Livros, para que vos quero


Ana Vidal,

Chamada à pedra pela Laura e correndo o risco de saltar imensos livros importantes, aqui vai:

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Imensos. Em prosa e assim de repente: “Ficções”, do Borges. “Memórias de Adriano”, da Yourcenar. “O amor nos tempos de Cólera”, do Garcia Marquez. “As velas ardem até ao fim”, do Marai. O Eça de ponta a ponta, que me faz sempre rir. “A louca da casa”, da Rosa Montero. “Os capitães da areia”, do Jorge Amado. “O sol dos Scorta”, do Laurent Gaudé. “Don Quixote de La Mancha”, do Cervantes. “Memorial do Convento”, do Saramago. “A Paixão”, do Almeida Faria. “Teoria da Viagem”, do Michel Onfray. “Cartas a um jovem poeta”, do Rilke. Os contos exemplares da Sophia, os (igualmente exemplares) da Clarice Lispector e os orientais da Yourcenar (gosto de contos, como se deve notar). O maravilhoso e inesgotável “Livro do Desassossego”, do Pessoa-Soares. Os do Agostinho da Silva, que são eternos e sempre surpreendentes. E muitos outros que agora me falham.

Depois há a poesia, que nunca se lê da mesma maneira por mais que se repita a leitura.

Enfim, releio cada vez mais.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Vários e por várias razões:

“O Nome da Rosa”, do Umberto Ecco, porque vi o filme quando estava a meio e já não consegui acabá-lo (e achei o filme melhor do que o livro, ao contrário do costume).
Um livro de que já nem lembro o nome, que estava a ler quando fiquei grávida do meu filho mais velho. Enjoei tudo, tudo mesmo, livro incluído. Mais tarde ainda tentei ler o resto, mas tinha náuseas de cada vez que lhe pegava. Desisti.

Os livros do Thomas Mann, por exemplo, porque não entram nem à bala mas eu achava que tinham de entrar. Depois deixei-me disso. Ler não pode ser nunca um frete, e há tantos livros que ainda não li com prazer…

3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Em prosa, “O livro do Desassossego”, sem qualquer hesitação. Estão ali muitos livros dentro. E toda a boa poesia, essa escrita caleidoscópica que muda com o estado de espírito do leitor e nunca cansa.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
A Divina Comédia. Mas já o comprei em formato simpático e vou-me atirar ao Dante, salvo seja.

5. Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
“O amor nos tempos de cólera”. As últimas 10 páginas são inesquecíveis e valem todo o livro. Diria mesmo que valeriam toda a obra do Gabo, mesmo que ele não tivesse escrito mais nada de jeito. E escreveu muita coisa de jeito.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Lia tudo o que apanhava a jeito, sem qualquer critério, e muitos livros antes do tempo certo. Por exemplo, li o Jorge Amado de fio a pavio, porque era excitante e mais ou menos proibido, embora lá em casa estivesse à mão de semear. “O Crime do padre Amaro”, pelas mesmas razões.  Quanto aos “certos”, adorava o Emílio Salgari (o Sandokan, que maravilha!), o Júlio Verne e o Dumas, que me faziam sonhar com aventuras e viagens. Li a saga do Tolkien muito cedo e ainda hoje me apaixona aquele mundo simbólico. E li todos os d’”Os Cinco”, claro. Lembro-me também de um fraquinho lacrimejante por “O Diário de Isabel”, da Berthe Bernage. Mais tarde devorei tudo o que encontrei sobre o Holocausto, foi uma moda um bocadinho mórbida mas muito instrutiva. Depois vieram o Morris West, o Maugham, o Green, o Huxley, etc. E a Agatha Christie, que li até esgotar o último livro. Mas aí já tinha deixado a infância lá para trás, embrulhada em “tios patinhas” e “donalds”.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Os do pobre Júlio Dinis. E só porque era obrigatório. Um bocejo! Nem como documento histórico lhes acho graça.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Os que me saltam de imediato à memória já estão ditos. Depois há muitos outros, claro. Os de poesia nem enumero, a lista seria interminável.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Três ou quatro ao mesmo tempo, como sempre faço. Neste momento tenho três pilhas de livros de poesia lusófona na mesa de cabeceira. E dois livros de prosa de autores portugueses contemporâneos.

 

Nota: Quem quiser acorrentar-se ao jogo não faça cerimónias. Em post próprio ou nesta caixa de comentários, conforme o caso e a vontade.

15 comentários em “Livros, para que vos quero”

  1. Finalmente! Gostei! Isto, sim é luxo!
    À pilha na mesa de cabeceira podes acrescentar o Manoel de Barros, como é que te foste esquecer? :):)
    E lá me falhou o Borges e o meu livro todo desconjuntado, nem sei onde anda… Foi (-se) uma fase, embora nunca tenha tido um enjoo sério na gravidez….
    O Livro do Desassossego, quem não gosta? Mas na troika pessoana (agora teremos de dizer assim, apesar do Pedro Correia não me perdoar o palavrão…) tenho um fraco por A. Caeiro.
    O Nome da Rosa: gostei. Do livro e do filme (e este vi e revi).
    O teu Jorge Amado levou-me a outro esquecimento meu: o Erico Veríssimo. Isso, nos livros permitidos pela censura paterna. Porque a bronca foi forte quando eu tinha 12 ou 13 anos e me apanharam a ler uns livros que por lá andavam nas estantes: “Ana Paula” (Paço d’Arcos ) e um policial de uma autor português que escrevia sob pseudónimo inglês Dick Haskins ). Nunca percebi porquê tanto barulho (só depois 😉
    Vais-te atirar ao Dante, traduzido pelo VGM? Pois eu será ao Petrarca, como me compete…
    Finalmente… como fui eu esquecer “O Diário de Isabel”, da Berthe Bernage? Aliás, não era “O Romance de Isabel”? Li tudo, tudinho. Não admira que nos formatassem a cabeça… 🙂 Já reparaste como na nossa geração a própria literatura era ainda orientada discriminatória?
    Enfim…. sobrevivemos. E gostávamos de ler, o que já não era coisa pouca, a avaliar pelo que vejo!

    1. Ah, eu também me esqueci do Erico Veríssimo: ‘Olhai os Lírios do Campo’, ‘Saga’, ‘Música ao Longe’, ‘Um Lugar ao Sol’, ‘O Resto é Silêncio’… Leituras de adolescência, que perduram. Mais do que imaginamos.

      1. E o Graciliano Ramos, outro contista, por sinal (grande género, só para alguns escritores… Li os de Pirandello, os de Marcel Aymé, o Dubliners, etc).
        Também me esqueci do grande Morris West (vários, entre os quais o Advogado do Diabo).

        1. Engraçado, tinha acabado de acrescentar o Morris West à minha lista quando li este comentário. Não há dúvida, somos da mesma geração! E vejo que também és da “malta dos contos”, como eu e o Pedro…

    2. Petrarca? Ah, valente! O Dante que tenho é a tradução do VGM, sim. Já comecei a lê-lo, mas tenho pouco tempo e aquilo precisa de concentração.
      Claro, tens razão: era “O romance de Isabel”! Ainda tenho as capas na memória mas já invento títulos.
      Formatavam-nos, é verdade, mas lá em casa (e na tua também, está visto) havia muito por onde escolher nas estantes e um forte incentivo à leitura. E depois veio a rebeldia de 74, que nos salvou de vez… Agora formata-se menos, mas também se lê menos.

      O Manoel de Barros ainda não está na minha pilha… 😉 Mas é um nome inesquecível a partir do primeiro poema que se leia. Ando encantada com o que encontro dele.

  2. Partilho muito dos teus gostos, Ana. Desde logo, o culto pelos contos (como se nota). E tenho uma predilecção muito especial pelo Jorge Amado da primeira fase (Jubiabá-Capitães da Areia). O Borges, a Yourcenar. E esse livro da Rosa Montero, entre outros dela. Só não acompanho a tua aversão pelo pobre do Júlio Dinis, que tão cedo partiu desta vida descontente: ‘A Morgadinha dos Canaviais’ foi uma das minhas (boas) iniciações à literatura portuguesa, tal como ‘A Cidade e as Serras’, do Eça. Mas deslumbramento com a escrita de um autor português só tive mesmo com ‘Aparição’ e ‘Cântico Final’, do Vergílio Ferreira, autor também de excelentes contos (de que ninguém fala, pois o conto é considerado entre nós uma disciplina ‘menor’ da literatura).

    Lanças uma ideia que daria uma excelente série colectiva aqui no DELITO, aliás duas séries: livros melhores que filmes, filmes melhores que livros.

    1. Pois é, Pedro, também eu me esqueci do Erico Veríssimo. “Olhai os lírios do campo” foi um dos livros que marcou a minha adolescência. E é injusto não incluir na lista “O meu pé de laranja lima” e “Rosinha minha canoa”, do José Mauro de Vasconcelos. E também, claro, o sempiterno “Principezinho” do Saint Exupéry. Os primeiros não acho agora nada de especial, o último acabei por enjoar de tanta citação. Mas foram importantes nessa época da minha vida.
      E o Vergílio Ferreira, que ainda me encanta. “Manhã submersa” é um dos livros da minha vida.

      Boa ideia, essa série “livros versus filmes” aberta a todos.

  3. Pois, confirmam-se as coincidências. Assinalaste umas, eu tomo nota de outras: Memórias de Adriano, A Louca da Casa, que tanto prazer me deram.
    Também desviei da estante “O Crime do Padre Amaro”, que adorei sobretudo porque mo interditaram dizendo que “não era para a minha idade”. E nunca tive a menor pachorra para o Júlio Dinis 🙂

    1. Boa, já me sinto menos culpada em relação ao Júlio Dinis! E as coincidências literárias só confirmam o que já sabíamos… afinidades, querida Teresa. 🙂

    1. Também eu, até ficar ranhosa e sem lágrimas…
      Mas é engraçada a segurança com que dizemos “o livro da minha vida” aos 12 anos, como se já tivéssemos tido alguma vida, não é? Nessa idade, este foi também um dos meus.

        1. A prova de que nos formatavam as cabeças é isso mesmo que dizes, Pedro. Mas apesar de tudo, e visto à distância, éramos nós quem ficava a ganhar: podíamos ler os das meninas e os dos meninos (eu até preferia os dos meninos) mas vocês não podiam ser apanhados a ler “O romance de Isabel”, por exemplo. Era uma despromoção e a garantia de chacota geral…

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