Herança islâmica
Desde que me dediquei à pesquisa histórica medieval, aprendi que devemos aos mouros esta maneira portuguesa de ser, que se costuma resumir na palavra “saudade”. E, no entanto, desprezamos a nossa herança islâmica. Não pretendo, nesta oportunidade que o “Delito” amavelmente me proporcionou, comentar os atentados a cristãos em países islâmicos. Sobre o assunto, já aqui escreveram Pedro Correia e Rui Rocha. Tenciono apenas chamar a atenção para o desprezo a que votamos uma parte importante do nosso passado. E quem insiste em esquecer o seu passado, ignora parte da sua própria identidade.
Embora, nos últimos anos, tenha havido um certo esforço por parte de alguns historiadores e arqueólogos, não existem obras profundas sobre o período islamita em terras portuguesas. Quem eram os líderes islâmicos que aqui dominaram durante quatro séculos? Quais os seus contributos para o desenvolvimento das regiões, da cultura, etc., etc.?
Sabe-se, por exemplo, que os mouros possuíam conhecimentos muito mais avançados do que os cristãos. Com as suas invenções, como a nora e outros sistemas de irrigação, que incluíam canais subterrâneos, fizeram florescer a agricultura em regiões inóspitas. Traduziram as obras dos filósofos e médicos gregos da Antiguidade para o árabe e, a partir daqui, para o latim, permitindo à Cristandade entrar em contacto com escritos esquecidos desde o desmoronar do Império Romano. Aliás, tomando o exemplo da Medicina, não se pode comparar o nível dos médicos islâmicos de então com os cristãos, razão pela qual aqueles eram procurados pelos próprios monarcas hispânicos. Que tentavam, ainda, imitar, a todo o custo, o luxo e a grandeza das cortes mouras.
O próprio D. Afonso Henriques teve uma relação de amizade com Ibn Qasî, um líder islâmico originário de Silves. O teor dessa amizade ainda hoje se encontra coberto pela penumbra, pois falta quem se interesse pelo assunto. Ibn Qasî era líder do movimento espiritual sufi, que tinha o seu centro em Mértola.
Muito mais haveria para dizer sobre o tema, mas, como este texto se resume a uma chamada de atenção, refiro um último aspecto: a influência moura em Portugal não acabou com a conquista do Algarve por D. Afonso III. Persistiram as mourarias, os bairros destinados aos mouros, nas cidades mais importantes do reino. Num lindíssimo livro (tanto a nível de texto, como de ilustrações) intitulado “Em busca da Lisboa Árabe”, publicado pelos CTT em 2007, Adalberto Alves fala-nos no drama vivido pelos últimos mouros em terras portuguesas, depois de D. Manuel I decretar, em 1496, a expulsão do reino de todos os que não se convertessem à fé católica.
Muitos conseguiram simular uma integração, mas ficaram sujeitos às mais variadas atribulações, no que constituiu um dos maiores dramas da História da Península do século XVI. Como nos diz Adalberto Alves, na obra referida: “transformados em marginais, rufiões e desclassificados, ébrios de fatalidade, frequentavam ainda Alfama e Mouraria vagueando como fantasmas gastos, sob a pálida memória dos seus antepassados”; “inventam um género musical e com ele cantam o seu fado”; “ao percorrermos certas alfurjas esquecidas de Lisboa antiga, parece sentirmos ainda como que os ecos longínquos desses fados esquecidos, onde o árabe se enroupava em português para exprimir o lamento dos humilhados do destino.”
No livro, é ainda reproduzida, na página 147, uma fotografia do autor na companhia de Amália Rodrigues, que, como Adalberto Alves nos diz, “estava intimamente convicta da parentela entre o fado e a música árabe, que muito apreciava”.
Para quando estudos sérios (livros, ensaios, programas de televisão) sobre este e outros aspectos da cultura moura em Portugal?
Quando deixaremos nós de desprezar a nossa herança islâmica?


Obrigada por este texto. Quem sabe se não é a Cristina a descortinar parte desse passado desconhecido que agora, com o islão tão presente no nosso quotidiano pelos piores motivos, importava mais que nunca conhecer.
Excelente texto, Cristina. Ainda mais oportuno no actual contexto de convulsão no Egipto, na Tunísia e nos países vizinhos. Um contributo adicional para que reforcemos a nossa solidariedade com esses povos: afinal de contas, não somos tão distantes como alguns imaginam.
Que belíssimo texto e que bela chamada de atenção. Muito nos esquecemos inclusivamente (e corrija-me a Cristina se eu estiver errado) que os árabes preservaram muitos textos antigos (gregos) que na Europa foram sendo ignorados ou destruídos. E foram preservados devido à devoção pelo saber nele contidos.
A realidade é que os povos mediterrânicos são extremamente semelhantes em muitos aspectos. Seja na Europa Ocidental, seja na Europa de Leste, seja no Norte de África, etc. E a religião (cristãos, muçulmanos, judeus) pode ser diferente, mas a forma individual de a viver tem muito a ver com esta característica mediterrânica.
Sim, os textos gregos, incluindo Aristóteles, foram “redescobertos” na Europa durante a Idade Média, porque os árabes os preservaram. Os reis hispânicos tomaram consciência do seu valor. D. Afonso X de Leão e Castela, avô do nosso D. Dinis, criou a Escola de Tradutores de Toledo, onde juntou estudiosos muçulmanos, judeus e cristãos, que se dedicavam à tradução de várias obras, também gregas.
Judeus, cristãos e muçulmanos têm um passado comum, grande parte do Antigo Testamento é válido para as três religiões.
completamente de acordo mas esquecer Claudio Torres e o seu trabalho reconhecido internacionalmente é falha das grandes
Confesso que não conheço, mas vou já averiguar.
Eu também não disse que não havia nada, é claro que já bastante gente estudou o tema, caso contrário, eu não teria podido pesquisar. Nos últimos anos, a questão tem progredido. Só acho ainda pouco.
Muito obrigada pelos elogios.
Estou consciente do perigo que os fundamentalistas islâmicos representam para o mundo. E, infelizmente, há muitos. Por outro lado, a maioria dos muçulmanos vive sob ditaduras, o que, além da falta de liberdade de expressão, que proporciona a troca de ideias, não têm acesso a informação e cultura, o que os mantém na ignorância. São, por isso, mais fáceis de manipular. O artigo que, por acaso, acabei de ler no Público, é um bom exemplo disso:
http://www.publico.pt/Mundo/supremo-lide r-iraniano-sauda-a-revolta-islamica-no-e gipto-e-tunisia_1478631
São coisas que arrepiam. Mas muitos de nós esquecemos ainda que não se podem julgar os povos pelos seus líderes. Os dirigentes iranianos são fundamentalistas, mas muitos cidadãos desse país, talvez a maior parte, desejariam a mudança para a democracia. E uma aproximação ao ocidente.
(Uma relação? O Afonso e o Ibn, hem? Quem diria.)
Muito interessante, Cristina. Por mim, colocaria nas suas mãos todo o crédito para aprofundar o tema.
À altura do cerco de Lisboa, os sitiados conseguiram fazer chegar uma carta ao rei mouro de Évora, pedindo-lhe ajuda. Este recusou, por não querer quebrar a paz estabelecida com Ibn Qasî, que teria um acordo com Afonso Henriques. Claro que estes acordos tinham mais a ver com estratégia político-militar do que com religião. Mas a verdade é que Afonso Henriques teria alguma ligação com esse líder religioso, natural de Silves e radicado em Mértola, a quem ofereceu um cavalo, uma lança e, salvo erro, um escudo, como sinal da sua amizade. Por causa disso, Ibn Qasî foi assassinado pela população de Silves. Mas as fontes são escassas e ninguém aprofundou ainda o assunto.
Interessante, sem dúvida.
Muito bem, Cristina. Não é de admirar que não liguemos à nossa herança cultural infelizmente, não nutrimos grande afecto nem temos grande sentido crítico em relação ao que somos e fomos.
Eu adoro a cultura moura, passo sempre as minhas férias no Algarve.
Um dos melhores textos que já passaram por cá, Cristina (e têm passado textos excelentes). Um texto ainda mais actual nestes dias em que a Europa (Portugal incluído) tanto debate o futuro imediato do mundo árabe.
Obrigada, Pedro.
Ao contrário do que sugere no seu texto, o período de domínio muçulmano (e não mouro… esta palavra tem uma outra história…) no actual território português tem sido muito estudado, quer por arqueólogos (Cláudio Torres, Santiago Macías, Helena Catarino entre outros) quer por historiadores. Entre as obras publicadas é fundamental conhecer esta: Christophe Picard, Le Portugal musulman (VIIIe-XIIIe siècle), Paris, 2000, 422 páginas, ainda inédita em Português. Além disso a relação política entre Afonso I e Ibn Qasi está também já estudada e contextualizada através das fontes árabes coevas. Adalberto Alves é apenas um divulgador, há muitos e bons estudos já feitos, inclusive pelos poucos arabistas de Portugal (Dias Farinha, Adel Yussef Sidarus, António Rei). Outro nome incontornável é o de Maria Filomena Lopes de Barros, que publicou recentemente um monumental estudo sobre a organização das comunidades muçulmanas sob domínio cristão, entre os séculos XII e XV em Portugal.
baudolino, eu usei algumas vezes a palavra mouro, em vez de muçulmano, porque foi assim que o “muçulmanos hispânicos” ficaram conhecidos. Aliás o povo “mouro” não existe, os muçulmanos que por aqui andaram tinham várias origens. A maior parte eram berberes, mas havia também muitos sírios (além de outros). Árabes, por acaso, havia poucos, formavam uma elite, aliás uma das razões para a sua falta de unidade, que favoreceu a reconquista cristã, pois os líderes locais revoltavam-se contra a elite árabe.
Tenho consciência de que, nos últimos anos, tem havido muita investigação (documental e arqueológica) sobre este tema, não estou a par de tudo, pois, na verdade, ainda não aprofundei. Dediquei-me mais ao assunto, ao pesquisar sobre Afonso Henriques. Há dois anos que tenho vindo a ocupar-me com D. Dinis e, na altura do rei-poeta, ainda que vivessem muitos “mouros” no reino, não exerceram papel de destaque nem influenciaram o reinado, pelo que, para um romance sobre o dito monarca, deixei-os “de parte” (têm de se fazer opções, ainda assim, o livro conta cerca de 400 páginas).
De qualquer maneira, penso que os portugueses desprezam este período da História, os “mouros” são ainda vistos como um “acidente de percurso”, que os reis cristãos se encarregaram de neutralizar. É isso que acho que devia mudar: devíamos encará-los como parte da nossa herança e, não, como intrusos.
Obrigada pelas suas informações, o estudo de Maria Filomena Lopes de Barros é, sem dúvida, algo a ter em conta.
Pedro, obrigada pelo link para o livro de Adalberto Alves, foi uma boa ideia.
Pareceu-me uma informação útil adicional aos nossos leitores que mais se interessam por estes temas – que são muitos, certamente. Não tem que agradecer, Cristina. Foi algo que fiz com muito gosto.