Como escrevi antes do escrutínio presidencial, Manuel Alegre terminou esta segunda corrida a Belém ainda mais isolado do que na primeira apesar de contar agora com o apoio oficial do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda. A primeira estocada foi-lhe dada por José Sócrates na própria noite eleitoral ao declarar que os eleitores haviam optado pela “estabilidade política”: uma tentativa canhestra de reaproximação a Cavaco Silva lançando para cima dos ombros de Alegre o labéu da “instabilidade”. A segunda – e decisiva – estocada foi-lhe dada ontem por Francisco Louçã ao anunciar no Parlamento a primeira moção de censura pós-presidenciais ao Governo socialista, deitando por terra toda a estratégia de convergência das esquerdas que Alegre tentara construir nos últimos dois anos como plataforma para a sua candidatura presidencial. Por mero tacticismo político, apenas com o objectivo de medir forças com o PCP em radicalismo de esquerda, o líder do BE acaba de dizer aos portugueses, escassos 18 dias após a contagem dos votos, que a candidatura de Alegre não teve o menor significado político nem deixou rasto de qualquer espécie. Convém não abusar da perda de memória: o Louçã que anuncia a moção contra o Governo é o mesmo que há três semanas surgia com destacados dirigentes socialistas nos comícios do candidato apoiado simultaneamente pelo PS e pelo Bloco.
Alegre, de facto, nunca esteve tão só.


Confirmação e vantagens. Ao contrário de Sócrates, Louçã e Alegre não enganam.
Nunca se sabe. Nos dias que correm até o algodão engana.
“[…] Talvez o próprio povo o espere ainda
quando subitamente fica melancólico
propenso a acreditar em coisas misteriosas. […]”
Manuel Alegre, In O Cavaleiro (2008)
Muito a propósito, Fernando.
É importante saber escolher as companhias…
Diz-me com quem andas…
As coisas não acontecem por acaso…
Ou
Quem semeia ventos…
Não existe vento favorável para o marinheiro que não sabe aonde ir.
como é um homem afortunado, ainda tem a poesia, a pesca e a caça…
mas acho que toda a gente sabia que esta campanha era o principio do seu fim politico, Pedro.
Nem todos, caro Luís. Como se viu e como se leu. Mas era tão óbvio, a quem soubesse olhar, que as coisas decorreriam como decorreram. Alegre foi usado e deitado fora.
Ainda mais só porque a sua campanha não foi um projecto para Portugal, mas um continuo ataque a um adversário que se tornou o chefe máximo do País, perdendo assim a simpatia e o idealismo que se associavam ao Poeta da anterior candidatura.
Acompanhei como jornalista a campanha de Alegre em 2006 que foi bem recebida pelos portugueses por ter sido feita com elevação, sem calculismos políticos nem o patrocínio de estados-maiores partidários desprestigiados. Precisamente ao contrário desta, em que o candidato se deixou enredar por péssimos estrategos e conselheiros. Alegre devia ter seguido a sua própria intuição, como fez há cinco anos.
Talvez se ele voltar, numa manhã de nevoeiro…
Isso não. Ele é Manuel, não Sebastião (olha, fiz um ‘haiku’…)
Mais vale sozinho que mal acompanhado.
E o Louçã é seguramente má companhia – se lhe juntarmos o Sócrates, então pode mesmo dizer-se que Alegre estava em péssima companhia.
Que triste desfecho de uma igualmente triste carreira política !
Alegre é hoje uma das figuras mais solitárias da política portuguesa. Por mim, que o admiro, tenho pena. Mas de algum modo estava escrito nas estrelas.