Questiúnculas


José Maria Gui Pimentel,

O tema do dia é sem dúvida a sugestão de Pedro Passos Coelho (PPC) em relação a um novo referendo à lei da interrupção voluntária da gravidez. Pessoalmente, talvez por andar farto deste tipo de questiúnculas, considero as reacções exageradas. As críticas a PPC têm apontado em duas direcções. Os partidos mais à esquerda ficaram melindrados por se poder sequer pensar num novo referendo. Trata-se da crítica habitual destes partidos, a mesma que já se ouviu anteriormente, e centra-se na questão do Aborto em si. No que diz respeito à sugestão, tecnicamente, um novo referendo faz tanto sentido quanto fez o último. Com efeito, se bem me lembro, o último referendo não teve, à semelhança do de 1998, carácter vinculativo. Já o PS e a generalidade da crítica publicada têm incidido sobre a mudança de opinião de PPC. Não duvido que este comentário tenha sido um “piscar de olhos” ao eleitorado mais conservador. Importa, todavia, atentar a dois pormenores. Por um lado, os comentários surgiram em resposta a uma pergunta do entrevistador, não foi PPC de motu proprio a levantar o tema. Ou seja, não me parece que se trate de uma prioridade. Por outro, lendo as declarações originais, percebe-se que o líder do PSD não se colou exactamente à posição da ala conservadora, o que não deveria ser ignorado: “Eu estive, há muitos anos, do lado daqueles que achavam que era preciso legalizar o aborto – não era liberalizar o aborto, era legalizar a interrupção voluntária da gravidez. Porque há condições excepcionais que devem ser tidas em conta e não devemos empurrar as pessoas que são vítimas dessas circunstâncias para o aborto clandestino.” Este tipo de táctica eleitoral é perfeitamente normal em democracia: é uma das falhas do sistema. Não digo que deva ser estimulada, mas, sendo na prática inevitável, é importante que se identifiquem as diferenças de grau. Não me parece, por conseguinte, que se deva pôr no mesmo saco esta e outras manobras, bem mais acrobáticas. Considero, pois, esta questão espúria. Bem mais escandalosos me parecem os comentários de José Sócrates, que se afirma “chocado” e acusa PPC de “voltar ao tempo do aborto clandestino”.

8 comentários em “Questiúnculas”

  1. Concordo inteiramente.
    Trata-se, no fundo, do aproveitamento político (indevido e demagógico) do mau jornalismo que por cá se faz.
    O jornalista faz uma pergunta “fora do baralho”. O entrevistado ou recusa responder (designadamente usando o chavão que não é esse o tema que o preocupa para não se pronunciar sobre ele) ou responde à pergunta.
    Na 1ª hipótese, há, verdadeiramente, falta de informação (ainda que a pergunta seja imbecil), não cabendo ao entrevistado (mas sim ao jornalista) definir o objecto da entrevista. Se a perguntas forem todas desinteressantes a entrevista será má, mas por culpa do jornalista. O entrevistado, sendo uma figura pública, tem sempre outros meios de fazer passar a sua mensagem, isto é, de comunicar ao público o que achar que tem interesse (e nem vejo com maus olhos que mencione o facto de na entrevista realizada não lhe tenha sido dada a oportunidade de abordar essas questões pelo entrevistador).
    Na 2ª hipótese, há informação. Não pode é depois vir dizer-se que o entrevistado veio trazer o assunto “à baila” e, muito menos, dizer-se que introduziu esse assunto na campanha, qd não estava a fazer campanha mas sim a responder a uma entrevista e até teve o cuidado de mencionar que essa não é uma preocupação do seu partido, tanto mais que não incluiu esse tema no respectivo programa eleitoral.

    Aproveitar a boa fé (e a correcção) do entrevistado consubstanciada pelo facto de não ter fugido à pergunta nem recusado responder e ter dado a sua opinião em resposta que lhe foi feita, é demagógico. Imputar ao entrevistado a introdução desse tema é ainda pior: é falso!

    Pode objectar-se que um “político experiente” sabe contornar essas questões com vista a evitar responder-lhes, sem “sair mal na fotografia”. É verdade.
    Mas eu (que nem sequer gosto do PPC) prefiro sempre uma pessoa (ainda que seja político) que seja correcta (e, por isso, que responda ao que lhe é perguntado, de preferência sem rodeios) e sincero (isto é, que não diga duas ou três balelas que, no fundo, apenas significam “não me comprometo”). Quem não gostar do rumo que a entrevista seguiu deve é queixar-se do jornalista que a fez (pois, que eu saiba, é a este que compete fazer as perguntas e, portanto, escolher os temas).

    Já percebi que o Sócrates (agora – isto é, desde que perdeu a maioria absoluta) admite (quer) consensos com todos. Até admite que o PPC seja ministro num governo seu. O que é de estranhar, depois de o ter apelidado de inexperiente e impreparado (queixando-se dos ataques pessoais por parte do PSD, não deixa de ser curioso que impute aos outros as condutas que ele próprio tem!). Mas ainda não percebi se o Sócrates aceitaria ser ministro num governo do PSD (cenário absolutamente irrealista, é certo). Será pq ninguém ainda se lembrou de lhe perguntar, ou pq ele, como “animal feroz” que politicamente é, nunca se dignou responder a essa questão?

    Como disse, prefiro as pessoas que respondem às perguntas que lhe são feitas e que lhes respondem com a verdade (seja ela qual for).
    Por isso, acho muito bem que o PPC tenha respondido à pergunta que lhe foi feita.

    As perguntas servem para obter respostas, não para obter munições para atacar o adversário pelo facto de ter respondido à pergunta.
    Se alguém quiser atacar o adversário, que o faça com base nas ideias deste, reveladas através da resposta que foi dada.
    E, por falar nisso, tb eu concordo que os efeitos da “lei do aborto” devem ser analisados e avaliados, sem que com isso esteja a dizer (tal como o PPC tb não disse) que ache que essa lei tenha de ser revogada ou modificada. Aliás, como é sabido, essa lei não pretende substituir-se a um eficaz planeamento familiar. De modo que a responsabilidade do Estado nesta matéria não deve ser ignorado pelo facto de a interrupção voluntária da gravidez ser, em certos casos, permitida (de acordo com a referida lei – que é, aliás, um excelente exemplo da péssima qualidade jurídica das leis publicadas nas últimas décadas).

    1. Precisamente. Este caso é paradigmático do que tem sido toda a campanha. Quanto ao aborto, parece que existe algum receio em tocar no tema, como se a mera aprovação da lei tivesse resolvido o assunto de vez. Aliás, o facto de a esquerda ter medo de discutir a lei que aprovou é de desconfiar. E eu votei sim.

  2. A Vida Humana começa às 10 semanas em Portugal, em Espanha acho que começas ás 14 semanas…estes relativismos, só produzem ideias fantasiosas e com consequências sanguinarias! e ainda à quem se choque por os Alemães terem consentido a morte de milhares de judeus como se fosse uma coisa banal…

  3. Já se esqueceram que o referendo sobre o aborto assentou na falácia de que as mulheres que abortavam iam para a prisão? O que, no fundo, mas visivelmente, foi proposto aos portugueses era se concordavam ou não que as mulheres abortistas fossem para a prisão…. despertando nos incautos sentimentos de comiseração e de solidariedade para com as infelizes… Embora nunca nenhuma tivesse estado presa, o pobre povo acreditava nas patranhas dos xuxialistas…!
    Com esta pergunta capciosa – estratagema diabólico – se enganaram os portugueses…
    É bom não esquecer as artimanhas do socretino…!

  4. Não compreendo o “choque” de Sócrates e mesmo alguma aflição que demonstra.
    Pois se ninguém propõe o abate de vígaros e amigos do alheio à nascença, nem se põe a questão de a lei ter efeito retroactivo, o fulano à partida não tem nada a temer…

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