Antes do Natal duas adolescentes ofereceram-me na rua uma quadra manuscrita que apelava ao fim do consumismo e à espiritualidade. Tinham cabelos lustrosos, aspecto soigné e o ardor anacrónico de quem despeja mealheiros para baptizar pretinhos nas missões.
Fiquei atento e não me desiludi: na semana seguinte o país foi consumido por uma orgia salazarenga de caridade e devoção. Os sem-abrigo casaram-se em barda, as mães de Cascais fizeram soufflés aos entrevados, a Júlia e o Goucha entrevistaram manetas, tuberculosos e débeis mentais. Os alcoólicos sorveram sopa com cheirinho, muito boa, muito quentinha. Um patego da Guarda trajou de pai natal e deu chocolates do Lidl à terceira idade.
Sim, eu esperava uma epifania e obtive-a: Portugal não está deprimido nem mortificado como se diz por aí. Pelo contrário, Portugal está exultante. Portugal está em júbilo, porque bastou um ano de crise para reencontrar os seus pobrezinhos no adro da igreja, os seus velhos de pés em chaga, os meninos escalavrados a lamber o ranho e a estender as mãos. E já tinhamos todos tantas saudades.
Na televisão, uma dondoca serve bacalhau aos desempregados e deseja-me um Natal supé feliz. Para si também, tia. Vemo-nos no reveillon — ou no céu, se Deus quiser.

OREMOS
Quanto aos pobres, «sempre os tereis entre vós». Por isso, antes alguém que lhes dê de jantar. Um jantar substancial, que as tias, ao contrário desta gentalha que anda agora para aí, conhecem a realidade, são sensatas, e não servem «soufflés» a gente com fome.
Nota: as «tias» não vão a «réveillons». Passam de ano em casa de amigos.
Não consigo deixar de achar graça a este teus posts supé corrosivos. Mas tenho um desgosto a dar-te: não ponhas muita esperança nesse encontro no céu com a tal dondoca. Nem ela nem tu vão lá parar, muito provavelmente.
(ah, e é mesmo verdade que as tias não põem o pé em reveillons organizados… isso é coisa de novos-ricos, e as verdadeiras tias pertencem à malta dos velhos-pobres.)
Tens razão: são mêmo corrosivos.
E irresistíveis. O humor inteligente é a minha fraqueza, mesmo que não concorde com o conteúdo. É o caso deste post do Luís: é sempre muito mais útil a disponibilidade das dondocas – ainda que fosse só nesta época (e não é) – do que os diletantes exercícios de estilo dos intelectuais sobre o tema.
Por vezes sinto-me um pouco culpado, mas a piedade lusitana faz-me sempre voltar à carga. E é um facto que vocês são muito pacientes para mim.
No Vida Breve também já me disseram que posso tirar o cavalinho da chuva quanto ao céu.
E eu percebo-te, porque a piedade lusitana também me irrita muito às vezes. Quanto ao céu, também não tenho veleidades. Mas não sei se me interessaria muito ir para lá. Não conheço lá ninguém…
A piedade lusa causa-me ‘engulhos’, a minha palavra do momento 🙂
Pensei que a tua palavra do momento era “molhanga”.
🙂
Molhanga é uma palavra de sempre, Ana. Ex aequo com ‘engulhos’ está ‘encunicado’ 🙂
As tias não entram em reveillons organizados? Isso é mito urbano inventado por patos bravos deslumbrados com a fidalguia. Sou neto de criada de tias e sei que foram os tios e tias velhas, the real thing, a inventar o reveillon, muito organizado, por acaso. E continuam. Só nunca foi no salão dos bombeiros, pois. Achei piada àquela cena do “jantar substancial” oferecido pelas tias aos pobres, hehehe. Sempre andaram gordos que nem texugos, os nossos pobrezinhos, à conta da papança oferecida pelos nossos señoritos.
Inventar o reveillon é uma coisa, frequentar reveillons organizados (no sentido de públicos) é outra completamente diferente. Believe me, Pedro, ou então pergunte à sua avó. Os patos bravos deslumbrados com a fidalguia é que gostam de reveillons em hotéis e casinos, porque acham que isso é que é the real thing, para usar as suas palavras.
Ana, claro que não são públicos. Não é lá chegar e comprar bilhete e muito menos são anunciados em cartazes afixados na estrada nacional. Lá têm os seus clubes, as suas discotecas, como antes tinham os salões do casino do estoril ou da figueira só para eles. Até os tios da fidalguia rural, quanto mais os da cidade. Sempre gostaram muito de se divertir, como toda a gente, eu acho que até foram eles que inventaram o divertimento ;), quando bebem uns copitos a mais, até cantam o meu amigo charlie brown, ó ó. Só não gostam de ajuntamentos com que não pertence ao meio. Mas esta discussão mundana é lateral. Divertiu-me foi essa coisa do jantar substancial, que devia ser qualquer coisa como cozido à portuguesa, em oposição ao suflé, que parece que pôe os pobrezinhos doentes. Patêgos ou não, prefiro de longe os patos bravos.
Concordando consigo em que esta discussão mundana é lateral, eu prefiro de longe o povo. Foi o povo que inventou o divertimento, porque ninguém vive sem ele pelo menos de vez em quando. A forma que cada um escolhe para divertir-se é que já é outra questão. Por mim, qualquer uma é boa desde que não sacrifique a dos outros.
Se não formos nobreza, nem clero, somos povo. fora isto, não sei bem o que é povo. Mas é capaz de ter razão a Ana quando diz que foi o povo a inventar o divertimento; nem que tivesse sido para disfarçar as tristezas.
O Luis M. Jorge é uma espécie de João Gonçalves mais soigné. Esse seu estilo deve fazer imenso sucesso com as tias.
Pedro, não respondo a pensar em si mas no leitor incauto, impressionado com a sua perspicácia. Entre mim e o João Gonçalves existem algumas diferenças: o J.G. é um católico ultramontano, eu sou um liberal de tipo nórdico — gosto de capitalismo a sério nas empresas e de impostos altos sobre o rendimento, detesto a caridade cristã que me parece uma fraca desculpa para não combater as desigualdades.
Também me parece que tenho um pouco mais de sentido de humor, mas não insisto nesse tema.
E sim, sempre alcancei imenso sucesso entre as tias.
Luis, são diferentes os dois, claro. Quanto ao post, isto da caridade repentina de natal não é mau de todo e não merece post tão ácido. E o Goucha, coitado, é boa pessoa, esse faz caridade todo o ano, entretendo os solitários. Você olha para um programa do Goucha e parece ver um quadro do Goya, mas até os estropiados merecem ter voz. Mas concordo em ablosulto quanto às tias. Não posso com as tias, nunca pude. Por isso é que quase dei em comunista. Ficar por social democrata à sueca, também não é mau.
Muito bom, Luís. Subscrevo, excepto a parte da tia, claro.
Bjocas.
Excelente post!