Convidado: MIGUEL MADEIRA


Pedro Correia,

 

 

O FMI e Portugal

 

O “Delito de Opinião” convidou-me para lhes escrever um post, o que agradeço.

Como tema, vou falar da eventual intervenção “do FMI” em Portugal.

 

Não, diga-se, da questão sobre se Portugal pode sair da crise antes de ter que pedir a intervenção “do FMI”; a questão que me interessa é outra – se Portugal vai conseguir sair da crise (refiro-me sobretudo à orçamental) depois de pedir ajuda “ao FMI”. E o mais provável é que… não!

Afinal, olhe-se para a Grécia e para a Irlanda, que já têm lá “o FMI” – os seus Credit Default Swaps para a dívida de 5 anos estão (ou estavam, há uns dias atrás) em 1026 e 619, respectivamente, contra 497 para Portugal; ou seja, mesmo com “o FMI” os famosos “mercados” continuam a dar a esses países uma possibilidade significativa de falirem; haverá alguma razão para ser diferente com Portugal?

 

Imagine o leitor que está fortemente endividado, já está naquele esquema de ter que pedir novos empréstimos para pagar os anteriores mas os bancos normais já lhe começam a negar crédito. Então aparece-lhe um banco disposto a continuar a emprestar-lhe dinheiro (a um juro maior do que cobraria a um cliente com poucas dívidas, mas menor do que a maior parte dos bancos estariam dispostos a cobrar-lhe a si); isso permite-lhe adiar a sua bancarrota? Provavelmente sim. Isso permite-lhe impedir a sua bancarrota? Provavelmente não – o leitor continuaria super-endividado, e mais cedo ou mais tarde essa dívida tornaria-se insuportável de qualquer maneira. 

Neste momento, os PIIGS estão presos por ter cão e por não o ter – se não fazem políticas de austeridade, a dívida vai crescendo (e a taxa de juro também, pelo que a despesa com a dívida irá crescendo ainda mais depressa que a própria dívida); se as fazem (seja por vontade própria, ou por imposição “do FMI”), isso fará reduzir o rendimento nacional e/ou os preços, pelo que a divida real em proporção do rendimento vai subir; além disso, a recessão/deflação vai também fazer subir o peso real da dívida dos privados (que é capaz de ser o principal problema nalguns desses países – p.ex., em termos de dívida do Estado, Espanha é dos países menos endividados do mundo desenvolvido, mas tem uma enorme dívida no sector financeiro).

 

Algumas pessoas dizem “vamos ter que pedir ajuda ao FMI de qualquer maneira; portanto quanto mais cedo melhor – quanto mais tempo demorarmos, pior será”; mas, se admitirmos que, com ou sem “FMI” vamos ter que entrar em incumprimento ou, pelo menos, restruturar a dívida (isto é, dizer aos credores “não pagamos isso tudo” ou “não vamos pagar já, esperem alguns anos”), também poderemos dizer “se vamos ter que restruturar a dívida, quanto mais cedo melhor – estar a pagar juros altissimos e depois acabar à mesma por cancelar/suspender/reformular o pagamento da dívida é estar a deitar dinheiro à rua e a prolongar a agonia”; mas, assim, pedir ajuda “ao FMI” será também adiar o inevitável e prolongar a tal agonia (na verdade, o único efeito prático de pedir ajuda “ao FMI” é que, quando o default/restruturação/etc. ocorrer, os prejudicados não serão os bancos privados).

 

Um ponto adicional – como devem ter reparado, ao longo do meu texto, escrevi “ao FMI” dentro de aspas; a razão é que, na zona euro, está mais ou menos estabelecido que não há intervenções do FMI, mas sim intervenções conjuntas do FMI e do tal fundo europeu, em que os planos de estabilização orçamental têm que ser aprovados, não só pelo FMI, como (e sobretudo) pela UE (por exemplo, no caso irlandês o FMI até defendia que parte da dívida irlandesa fosse perdoada, mas a UE insistiu que tivesse que ser toda paga). Confesso que ainda não percebi muito bem a que é que as pessoas que falam de “vir aí o FMI” (seja a favor, seja contra) se referem, se estão a falar dessas intervenções conjuntas que houve na Grécia e na Irlanda, ou se estão a falar mesmo de uma intervenção só do FMI – se estão a falar do primeiro caso, muita da recorrente conversa de “o FMI aterrar na Portela” ou de “quando é que o António Borges toma conta disto?” não faz grande sentido: quem vai ter o palavra decisiva na aprovação da política financeira vai ser mais a UE que o FMI, e está já “aterrou na Portela” há muito tempo (até se devem ter cruzado com o FMI, que estava a levantar voo na mesma altura), e o papel do António Borges será quase tão insignificante como o que ele tinha naquela empresa em que era um de uma multidão de vice-presidentes; se estão a falar do segundo, bem, provavelmente não vai acontecer… 

Aliás, suspeito que esta ambiguidade sobre o que falamos quando falamos “do FMI” ainda vai dar muito jeito para alguns políticos darem o dito por não dito dizendo “nesse discurso referia-me a [um dos significados possíveis], não a [o outro significado]”.

 

Miguel Madeira

9 comentários em “Convidado: MIGUEL MADEIRA”

  1. Está muito bem, mas ficou-me uma dúvida: se “o FMI” «ainda vai dar muito jeito para alguns políticos darem o dito por não dito», porque será que eles andam a treinar há tanto tempo a dar o dito por não dito?
    Bem-vindo, meu caro.

  2. “se as fazem (seja por vontade própria, ou por imposição “do FMI”), isso fará reduzir o rendimento nacional e/ou os preços, pelo que a divida real em proporção do rendimento vai subir”

    Mas se as fazem, deixa de pedir crédito para aumentar a dívida e a credibilização ajudará a “rolar” o stock actual de dívida. É o único caminho.

    Ter em conta que a recessão é um processo de cura, o tentar evitar a recessão é que há partida fez que se aumentasse os défices e a dívida. Tivesse a recessão com toda a sua força (redução de salário, corte agressivo de despesa pública) sido plenamente aceite e depois de uma queda abrupta podera estar a crescer (Islândia?).

    O outro é default, o que teria a virtualidade de tornar mais ou menos impossível o recurso a crédito. Não me importaria com ela, o BCE ficaria com os bancos nas mãos é certo.

  3. Já estou a ver isto na AR:

    Já estou a ver isto na AR:

    Miguel Macedo – O Senhor Presidente da República disse que a chegada do FMI é a derrota deste governo. Sr Primeiro-ministro, o FMI já chegou: demita-se, vá-se embora!

    Sócrates – Mas qual FMI? O senhor deputado vê por aí algum FMI? Estão aqui uns senhores mas da União Europeia, os nossos parceiros europeus. Os senhores deputados da oposição vêm sempre estas coisas que mais ninguém vê!

  4. O Miguel Madeira é libertário. Em vez de convidá-lo a escrever, o Pedro Correia deveria (como pedagogicamente faz nas suas caixas de comentários sempre que alguém se insurge contra o Capitalismo) mostrar-lhe quanto sabe sobre História: falar-lhe de Estaline, de Pol Pot da Alemanha de Leste e da Guerra Civil de Espanha (também li Orwell e sei que as Brigadas Internacionais tiveram alguma culpa, mas penso que o fascismo era demasiado forte e acabaria por vencer de qualquer modo). Fale-lhe da superioridade do modelo capitalista face aos outros, sobretudo que não foram inventados e precisam de o ser; é uma chatice haver gente com ideias inovadoras, como os portugueses que inventaram rotas onde só havia mar.

    Cumprimentos ao Miguel Madeira, é um bom post e o Pedro Correia lembrar-se-á dele quando aplaudir a entrada do FMI.

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