Desde o “Código Da Vinci” que não via tanto entusiasmo por coisa tão inócua. A nova música dos Deolinda já serviu para centenas de textos, mobilizações e “reflexões”, e parece que há quem lhe chame “hino” não-sei-do-quê. Se não chegasse a instrumentalização que dela fez a extrema-esquerda para me desinteressar, bastar-me-ia a pobreza do objecto em causa, que alude a problemas vagos e não se esforça por apontar uma única saída. Para “hino”, convenhamos que é pouco.
Pior: em meia dúzia de versos, consegue promover uma ideia absolutamente errada e de consequências devastadoras (se alguém insistir em levar isto a sério): que não vale a pena estudar. Já nem falo do “problema filosófico” da questão, ficando-me meramente por uma informação estatística: em Portugal (e em praticamente todas as democracias ocidentais), os licenciados têm mais facilidade em encontrar emprego que os não-licenciados e têm melhores salários que estes, especialmente no mesmo grupo demográfico. Isto não é uma “reflexão”. É um facto.

Pois eu não estou nada de acordo contigo. Acho que não foi por acaso que esta canção mexeu tanto com as pessoas e fez correr tanta tinta. Não sei se é um hino, mas é um grito de revolta. Nunca uma geração em Portugal teve tantas habilitações e tão poucas perspectivas de emprego. Estagiam de borla (a única colocação que encontram porque não é remunerada) e nunca foram tão explorados, como se trabalhar não merecesse sempre uma compensação. Passam da licenciatura para o mestrado e depois directamente para o doutoramento, às vezes, porque não têm outra saída. Ou então emigram, para terem noutros países o que o país deles não lhes dá: trabalho. O que a letra diz é uma verdade incontestável: “hoje em dia, para ser escravo é preciso estudar”. Acho a frase genial, e espero que ponha esta geração a reagir de alguma maneira. Eu, que até nem sou grande fã dos Deolinda, tiro-lhes o chapéu.
Adenda: não acho que a mensagem da canção seja a de que “não vale a pena estudar”, mas antes “se estudamos, queremos ser mais do que escravos”. E têm toda a razão.
Nesse caso, como interpretas a frase “que parva que eu sou”? A mensagem é claríssima: para quê estudar?
A frase é uma ironia, como todo o resto da letra. E não achas que têm razão em estar frustrados, se estudam imenso para depois fazerem trabalhos que qualquer analfabeto pode fazer?? Ou, em alternativa, trabalharem (quase) à borla na área que escolheram?
Ironia? Não me parece uma letra nada irónica. Razão para estarem frustrados? Claro. Mas o problema são as generalizações, em que a letra é farta. A ideia que dá é que o destino é para todos igual, independentemente do esforço. Não é. E depende muito das áreas…
Eu interpreto assim: “que parva que eu sou, que nem sequer me revolto”.
Concordo com 99% do que dizes, só que 99% do teu comentário não está na música dos Deolinda. Isto parece um teste de Rohrschach: cada pessoa vê na letra uma coisa diferente. Eu vejo convite a deixar de estudar, elogio da resignação e protesto inconsequente (porque cego na definição de saídas).
Beijos, querida Ana!
Beijo para ti também , filósofo com emprego… 🙂
Olha, no fundo o que eu gosto nesta música é ver que alguém acorda esta miudagem da modorra habitual e do conformismo em que os vejo. Mas, pelos vistos, leio nela exactamente o contrário de ti…
Pode ficar a ideia de que falo de cima dos meus “direitos adquiridos”, mas porque uma declaração de interesses é relevante, fica aqui uma nota: fui bolseiro de investigação científica durante 4 anos, estive dois anos sem remuneração alguma enquanto concluía o meu doutoramento e 80% das tarefas que realizo não são pagas.
Sei que sabes disto, mas os nossos leitores podem não saber e por isso fica aqui o registo 🙂
E também esses dois anos não foram justos, no teu caso! Sou completamente contra estágios não pagos por sistema, a não ser os curriculares. Trabalho é trabalho e os abusos são mais do que muitos, como sabes. Também já trabalhei muito sem qualquer remuneração e ainda agora o faço, mas quando são coisas que me dão prazer. Ou seja, quando tenho outro tipo de compensação. Mas a escolha é minha, não é de uma empresa que me escolhe porque sou recém-formada e lhe saio à borla.
Literariamente, aquilo é de uma pobreza confrangedora.
Parece uma redacção da antiga segunda classe 🙂
Não percebo certos deslumbramentos… Também sou Ana, mas não tanto.
Cara Ana, a letra não é da (outra) Ana, mas sim do Pedro da Silva Martins, que assina todas as letras e composições dos Deolinda.
Como hino e como possivel movimento de revolta.
Se não fossem os estudos, hoje nao seria ninguem. Nem mesmo noutras areas para qual tenho apetencia….
Pena que o nosso país se esteja a transformar num país onde o importante é ser modelo ou concorrer a um reality show.
A verdade é que me revejo, nesta musica, a verdade é que sou recém-licenciado e nem estágio encontro. Às vezes considero-me parvo, por não ter dado outro caminho aos meus estudos… Mas nunca pus em causa, não ter feito o meu curso superior e isso esta na mente de todos os que se identificam com a musica, pois ela é pura ironia e retrata um nicho da nossa sociedade!!
À aspectos que devemos ter em consideração, e a comunicação social, faz questão de os não cobrir ou simplesmente omite-os, o caso dos recém-licenciados, pouco ou nada se fala, e são milhares. Esta musica veio, como qualquer outra musica de “intervenção” unir num só pensamento td o sofrimentos de alguém que está dotado e capacidades e ferramentas para colaborar com um Pais e que passam despercebidos…
Não vejo o porque de se ter focalizado nela, a musica do Pingo doce é bem mais irritante…
“À aspectos”
Foi na Independente, foi?
Não, foi na “Dependente”…
Nem aí, pelos vistos.
Pois os vossos comentários não são, definitivamente, como a música dos Deolinda: são unívocos e cristalinos, e eu identifico-me com os dois (…ou de como da síncrese nasce a síntese 🙂
O mercado de trabalho é a desgraça que sabemos. A regulação, péssima (só regula mesmo o que não deve). A vida de tanta gente nova é um desespero, e é estigmatizante (os filhos canguru). E o País perde em toda a linha, por não aproveitar esses recursos humanos quando estão no auge do seu potencial.
A música em causa é uma catarse; – quem não precisa dela, enfiado num túnel sem saída?
Vejo-a assim, sem mais perigos do que o vinagre balsâmico…
Porque se gerasse a ideia demolidora da completa vacuidade do estudo e da qualificação – mesmo que sem «saídas» – então seria de uma superficialidade demagógica perigosa. E insultuosa para as capacidades mentais dos afectados 🙂
Acho que ainda não lhe tinha dado as boas-vindas a este antro, cara Laura… Fica então aqui o registo, com o pedido de desculpas 🙂 Bjs!
Não podia discordar mais do seu texto. Claramente não está a interpretar a letra da música como a interpreta a geração nela retratada. É normal, e ainda bem para si, que a letra é inócua. E que não se sente um parvo por passar a vida inteira a estudar para depois lhe oferecerem estágios curriculares atrás de estágios curriculares não remunerados, ou 480€ por mês a recibos verdes (o meu caso, depois de já ter passado por estágios curriculares). Como é que acha que se sentem as pessoas, que olham para qualquer empregada de limpeza a ganhar muito mais que elas, que estudaram tanto para ser alguém? Isto é a definição de parvoíce.
Acho que onde vê o copo meio vazio, eu vejo-o meio cheio. Não se está a dizer para as pessoas deixarem de estudar. Esta é uma canção de protesto que pretende mostrar uma situação ridícula, e tentar corrigi-la. Ou seja, melhorar a situação de grande parte dos licenciados deste país. E fizeram mais os Deolinda do que um Estado incapaz (e que acaba de cortar 1/4 das bolsas de apoio social), mas que não se cansa de dizer de boca cheia que é muito amigo da educação.
Como é que acha que se sentem as pessoas, que olham para qualquer empregada de limpeza a ganhar muito mais que elas, que estudaram tanto para ser alguém?
As empregadas de limpeza não são “alguém”? Conheci algumas com uma cultura geral bem superior à maioria das licenciadas que conheço, trabalhando com grande dignidade, sem vergonha de “sujar” as mãos.
A licenciatura não é um valor em si mesmo. O valor está em usá-la com dignidade, mesmo que seja a lavar escadas.
Ainda pensei em nem me dar ao trabalho de lhe dar uma resposta, mas reconsiderei. Conhece a expressão “estuda se queres ser alguém na vida”? Não estou a diminuir humanamente as empregadas de limpeza. Estou é a dizer que, se quisesse ser uma, podia ter parado de estudar há quase uns bons anos. Veja lá o dinheiro que já tinha juntado, em vez de andar a gastar em estudos (dinheiro gasto + o custo de oportunidade de não estar a ganhar), nem precisava ter mudado de cidade e ficar longe da família a troco de precariedade. Não tenho paciência para esses comentários paternalistas. Valorizo muito toda a gente, esteja em que profissão for. Com uma licenciatura na mão, já trabalhei num supermercado e num call center, portanto dispenso lições de moral.
“Esta é uma canção de protesto que pretende mostrar uma situação ridícula, e tentar corrigi-la.”. Ai sim? E que propostas se encontram na música dos Deolinda?
A proposta é a reflexão causada pela música. Que propostas tinham canções como Grândola Vila Morena ou Vampiros? Nunca as entoou? Uma música para mudar alguma coisa não precisa de ter literalmente propostas. A música não é um programa político, é arte. E veja-se o que uma “coisa tão inócua” é capaz de fazer.
Grândola Vila Morena? Onde é que isto chegou…
De facto, Onde é que isto chegou… Criticar a mensagem e o mensageiro, ao invés de se criticar a situação que motivou tudo isto.
Sara, parece que temos a mesma leitura da letra dos Deolinda. Eu também não vejo nela um apelo ao abandono dos estudos, mas uma chamada de atenção para a aparente inutilidade de tanto estudo pela parte dos empregadores.
Mas tenho de dizer-lhe uma coisa: se pertence a esta geração, no seu caso “uma vida inteira” ainda é muito pouco… felizmente para si e para todos os da sua idade, ainda têm “uma vida inteira” pela frente para tentar mudar as coisas. E não pode ser só a aplaudir os Deolinda…
🙂
Ana, concordo plenamente com tudo o que diz no seu comentário. Continuo a estudar, a trabalhar, a ‘seminar’, tudo ao mesmo tempo, para, quando a oportunidade chegar, eu agarrar com força. Eu e muitos outros. Não posso é censurar quem desanima, nem quem se sujeita a condições de exploração. Censuro, sim, quem não tem escrúpulos e se aproveita do desespero de uma geração que quer agarrar qualquer oportunidade porque acalenta uma esperança. E também censuro quem não vota, quem não se mexe, quem se deixa andar.
Sobre este tema, aconselho o seguinte texto: http://www.a23online.com/2011/02/07/a-hi pocrisia-dos-cotas-que-se-comovem-com-a-m usica-dos-deolinda/
E faz muito bem em lutar, Sara. Desistir, na sua idade, seria a pior opção. E contra-natura, além disso. Se não for na sua idade que se alimentem sonhos e mesmo utopias, quando será?
Ironia à parte, qualidade literária/musical à parte, essa realidade musicada existe e é uma chaga social que permite mascarar muitos problemas da nossa economia e, miseravelmente, do nosso Estado. Nós aceitamos, impávidos e serenos, que o Estado (por exemplo: através do IEFP) seja o principal empregador de recibos “verdes”. Ou seja, o Estado, que somos todos nós, confunda profissionais independentes (como eu gostava de ser, no seu verdadeiro sentido) com mão-de-obra barata e sem direitos (como acabo por me sentir; eu e os demais).
Se o Estado dá este exemplo, facilmente outros imitam-no. Para quem quer entrar no mercado de trabalho, não só no sector privado, ou quer continuar a trabalhar como profissional independente, é muito difícil lutar contra um Estado e demais cúmplices que “escravizam” os seus colaboradores, independentemente do vínculo contratual. E, assim, vamo-nos desenrascando até que…
Voilà!
A chaga social a que se refere já existia muito antes dos “Deolinda” e suspeito que vá continuar a existir se seguirmos o não-plano de intervenção em que a música é farta.
Meu caro, trata-se dum poema, e os poemas não são para interpretar à letra. “Para ser escravo é preciso estudar” é uma frase da qual, tomada à letra, se pode depreender que “não vale a pena estudar”. Vistas as coisas literalmente, você tem razão.
Mas duvido que os jovens precários de trinta anos, que são em grande parte o público-alvo dos Deolinda, tenham feito a leitura literal que você faz. os que conheço, pelo menos, não a fazem. No contexto, devem ter entendido qualquer coisa como “estudar não te livra de seres escravizado”. E isto, infelizmente, é um facto.
Estudar vale a pena por muitas razões, e os jovens mais qualificados compreendem bem isto; mas, como eles também compreendem, não protege ninguém da escravidão.
Obrigado pelo seu comentário. Apenas duas notas: eu tenho trinta anos e não sendo actualmente precário, vivo numa situação de semi-precariedade desde que terminei a licenciatura. Não estou a falar sobre estes assuntos na minha torre de marfim. Outra coisa: cuidado com o termo “escravidão”. Não relativizemos uma coisa muito grave. Cumprimentos!
Não te bato mais, Zezinho. Até porque te dou razão em muita coisa também, se interpretar a letra como tu a lês. Por exemplo, no perigo da ilusão de que é igual ter ou não ter estudos. É claro que não é igual, a qualificação é sempre uma vantagem, mais tarde ou mais cedo.
E sabes quem ganha com tudo isto? Os Deolinda!
🙂
Eu tenho muito cuidado com o termo “escravidão”, e é por ter esse cuidado que o uso em vez de “escravatura”. A escravatura (ou melhor, as escravaturas, porque as houve de carizes muito diversos) é uma forma de organização económica e social em que a lei reconhece a algumas pessoas o direito de propriedade sobre outras. Estamos muito longe disto, felizmente.
A escravidão é a situação duma pessoa a quem foram retiradas todas as opções que não impliquem, ou a sujeição a outra, ou uma alternativa ainda mais intolerável, como a miséria absoluta.
As situações pessoais de escravidão não pressupõem necessariamente regimes legais de escravatura. Desta, podemos estar longe; da escravidão, não estamos.
Acresce que as doutrinas económicas hoje dominantes não incluem qualquer freio intrínseco a uma evolução das sociedades em direcção à escravidão, ou mesmo, a mais longo prazo, à escravatura. Estes freios existem na sociedade, mas são extrínsecos aos sistemas hegemónicos de pensamento económico.
Não era assim no tempo de Adam Smith, quando a Economia Política era uma subdivisão da Filosofia Moral. Mas o cadáver de Smith ainda mal tinha arrefecido quando os economistas clássicos iniciaram o trabalho, que ainda hohe os seus sucessores prosseguem, de separar a razão económica da razão moral – e por consequência da razão social e política.
A escravatura como sistema, e a escravidão como vivência, reentraram por esta porta no domínio do possível e do imaginável. A primeira pode estar ainda muito longe, lá no fim da estrada. A escravidão, essa, está já emboscada na próxima curva. Mas a estrada em si não é a que escolhemos: é aquela em que nos puseram.
“trata-se dum poema”
Tem a certeza?
Não teria a certeza se tivesse optado por uma definição maximalista de “poema”, que tivesse em conta as diferentes subjectividades relevantes e os critérios estéticos delas decorrentes. Mas optei em vez disso por uma definição minimalista, objectiva e rudimentar, que me parece a mais apropriada quando o contexto do debate é político e não literário.
Feita esta ressalva, respondo-lhe que sim, que tenho a certeza. O texto tem rima, ritmo e outras condicionantes formais que forçam as palavras utilizadas para campos semânticos mais largos do que seriam os seus num ensaio um num artigo de jornal, daqui resultando várias ambiguidades que devem ser tidas em conta.
Não é que seja um grande poema; mas a letra da “Marseillaise” também não é um grande poema e isto não me impede de ter um desejo enorme de um dia a cantar nas fuças da Sra. Merkel, do Prof. Cavaco Silva ou do Sr. Ricardo Espírito Santo Salgado, que têm a mania que são reis e duques do Antigo Regime.
A confusão que vai por aí… Nada de que eu já não suspeitasse, mas enfim…
Embora não goste dos Deolinda vejo esta canção mais como uma canção de protesto do que como um apelo a não estudar. De facto, esta geração é muito explorada e enfrenta outro tipo de problemas que a minha, por exemplo, não tinha de todo. Mas aviso desde já que também não tenho a menor simpatia por um texto do José Manuel Fernandes que anda a rodar no Facebook. Rejeito qualquer culpa na expoliação da ‘geração Deolinda’. Não há pachorra.
É um protesto claro, mas parece-me a mim um fraco protesto. Só isso. Bjs, querida Leonor!
Dizes bem: desde o ‘Código Da Vinci’ que um coisa-nenhuma é um nada tão grande.
Abraço forte João, tenho de ir responder ao bombardeio de que estou a ser alvo.
Se precisares de ajuda, já sabes!
não percebi. Estamos a falar de uma musica, simples musica, onde a letra denuncia uma situação ou do “pós e contras”. Pela lógica a musica deveria dizer a causa e a solução, duraria umas horas e seriam convidados a cantar os comentadores habituais da televisão.
“os licenciados têm mais facilidade em encontrar emprego que os não-licenciados e têm melhores salários que estes, especialmente no mesmo grupo demográfico.”
Olhe que não, olhe que não.
Caro Daniel, há amplos dados estatísticos e estudos que atestam a facticidade do excerto que destacou. É um facto, meu caro, e não uma “impressão”, como disse. Cumprimentos!
“Se não chegasse a instrumentalização que dela fez a extrema-esquerda para me desinteressar…” Eis senão quando se fez luz quanto às verdadeiras razões…
Compreende-se que o “sucesso” do tema provoque alguma urticária nalguma intelectualidade mais sensível.
Parece-me que a letra é pobre! Da música nem vale a pena falar. Parece-me que voltar a falar de música de intervenção, e tender a comparar com tudo aquilo que conhecemos e que foi feito em Portugal nas idas décadas de 60 e 70 – música que, para além da intervenção, tinha as bases de todo o edifício da actual música “popular” (não lhe chamo ligeira, isso é outra coisa) portuguesa –, é francamente exagerado. Mas, colocando a coisa no seu devido lugar, parece-me obrigatório reconhecer-lhe um conjunto de méritos: põe o dedo na ferida – uma realidade desesperante, triste e revoltante –, diz o que ainda ninguém, com tanta amplificação, tinha dito e construiu uma mensagem eficaz que rapidamente foi assimilada por uma geração que, talvez até pela “tendência esclavagista em curso”, é tida por pouco crítica e pouco dada à intervenção política e social.
Se outros não tiver estes já são méritos suficientes, a meu ver. Claro que agora é preciso que alguém diga, com uma mensagem igualmente forte e eficaz, que quando uma sociedade como a nossa atinge este estádio de desenvolvimento, com uma boa parte da população a atingir os mais altos níveis de qualificação, esses não podem simplesmente esperar que os outros, menos qualificados, a encontrar as soluções. Não dá para esperar que sejam os analfabetos a criar empregos qualificados para gente qualificada…
É uma “chatice”, compreendo que sim, mas a esta geração ainda temos que”impingir” mais uma exigência: a de mudar “este mundo tão parvo onde, para ser escravo, é preciso estudar”!
Obrigado pelo seu comentário, concordo com muito do que disse.
Espera ai !!! A extrema-esquerda armou dois ou três espectadores de telemóveis com capacidade para filmar,
e á revelia da sociedade de autores, um potencial “hino”
que nos faz sentar á sombra de uma bananeira ???
Ás armas, Ás armas !!!
Pois… A cantigueta pode ser insignificante, mas quando os sistemas estão em equilíbrio instável entra em cena a tal borboleta da Amazónia que provoca um tufão na China…
Nem mais. Se fosse assim tão insignificante, não levantava esta celeuma toda.
Fortíssimo argumento, não haja dúvida…
Parece-me lógico. Mas talvez a lógica das abelhas seja outra, sobretudo a das abelhas anónimas.
Essa já deu o que tinha a dar, não percebeu?
Já lhe disse, percebo mal a lógica das abelhas e ainda pior a dos anónimos. Talvez queira ter a bondade de explicar-me, agora com um pouco mais de mel e um pouco menos de ferrão?
Só dou aulas a troco dos correspondentes honorários.
Isto há mais de 30 anos – e não me tenho dado mal.
Nesse caso ficamos por aqui. Dispenso as suas aulas, e não sou masoquista para pagá-las, ainda por cima.
Passe bem, stôra.
Não sou “stôra”, mas professora-doutora.
Se o “ficamos por aqui” quer dizer que me vai cortar os comentários, só me resta sublinhar tão grande abertura de espírito. Abertura essa que, naturalmente, a leva a dispensar as minhas aulas, com o poderoso argumento (mais um!) de que não é “masoquista”…
Passe, então, bem!
Nunca cortei um comentário a ninguém, se quer saber. Publicarei outros comentários seus, se quiser continuar, mas ficarão sem resposta. Esta foi mesmo a última. O “ficamos por aqui” significa isso mesmo: fim de conversa.
Já agora, se me permite, o meu “fim de conversa” consiste em salientar as suas enormes virtudes democráticas…
Ao menos dantes, a esquerda tinha “O que faz falta do Zeca Afonso”. Mas isto não é um reflexo da esquerda ou da direita. É o reflexo de um país amarfanhado e triste. Onde já nem os hinos são hinos.
Pelos vistos vem aí a geração parva…eles é que sabem.
Seu blog e excelente, seus textos também são ótimos, vou tentar me inspirar no seu blog para melhorar o meu, se quiser depois e só da uma olhada o link ta logo a baixo: http://derlandreflexivo.blogspot.com/
Querido José, não podes tomar como absoluta a tua interpretação de uma música. Seja a sua composição boa ou má, seja a letra rica ou pobre, cada um poderá retirar as suas ilações.
Concordo com muitas das opiniões aqui expressas. A música não tem outro objectivo senão ridicularizar a inércia da juventude. E atenta, juventude nos seus 30. Quando era miúda, os trintões já tinham emprego estável, casa, filhos, blá, blá, blá. Eram cotas, não jovens.
Agora, o que me confunde é a tua convicção nisto: “os licenciados têm mais facilidade em encontrar emprego que os não-licenciados e têm melhores salários que estes, especialmente no mesmo grupo demográfico.” Eu também ouço e leio coisas sobre estes estudos. Acreditas mesmo que reflectem a realidade em que vives?
Na zona em que vivo, um operário fabril ganha o dobro de uma empregada de escritório licenciada, e falo em operário e em empregada porque a atribuição de certos empregos ainda tem por base a diferenciação do género. Muitos dos licenciados, que ao terminarem um estágio profissional, conseguem um contrato de trabalho, vêm a sua remuneração baixar para quase metade. Outros tantos nem conseguem colocação e trabalham em lojas.
Poderemos argumentar que se trata de uma questão de competências. Realmente, os que são mesmo bons conseguem ter a sua oportunidade. A maioria deles, fora do país. Mas sabes bem, porque também conheces casos desses, que muitas vezes é uma questão de falta de oportunidade. Faltam muitas oportunidades em Portugal e estamos a perder mentes e força de trabalho de jovens em trabalhos que lhes diminuem as capacidades.
Querida Lena, não se trata de uma convicção, mas de uma realidade, comprovada por estudos e informação estatística conhecida. Não corresponde à “impressão” que temos? Bom, metade dos meus amigos está a fazer mestrados e doutoramentos em filosofia, mas eu não acho que metade de Portugal esteja a fazer o mesmo.
Quanto à falta de oportunidades, concordo. Essa é uma questão-chave. Beijos
Zé,
Tens andado distraído. Desde o Código da Vinci ? Não viste o Avatar?
Agora a sério, não é muito justo acusares uma canção de não ser aquilo que nunca pretendeu ser. A canção dos Deolinda é uma canção de intervenção, e não um hino. E goste-se ou não dela, o certo é que captou e condensou na sua letra parte do descontentamento destes tempos que correm.
Mais grave parece-me ser a leitura que fazes da mensagem da letra, que vai precisamente no sentido contrário do que escreves. Quando lês na canção um apelo à desistência do estudo, ou que simplesmente não vale a pena estudar, diria que esse diagnóstico diz mais do leitor do que da coisa lida. Não te passa pela cabeça que quando se diz que « para ser escravo é preciso estudar », o que se critica justamente é a parte do « ser escravo » e que aquilo para o qual a canção procura mobilizar as vontades e os esforços não é a desistência do estudo, mas sim a mudança do mundo parvo? Porque o que me parece é que a canção é um apelo ao combate à parvoíce do mundo, um mundo assente na exploração do trabalho, ou pior, na condenação de parte da força de trabalho à redundância.
Por isso não se trata de responder à canção mostrando que apesar de tudo os licenciados estão mais protegidos do que os não-licenciados . Se alguma resistência tenho à letra da canção é justamente essa: a de que eventualmente pode ser lida no sentido de que a parvoíce do mundo é a injustiça para com os licenciados, ou os altamente qualificados, como se a estes fosse devido mais do que aos outros. Ou que se o mundo, ou o sistema, ou o capitalismo, não fosse parvo para todos.
Um abraço,
Bruno.
É exactamente o que penso, Bruno. E acho que se está a pedir a uma simples canção muito mais do que ela pode fazer: que resolva os problemas do tal “mundo parvo” de que fala. A letra de uma canção deste género não tem de ser um poema de qualidade suprema. Pode – e às vezes deve, como é o caso – alertar para problemas e acordar consciências, e se o fizer numa linguagem simples e acessível, melhor. É bom não esquecermos a quem se dirige.
Grande Bruno, concordo com quase tudo o que escreves, o que só mostra como se calhar as nossas interpretações não são assim tão distantes.
Discordo numa coisa, relativa à parte “que parva que sou”. Não me digas que se está a protestar contra o mercado de trabalho e coisas que tais! Está a criticar-se a tal geração que se meteu a estudar quando isso nada lhe garante. É a tal mensagem do “para que é que perdi tempo com os livros” contra a qual me insurgi… Mobilizar vontades? Lutar contra a mudança do mundo parvo? Como dizias, isto diz mais do leitor do que da coisa lida 🙂
Abraço forte!
Caro José Gomes André,
Se não percebe por que motivo a canção dos Deolinda é um hino, é porque não é “parvo”.
Sorte a sua!
Não vive em casa dos pais…
Não é escravo e o que estudou serviu-lhe para ser patrão/dirigente/director e não dirigido…comandado…
etc.
Já cá faltava a “individualização” do problema… E gostei do “etc”: mais um bocadinho e descrevia-me como um patrão rico, gordo e opressivo.
Caro José Gomes André,
Só é “individualização” na medida em que quem é “parvo” (nos termos da canção dos Deolinda) percebe o que ela diz e as razões porque se candidata a hino de uma geração.
Como o meu caro amigo, diz não entender…é porque não é “parvo”.
E só não entende quem não vive (directamente ou por familiares e amigos) como a canção descreve.
O “etc” foi por comodismo, para não o maçar a si e para não repetir todos os aspectos do tal hino.
Meus caros, eu, no processo de fabrico da minha modesta opinião, comecei por ouvir a canção, como tal. Já sabia que não ia gostar. Acho aquilo tudo chato, mas não os acho presunçosos. Não gosto, só.
Quanto à canção fazer algo pela minha geração, eu, que o conheci hoje, acho que este blog faz mais. É óptimo. Adiante, eu sou estudante de doutoramento e sou dessa geração de que tanto se fala desde que eu ainda não fazia parte dela. Sinto-me parvo todos os dias. Não por causa da minha geração ou ocupação (minto, claro que também me sinto parvo pela minha ocupação), mas porque sou uma pessoa que acha que tudo isto é o fim dos tempos – o facto do mundo em si estar pior que o chapéu de um pobre. Tá tudo roto. Sinto-me parvo por achar que a única boa carreira dos tempos modernos é a de “revolucionário com uma noção apurada da relação preço-qualidade”. Só que isso é, para mim, tão aborrecido como a música dos Deolinda.
Gostei de ler.