Bater no fundo


Ana Vidal,

 

Cenário e personagens:

 

Uma típica middle class teenager americana: bonitinha, loira, filha única, mimada, indolente, insolente, a caminho da obesidade a passos largos.

Em suma – uma criaturinha insuportável.

 

Um típico middle class teenager americano, namorado oficial da dita: ar razoavelmente saudável mas apatetado, convencido, feiote, indolente, insolente, magro e borbulhento.

Em suma – uma criaturinha insignificante.

 

Uma típica middle class housewife americana: diligente, puritana, dependente, preconceituosa, opinativa, ignorante, resignada, lamechas, numa batalha perdida contra a obesidade.

Em suma – uma criatura frustrada.

 

Um típico middle class male americano: alarve, machão, preconceituoso, ignorante mas convencido da sua superioridade, obeso assumido, todo-poderoso, cruel, ditador.

Em suma – uma criatura perigosa.

 

***

 

Os pais não gostam do namorado da filha, acham que ela merece muito melhor. O namorado não gosta dos pais dela, e acha que ela tem muita sorte em tê-lo fisgado. A filha defende o namorado (sem grande convicção, diga-se) mas acha que não perde nada em dar o benefício da dúvida a mais alguns candidatos a um lugar no seu coração.

 

E começa o espectáculo: os pais entrevistam vários jovens, à vez – as perguntas de selecção são simplesmente inenarráveis – e cada um deles escolhe o que lhe parece o melhor para a filha. O pai escolhe um troglodita parecido consigo, mas numa versão teen e musculada, porque acredita que ele “tomará conta da filha” e que não deixará que lhe falte nada, no futuro. A mãe escolhe um invertebrado meloso e supostamente romântico, porque acredita que assim a filha terá sempre ramos de rosas e joelhos em terra, coisa que ela própria jamais soube o que é.

 

A filha presta-se ao papel de passar algumas horas com cada um dos dois eleitos, que tentará seduzi-la e conquistá-la com as armas que tiver e com as preciosas dicas que os pais lhe facultaram. Os pais ficam no sofá da sala, com o namorado entre eles, assistindo todos, na televisão (e comentando a três…) a evolução desses encontros, filmados em directo. Ouve-se frases tão extraordinárias como “O filho da puta está apalpá-la toda!”, uma legítima indignação manifestada pelo namorado e logo secundada pelo pai, pela primeira vez concordantes e irmanados no ciúme mais primário, ou “Estão a ver como ele é romântico? Até a deixou repetir o gelado!”, uma frase da mãe, embevecida, que lhe vale dois olhares de absoluto desprezo.

 

Por fim, a princesa tem de escolher o seu príncipe. O namorado a-ser-substituído-ou-não, um duque de paus que acredita firmemente no seu trunfo – um conhecimento mais aprofundado – volta ao baralho, em igualdade de circunstâncias com os dois ases finalistas: o Rei dos Músculos e o Rei das Frases Feitas. A menina, melíflua, aponta os defeitos e qualidades de cada um, reflectindo interiormente na contabilidade mais satisfatória. Por fim, baixa o polegar a dois deles, sem contemplações, e ergue-o ao terceiro, sorridente. Qual deles escolhe? Pasmem: não o namorado, que dizia amar e defendia da injustiça dos pais, não a inflamada lêndea que lhe ofereceu rosas e gelados batendo as pestanas, mas… o egótico brutamontes que era a aposta do pai e que virá a dar-lhe, seguramente, um tratamento parecido com aquele que a mãe recebe desde sempre.

 

Esta aberração chama-se “Parental Control” e é – ou foi (não sei se a programação era requentada) – um aclamado programa de televisão nos EUA. Mais um produto do voyeurismo televisivo, de infindável capacidade imaginativa. Quando eu penso que o modelo está esgotado e já bateu no fundo definitivamente, há sempre mais um lixo destes que me surpreende. É por estas e por outras que praticamente já não vejo televisão. Tenho plena consciência de que a maior perversão destes reality shows é o facto de serem tão hipnóticos que, sob os mais diversos pretextos, ficamos invariavelmente a vê-los até ao fim. Foi o que me aconteceu.

19 comentários em “Bater no fundo”

  1. Se perder um bocadinho a ver a programação da MTV, verá que é praticamente toda composta por programas desses.
    A variedade é imensa e existem bem piores do que esse…
    A evitar a todo o custo.

  2. The USA no seu pior: iletrado e infantilóide. Estes programas são bons para nos fazer recuperar alguma auto-estima europeia… e até se torna difícil acreditar que há por lá outro povo que não este. Mas atenção: há, felizmente.

    1. Eu sei que há, Laura. E também não é inteiramente justo culpar os EUA por formatos televisivos que, em geral, são inventados na culta Europa… a maioria deles nasce na Holanda. O que me preocupa é a propagação fácil deste lixo, pela adesão igualmente fácil. É que vai direitinho ao voyeur que há em todos nós e instala-se sem quaisquer cerimónias. A única solução é não ver, não há outra.

  3. “You watch television to turn your brain off and you work on your computer when you want to turn your brain on .”
    Steve Jobs , co-founder of Apple Computer and Pixar , in Macworld Magazine, February 2004

    Isto dizia ele em 2004, hoje já não será bem assim pelo menos no que me diz respeito, cada vez ligo mais o meu computador para também tentar o off . Mas há uma outra citação que é absolutamente surpreende vinda de quem vem;

    “They put an off button on the TV for a reason. Turn it off . . . I really don’t watch much TV.”
    President George W. Bush, C-SPAN interview, January 2005

    De onde presumo que não ver TV não é garantia de ficar menos apatetado.

  4. “Quando eu penso que o modelo está esgotado e já bateu no fundo definitivamente, há sempre mais um lixo destes”

    Lixo? Por quê?

    Isto são programas de entretenimento, que são para ser vistos de forma ligeira, por quem se quer entreter, sem qualquer pretensiosismos a um qualquer valor mais profundo.

    Não é lixo. É um modelo de sucesso, como se prova pelas audiências obtidas.

    A Ana pode comparar estes programas com jogos de futebol, por exemplo. Também são todos mais ou menos iguais mas, não obstante, o pessoal continua a (querer) vê-los. Os jogos também não têm qualquer valor (educativo, cultural, intelectual, etc), mas são bons para entreter o pessoal. Não são “lixo”.

      1. Poderia ter a gentileza (delicadeza, etc) de me tratar pelo meu nome próprio, tal como eu a tratei pelo seu. Sei que não gosta de mim nem concorda comigo, mas, não obstante, custa pouco ser agradável.

        1. Não vejo em que é que estou a ser desagradável consigo ao tratá-lo pelo seu próprio nome. Desagradável – e muito! – foi você aqui neste blogue, ainda não há muito tempo. Desde aí, não vejo nenhuma razão para tratá-lo com mais proximidade, lamento.

          1. A grosseria do nosso leitor LL, que não gosta de ser tratado pelo apelido, é cada vez mais notória. A ânsia de protagonismo blogosférico, a todo o custo, por vezes dá nisto.

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