Governos


cadernoelastico,

Ter governos de maioria absoluta é uma consequência inesperada no nosso sistema eleitoral. Para conter a legitimidade revolucionária, optámos por uma representação proporcional. No dilema proporcionalidade-governabilidade, privilegiámos a proporcionalidade. Nos primeiros tempos, o resultado não foi brilhante. Depois, desde 87, até parecia funcionar. Duas maiorias absolutas, Guterres quase com maioria absoluta, mas a conseguir alianças no parlamento, um governo de coligação. O saldo não era mau. Até que começa a era Sócrates. Em 2005, com uma maioria absoluta (a primeira PS, refira-se), o governo PS inaugura uma tradição: tem maioria absoluta, aprova legislação sem problemas, mas é incapaz de reformas. Volta atrás, não é capaz de executar políticas, e por aí fora. Em 2009, perde essa maioria. O desafio proposto era claro: amiguinho, sem uma maioria clara no parlamento, tens de negociar, à esquerda ou à direita. Que fez Sócrates neste cenário? Mentiu, enganou, camuflou. Eliminou qualquer possibilidade de acordo por ter duas caras, ser um falso em quem é impossível confiar. E agora vai para a rua, esperamos. Porque merece: não só provocou uma crise de finanças públicas e agravou uma crise económica, como criou uma crise política que põe em causa vários aspectos do regime. Governabilidade? O que é isso? Estabilidade? Alguém a conhece? Execução política? Ah, foi há tanto tempo. Confiança nas instituições? Suspiro. Reconstruir a cultura política portuguesa vai ser a tarefa mais difícil dos próximos anos.

 

Já basta.

2 comentários em “Governos”

  1. Se fosse a cultura política nacional a tarefe até seria simples, mas os estragos foram muito além disso.
    Todo o país, sem excepção, vive um período de descrença em si mesmo que aflige a alma mais optimista. Mas é nestes momentos que se mede a fibra de um povo, portanto temos que acreditar, arregaçar as mangas e ir à luta. Portugal é grande!

  2. Não poderia estar mais de acordo!

    A credibilidade é um bem que custa a adquirir, mas que se perde rapidamente. E este governo nunca teve nenhuma, com um primeiro ministro mentiroso e envolvido em sucessivos casos, nunca cabalmente esclarecidos, e onde o sr. Pinto de Sousa apenas invocava o fantasma da cabala e conspiração contra si!

    Vai-se embora e já vai tarde!

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