelo, Leonor. Não posso estar mais de acordo: homens e lugares têm de ter, também para mim, “uma certa dose de mistério para que o amor se cumpra”. E há um outro ingrediente que me parece fundamental em ambos: humor, alguma leveza. É por esse desafio que gosto das cidades mediterrânicas, tantas vezes caóticas – como Nápoles, por exemplo – e muito menos das belas cidades aprumadas da Europa do norte. Não conheço Berlim o suficiente para confirmar o que dizes, mas percebo perfeitamente o que sentes em relação a Praga. Lindíssima, mas demasiado séria e arrumada para o meu gosto.
Obrigada, Ana. Nos homens o humor é mesmo fundamental, e inteligência também. E concordo, Praga é demasiado séria. Muito bonita, não me importaria de voltar uma terceira vez, mas falta-lhe alma.
Cara Leonor,
Fiz link… bem-haja pelo belissimo texto!
Um abraço.
Muito obrigada, Ana Paula! Beijinho.
Sehr gut!
Danke! Prost!
Essa das cidades serem como os homens que amamos deixa-me um bocado perdido. Assim de repente, acho que só amei (e amo) o meu pai…
Just kidding. Excelente texto. Eu não conheço Praga mas gosto muito de Berlim, apesar de só lá ter passado dois dias. Apreciei particularmente a forma como, evocando o passado (através de memoriais, pedaços do muro, Checkpoint Charlie, etc.) parece uma cidade voltada para o futuro.
Ia dizer-te para pensares então nas mulheres que amas ou amaste mas lembrei-me que homem e mulher amam de forma diferentes e provavelmente por razões também diferentes 🙂
Berlim é isso mesmo. Não esquece o passado mas tem uma capacidade inigualável de se transformar e projectar no futuro. Tens de ir com mais tempo. Vale a pena.
Gostei muito desta tua crónica, Leonor. Muito.
Ainda bem.
«Dificilmente amarei algo que compreenda na plenitude.» Uma frase típica do signo Gémeos.
Somos muito cerebrais, é verdade, e ainda por cima tenho ascendente também em Mercúrio.
Nada como um texto escrito com amor. Está óptimo 🙂
Obrigada, Teresa. Será? 😉