Parado no areal, o cão olhava um ponto difuso, indiferente ao movimento dos veraneantes. A expressão era sofrida. Representava a dor física e psicológica com uma intensidade difícil de surpreender em rostos humanos. A uns metros um gato esquálido parou a avaliá-lo, mas logo se desinteressou, voltando à sua vidinha de trinca-espinhas desenrascado. Até para os felinos com um terço do seu tamanho se tinha tornado irrelevante. Dizem que os animais não têm consciência de si, mas este sabia-se transparente. Caminhava entre as pessoas sem as encarar com a desenvoltura de um agente camuflado e de facto nem para ele olhavam, apesar de ser grande.
Do toldo segui-o. Cheguei mesmo a rodar o tronco para o ver passar, emocionada com a minha própria compaixão. Mas também a mim o cão ignorou e quando se perdeu no horizonte meti a minha bestial sensibilidade onde ele me mandou meter.
“O meu apartamento não é assim tão grande e o gato não o consentiria lá em casa”, ainda argumentei antes de me voltar para apanhar um banho de sol.


Título e texto de mãos dadas. Estavas a fazer-me falta.
E tu também a mim, João. Gosto muito de voltar a ler-te, ou seja, a ver-te. Com os teus bolos de noiva e mamarrachos mal amados e o dedo espetado nos erros de português 🙂
És tão atenta que fico comovido, Teresa. A sério. Obrigado.
Belo texto, Teresa.
Olá, Ivone. Obrigada 🙂
Faço minhas as palavras do João. Tanto em tão poucas linhas.
Podia ser um pequeno exercício de ficção, mas tudo isto se passou, Sérgio. Portanto foi uma catarse. Aconteceu há já vários dias, mas não consegui esquecer aquele canito. Procurei ser o mais exacta possível para poder partilhar convosco o que senti. E o que senti é que somos uma raça muito reles, perdoem-me a franqueza.
Por vezes, Teresa, por vezes, também chego a essa conclusão. Mas procuro não me deixar levar.
Excelente texto. E cada vez mais aplicável a humanos, não apenas a cães.
Foi esse o meu ponto, Jaa. Obrigada.
Excelente!
Os cães são tão expressivos… E transparentes…
Tão transparentes que às vezes até dói. Foi o caso.
Dói, sim, Teresa. Vou levar para o Andanças.
Foi um dos textos que mais gostei de ler desde sempre neste blogue, Teresa. Diz-nos muito sobre tanta coisa. Quase como se não dissesse.
O que é sempre a melhor forma de dizer.
🙂
Muito bom, Teresa. E o pior é que se aplica a humanos também, párias transparentes que vagueiam como fantasmas entre os “vivos”. E o pior é que esses vivos não o estão assim tanto, afinal. E o pior é que, na maior parte dos casos, nem sequer dão por isso.