José Pacheco Pereira – o novo herói da Direcção-Geral da Propaganda – proclamou ontem, abrupto, o seu imenso nojo pela cobertura jornalística das manifestações pacíficas que levaram às ruas cerca de 300 mil pessoas de todas as idades, em várias cidades – a maior iniciativa do género em Portugal, não enquadrada por estados-maiores partidários nem caudilhos sindicais. O que tinha o ilustre pensador a proclamar sobre o assunto? Apenas isto: «Voltou-se ao PREC e aos comícios em directo.» Eis um raciocínio de uma profundidade esmagadora…
Estive na manifestação de Lisboa, sei do que falo: não houve exagero no que se disse, no que se mostrou e no que se escreveu. Não foi o desfile de arruaceiros que muitas bempensâncias previam, nos jornais e nos blogues. Não foi um palco para se exibirem extremismos de várias cores, como algumas aves agoirentas chegaram a vaticinar, em letra impressa ou na pantalha. Nem foi a marcha de “antidemocratas e niilistas” que Mário Soares temia, já esquecido do “direito à indignação” de outros tempos.
Foi, isso sim, uma exemplar demonstração de civismo. E um vigoroso cartão amarelo exibido não só ao Governo mas à generalidade da classe política – uma espécie de clube muito reservado, cujos membros se esgotam nos rituais da pequena intriga, contra adversários e correligionários, indiferentes ao pulsar da sociedade. Pessoas cuja opinião varia em função das conveniências tácticas de circunstância. Pessoas como o deputado Pacheco Pereira, em tempos um dos mais ferozes inimigos do bloco central e que ontem, na página de opinião de que dispõe no Público, apregoava os méritos de um entendimento entre o PS e o PSD (com o CDS a reboque) como “única saída democrática para a nossa crise”. Dias depois de ter advogado que o Governo de José Sócrates “deve cumprir a legislatura toda até 2013”.
De uma coerência arrasadora: Pacheco certamente continuará a merecer honras de citação da Direcção-Geral da Propaganda. O que diz muito sobre o espírito do tempo. Hei-de sentar-me num banco do jardim de Santo Amaro a meditar sobre o assunto.


Caro Pedro!
Onde posso assinar o seu texto?
Abraço.
Na mouche, Pedro. Hoje defende-se o bloco central, amanhã logo se vê.
O problema de muitos dos nossos políticos e opinion makers é que vivem num mundo à parte, o que dadas as suas funções é bastante bizarro. Daí os monumentais erros de análise, as distorções.
Por outro lado, e repetindo aqui um comentário lido no FB :
«No site da Lusa e não há uma única referência a uma manifestação que mobilizou cerca de 300 mil pessoas. Não é estranho??»
(”postado” às 2.00AM + ou -)
Bravo! (clap, clap, clap)
Nem mais, Pedro. A manifestação foi esmagadora, veemente e claríssima, mas de um civismo exemplar. Não importa de os partidos e os sindicatos se aproveitaram, todos sabemos que isso acontece sempre. O que se passou ontem foi muito mais do que isso, e não me parece que seja possível ignorar aquilo a que se assistiu. E see a Lusa se cala, esse silêncio é um sinal evidente de que é controlada.
Acho engraçado esse senhor revoltar-se com a cobertura em directo de manifestações que envolveram o país todo. Interrogo-me qual será a reacção do mesmo quando os canais noticiosos transmitem em directo os congressos do seu partido?
Como é que ele qualificará essas “coisas” televisivas do alto da sua cátedra de vigilante dos media?
A fantastica manifestação “tutti-fruti”, traduz a inquietação em que vivem tantos milhões de portugueses. Aproveitando a oportunidade, apresentaram-se lá pessoas de todas as idades, e por milhentas razões diferentes. Este fenomeno unico em Portugal, porque normalmente as manifestações são convocadas por razões especificas, deve fazer quem de direito, ou seja os politicos com responsabilidades, tirarem as devidas conclusões de um fenomeno desta natureza: centenas de milhar de pessoas reunirem-se para apresentarem cada uma o seu protesto particular. Este “melting pot” do descontentamento pode-se transformar rapidamente num enorme barril de polvora.
Nos ultimos dias têm-se passado coisas muito graves ao nivel do poder politico em Portugal: aparentemente Socrates sente-se de tal maneira acossado que anda em roda livre. O Presidente da Republica tem que tomar uma posição rápidamente acerca das ultimas atitudes do 1º ministro, sob pena de este país se ver rapidamente num beco sem saida. Não se podem tomar medidas de austeridade todos os meses, e dizer que é tudo feito em nome do progresso da Nação.