
Há algum tempo, falei aqui deste problema: o número de cães abandonados na Serra da Arrábida estava a aumentar. Chamam-lhes animais errantes e dizem que alguns estão num estado selvagem. Há relatos de moradores assustados. Conheço algumas associações que já recolheram vários animais, e sei bem que não é possível fazer muito mais. Existem casos em que, devido à falta de espaço, os animais ficam em casotas fora das instalações da instituição. Volto agora ao tema porque, passado um ano, a situação não melhorou, e também porque li uma crónica do Manuel António Pina sobre a solução que a Câmara do Porto encontrou para o mesmo problema. Assim, fiquei a saber, depois de ler o texto, que a Câmara Municipal do Porto e o vereador Manuel Pisco (vereador da Câmara Municipal de Setúbal) estão de acordo: afinal, uma das soluções para controlar os animais errantes é matá-los à fome. Explicando: Manuel Pisco e a Câmara do Porto acham que não se deve continuar a alimentar esses animais – as pessoas que o fazem são mesmo acusadas de inconsciência -, porque isso permite a reprodução. É de génio, pois, como escreve António Pina, julga-se que é o “excesso de alimento [que] provoca o aumento das populações de animais” e não o facto de (como sucede com os vereadores, não consta que alguma vez um vereador tenha aparecido grávido depois de um banquete camarário) se reproduzirem.

É inacreditável a forma como se tratam os animais neste país. Há um mês a minha mãe encontrou três gatinhos bebés, dentro de um saco plástico ao sol, ao lado do caixote do lixo 🙁
É mesmo inacreditável, Leonor. Infelizmente, também conheço muitos casos desses.
Uma sociedade caracteriza-se pela forma como trata os seus velhos e os seus animais. Episódios como o que relata mostram que por debaixo do verniz de uma suposta modernidade há muito atavismo e desumanidade.
Sem dúvida, Helena. É preciso muita insensibilidade para abandonar um animal. Na serra, há matilhas que se reproduziram, é certo, mas muitos cães que vejo já não são novos; foram abandonados lá, deixados à sua sorte.
Tomei conhecimento desta iniciativa da CMP há já algumas semanas, e está inclusivamente a circular na net uma petição contra a privação de alimentos aos animais do Porto ( http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N 10340 ). É urgente discutir-se a forma como são defendidos os direitos dos animais neste país.
Susana, não posso estar mais de acordo quanto à necessidade dessa discussão. Infelizmente, há quem trate os direitos dos animais como uma questão menor; por outro lado, o maior problema é mesmo a desumanidade, que nenhum legislador consegue controlar totalmente. E há, claro, um problema de mentalidade quando se fala, por exemplo, de esterilização, com certas pessoas a descreverem o acto como sendo contra a natureza… Obrigada pelo link. Vou reencaminhar.