Comissão de Serviço III


modosdever,

UM PRETO EM OSSO

 

O carro simplesmente bateu e seguiu o seu caminho, sem um chiar de travões, direito aos bairros brancos.

Na esplanada, cheia de militares, a uns quinze metros, se tanto, ninguém deu por nada, nem por um baque surdo, de chapa, contra algo mole, ou pela queda de um corpo – sons que se conhecem, enfim, de ouvido.

Quer dizer, a bisca lambida pode causar surdez.

Na estrada, deitado, um homem contorcia-se, aos aaaaaaaais, sentando-se às vezes para olhar para a perna, de onde saía, vermelho, da pele negra, um osso, caindo depois outra vez.

– Aaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Ninguém acudiu, muito menos o criado – a designação que na altura equivalia a um psssssssssst –, também preto, mas este de jaqueta branca, que parara entre as mesas, e as biscas, e os aaaais, com os olhos na rua e a bandeja de cervejas – a aquecerem.

– SERVE, PÁ! Tás a dormir? – mandou um sargento de garganta seca. E estava, há muitos anos. Mas a acordar.

Na rua, o preto, inexistente, deixou de gritar. Levaram-no meia hora depois.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

10 comentários em “Comissão de Serviço III”

  1. Esta cena pode acontecer hoje, num qualquer bairro social de uma qualquer grande urbe em Portugal, com a diferença que o estatelado no chão é um PSP e branco.

    1. Mentira. Isto não podia acontecer hoje em Portugal. Porque diz …”PSP e branco.” Se fosse PSP preto era menos grave?

    1. Eis um comentário perfeito, Cristina. Também penso que quem não sabe História se arrisca a cometer os mesmos erros. O problema é que, quem sabe, curiosamente também os comete, como também sugere. Mas isto foi só uma fractura exposta. Vi muito mais.

  2. Esta história pode muito bem ser a do meu tio materno Augusto Monteiro guarda da PSP em Luanda que foi atropelado por um jipe da tropa Portuguesa nas ruas de Luanda e abandonado pois por ser moreno foi confundido com um “preto”. Deixado para trás moribundo e sem assistência deu entrada no Hospital já cadáver. Uma história muito triste: irresponsabilidade, falta de moral e de humanidade

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