A Primavera árabe
É à primeira vista a concretização de vários sonhos: o sonho conservador: depois do Iraque, caem os regimes seculares mais ou menos déspotas; e vários sonhos liberais através da “escolha interna” da democracia, do “rule of law” e do primado do mercado na economia. A ideia de um mercado livre de Marrocos à Indonésia podia ser um desejável culminar destes sonhos. Embora a teoria psico-analítica os possa explicar, aqueles sonhos não são mais do que uma caricatura em traços desajeitados da realidade. O primeiro choque ocorre quando, por força da gravidade que nos cola à Terra, se abandona a ideia que todos os movimentos, países e povos pretendem alcançar os mesmos objectivos e da mesma forma. O segundo alerta passa por perceber como pode a democracia, tal como o Ocidente a concebe, nascer, crescer, florescer e frutificar quando se encontra dependente da existência de um clero apoiado pelos exércitos (ou vice-versa), capaz de administrar a lei e governar. Provavelmente além das transições políticas. Nem todas as revoluções têm como base os interesses corporativos que levaram ao nosso 25 de Abril. E passando os olhos pela história das revolucões francesa, russa ou americana, percebe-se que são raras as revoluções pacíficas. E as que “aconteceram” resultaram na introdução das democracias nos estado-nação em 1848, no renascimento do capitalismo em 1968 e no fim do comunismo em 1989.
O certo é que desde Marrocos até ao Irão assiste-se a uma onda de instabilidade, potenciada pela crise económica e desespero quanto ao futuro de uma larga faixa das populações de Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egipto, Síria, Irão e Yémen. Em comum estes povos, importa lembrar, têm a não existência de “direitos” políticos e económicos – e por eles aspiram e insurgem-se. Todos aqueles países (ou quase) foram beber inspiração estrutural no socialismo soviético. Destas “revoluções” não se espere uma mudança tal que leve a uma transformação radical do islão político.
A primeira conclusão a que se pode chegar é que estes “movimentos” são uma resposta aos ex-revolucionários que governam, não só por parte da “juventude” desiludida que foi a primeira a enfrentar as prisões e as balas mas por todo o resto do povo. A segunda conclusão é que sairão vencedores aqueles “novos revolucionários” que mesmo sendo uma minoria se apresentem bem organizados. Imaginando mas não desejando que de algumas destas revoluções acabem por subir ao poder os islamitas, é possível pensar que as gerações futuras irão tirá-las do poder, tal como aconteceu com o comunismo. Com que custos? No caso, só Deus e os próprios saberão o que estão dispostos a pagar…
A terceira conclusão é que a Primavera árabe não teve início na imolação de um desempregado mas nos acontecimentos do Líbano em 2005. Assistimos à plantação de algumas sementes. O tempo dirá se frutificaram e quais as de melhor sabor e qualidade.


Obrigado pela visita, Rui. A Primavera árabe ainda dará muito que falar em todas as estações deste ano – e de outros. Acabo de ouvir El Baradei, Nobel da Paz, falar disso mesmo nas Conferências do Estoril.
Obrigado pela visita. Um abraço.
Mais um Paquistão no Egipto.
Espero que pelos melhores motivos, passe da Primavera e chegue ao Verão, siga para o Outono e se prolongue pelo Inverno. Eu é que agradeço o convite. Abraço.