Mais vale um pântano assumido que um colapso escondido
António Guterres era de consensos, de palavras, de mínimos denominadores comuns.
Sócrates foi de músculo, one man show, de rigor profundo na exposição.
O primeiro engenheiro foi um aluno brilhante. Teve uma carreira consistente na política nacional e lançou-se numa carreira internacional.
O segundo fez do aparelho partidário o seu habitat, galvanizou-se ao sabor do mediatismo e nada de meias tintas no alcance dos objectivos.
Chegado ao “pântano”, Guterres deu a cara, largou a carreira interna e saiu.
Atolado na lama e afogado na mentira, Sócrates persiste. Falemos, apenas, de economia. Em 2009 foi a eleições com um défice de 5,9%, saiu de eleições com um défice de 9,4%. No ano seguinte, apresentou um Orçamento do Estado (2010), um programa de estabilidade e crescimento, um plano de austeridade e um PEC III a que chamou OE/20011. Todos os impostos aumentaram, os salários foram cortados na função pública e a despesa nominal cresceu. Por duas razões: em Maio “o mundo mudou em 15 dias”, em Outubro “a maior crise dos últimos 100 anos” juntamente com “os especuladores” deixaram o País entre a espada e a parede.
Vejamos o que nos foi dito só nos últimos 89 dias. A 11 de Janeiro, o primeiro-ministro deu uma conferência de imprensa, em São Bento, para dizer duas coisas: o défice de 2010 ficou nos 6,8% e os gastos do sector empresarial do Estado estavam controlados. Dias depois, quando o governados do Banco de Portugal já falava da recessão, Sócrates transpirava êxtase: tínhamos crescido, em 2010, o dobro do previsto, as exportações dispararam 15% e, já em Janeiro, a receita fiscal aumentou 15%. Só verdades – é verdade! -, mas não há pior verdade do que a meia verdade. A tal verdade que pesa bem menos do que a mentira.
O que faltou dizer? Que a dívida pública passou de 68% para 97% desde que é primeiro-ministro, que o défice de 2010 não foi de 6,8% mas de 8,6% (se tirássemos o fundo de pensões da PT e continuássemos a pagar os submarinos seria de 9,6%!), que a despesa pública nominal não parou de aumentar e que a previsão de crescimento económico em 2011, que o Governo manteve até 21 de Março nas suas previsões, não passou de uma alucinação sem sentido.
Hoje mais do que nunca sentimos na pele a velha pedagogia infantil: mais vale um erro assumido do que a mentira permanente. Mais vale um pântano assumido do que um colapso escondido.


Certíssimo, Francisco. Tens toda a razão: “mais vale um pântano assumido do que um colapso escondido.”
Obrigado pela visita. Um abraço.
Abraço, Pedro!