Grandes contos (4): Borges


Pedro Correia,
Jorge Luis Borges fala-nos ao ouvido, com clareza e minúcia, como se nos narrasse histórias ocorridas nos confins do tempo. O mestre argentino manipula a ficção com artes de prestidigitador: nos seus contos, tudo nos soa à estrita realidade, por mais galopante que seja a imaginação deste homem que se dizia influenciado por Stevenson, Shaw e Chesterton.
Borges foi um dos raros autores que viu o seu nome coroar-se em adjectivo. Fala-se hoje do imaginário borgeano como se fala do kafkiano: nada mais natural, tratando-se de dois gigantes da literatura. O universo borgeano, povoado de encruzilhadas e labirintos, de equações matemáticas e delirantes divagações históricas, faz-nos viajar no espaço e na memória, em permanente atmosfera de sonho, criando uma contínua erosão das fronteiras entre a ficção e o ensaio, entre a prosa e a poesia.
Incluído no seu livro Ficções (1944), em que cada texto é uma obra-prima, destaca-se este notável Pierre Monard, Autor do Quixote. Plagiador incansável, Monard dedicou toda a vida a uma virtuosa empreitada: reescrever o Quixote. Mas o seu perfeccionismo levava-o a refazer permanentemente o trabalho, ao jeito da interminável manta de Penélope. No fundo, “não queria compor outro Quixote – o que é fácil -, mas ‘o’ Quixote. (…) A sua admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes.” (Edição portuguesa da Teorema/Círculo de Leitores, tradução de José Colaço Barreiros).
Este conto arquitectado num estilo que o despe de artifícios formais, quase utilizando a técnica de uma notícia de jornal, constitui a mais poderosa sátira à crítica literária que conheço, mostrando-nos um Borges no seu melhor: a erudição com rendilhados irónicos, entre pinceladas de absurdo sempre a traço fino.
“A elaboração, em Kafka, é menos admirável que a invenção”, anotou um dia Borges, insaciável leitor e divulgador de outros autores. Palavras que fazem ricochete: poder-se-ia dizer o mesmo deste prodigioso inventor de mundos e de mitos.

6 comentários em “Grandes contos (4): Borges”

  1. “Ficções”, do Borges, é um dos meus livros de cabeceira. Volta e meia leio um conto, ou só parte dele, e maravilho-me sempre. Acontece-me o mesmo com os poemas dele, que estão na mesma pilha…

    Gostei muito de ler-te.

    1. Acontece-me exactamente o mesmo, Ana. ‘Ficções’ é um dos meus livros de releitura permanente. E regresso a ele sempre com o deslumbramento da primeira vez.
      Ainda bem que gostaste. Esta série mensal vai continuar.

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