Com os candidatos presidenciais todos no terreno e os debates em ritmo acelerado, começam a ficar mais perceptíveis as estratégias dos candidatos. O Pedro Correia tem acompanhado com especial atenção os debates, sobre os quais vai deixando as suas notas rigorosas e oportunas. Sem lhe retirar qualquer mérito, entendo ser a altura de se fazer uma primeira abordagem ao que já nos foi dado a ver numa outra perspectiva.
Começando pelo fim – continuo a não saber ser hipócrita – verifica-se que há duas candidaturas imbuídas de puro voluntarismo. Em comum, para além disso, têm o desejo dos candidatos de se fazerem ouvir. Um porque quer ser mais conhecido e afirmar valores próprios da regionalização que defende, embora não seja este o momento adequado para esse debate. O outro porque está convencido de que a sua crença na existência de extraterrestres o poderá levar a Belém com o apoio de Mário Soares. Refiro-me a Defensor de Moura e Fernando Nobre.
Defensor de Moura é um político experiente ao nível local que ganhou visibilidade com a causa da regionalização e projecção com o estatuto de deputado. Tem um discurso que tem tanto de simples e sincero quanto de ingénuo. Defende uma causa actual e tem uma posição inequívoca sobre um tema tão pertinente como é o combate à corrupção. Porém, isso não chega para levá-lo a uma segunda volta e penso que desse ponto de vista ele próprio não terá ilusões.
Sobre Fernando Nobre tenho muito pouco a acrescentar ao que já aqui escrevi quando a sombra do candidato começou a aparecer. Depois, quando se assumiu, em Maio, tudo ficou mais claro. É de facto trágico que um homem como Nobre se predisponha a prestar um serviço tão mau a si próprio e a Portugal. Este não lhe agradecerá e a AMI ficará indiscutivelmente mais pobre com a sua atitude. Trata-se de um caso mais do que evidente em que a cidadania saiu a perder, independentemente, da nobreza da atitude e da vontade com que se lançou na corrida presidencial. Um dia, certamente, terá tempo e lucidez suficientes para fazer o balanço deste sarilho em que se meteu.
Depois destes dois surge o simpático “Chico Lopes”. Fruto do “colectivo”, Lopes insere-se na velha tradição comunista portuguesa de confundir o país real com os trabalhadores e a vontade destes com as decisões do comité central do seu partido. O seu discurso corresponde ao registo habitual dos candidatos comunistas. Francisco Lopes não veio para a campanha para fazer ondas, para trazer qualquer coisa de novo ou desiludir o eleitorado tradicional dos comunistas. Mas Lopes poderá ser o fiel da balança entre uma vitória de Cavaco Silva na primeira volta ou uma vitória de Alegre na segunda volta. Ele sabe isso. Por agora, nem ele nem o partido que o apoia abrem o jogo. Lá chegará esse momento, mas estou convencido de que Lopes e o PCP, embora corram numa pista própria, serão suficientemente inteligentes para não permitirem uma vitória de Cavaco Silva à primeira volta. Nenhum “trabalhador” lhes perdoaria o facto de Alegre não chegar a uma segunda volta por não poder contar com “meia dúzia” de votos comunistas. O PCP está consciente disso. Jerónimo de Sousa não quererá ficar com odioso de não ter apoiado Alegre numa altura em que esse apoio é tão ou mais importante do que aquele que foi por dado pelos comunistas a Mário Soares. E Alegre será, seguramente, um sapo bem mais fácil de digerir do que foi Mário Soares para Álvaro Cunhal.
Quanto a Alegre (deixo propositadamente Cavaco Silva para o fim e não exactamente pelas mesmas razões com que tratei primeiro dos outros candidatos), importaria que neste momento começasse a descolar mais dos partidos que o apoiam.
Manuel Alegre é um um homem livre, um lutador, um homem que não claudica na adversidade. Seria bom que isso transparecesse de uma forma mais evidente e menos gongórica do seu discurso. O momento alto vivido no passado domingo quando da apresentação do seu “Contrato Presidencial – Uma nova esperança para Portugal” exige continuidade e um outro élan no terreno para que a mensagem passe e seja interiorizada pelos eleitores. O contributo inestimável de Jorge Sampaio e o excelente estímulo que representou a sua última intervenção pública, constituem um enorme capital de confiança e um apelo ao cerrar de fileiras em torno das ideias-chave da sua candidatura. De qualquer modo, convém que a defesa de valores como o Estado social, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde ou uma segurança social inclusiva, não se apodere da totalidade do seu discurso e acabe por desvalorizar temas tão importantes como a Europa, a nova estratégia económica, o apelo à defesa do território e da cultura ou a sua afirmação de não neutralidade na luta pela decência da democracia e pela transparência da vida pública, em relação ao clientelismo, à corrupção e aos “interesses que tentam capturar o Estado democrático“. A afirmação de uma estratégia clara, de uma linguagem incisiva sem ser agressiva e que não baralhe os eleitores é crucial para afastar qualquer ambiguidade. É tempo de fazer a separação das águas.
E é exactamente ao falar em ambiguidade que este texto de se aproxima do outro candidato. Cavaco Silva tem feito da ambiguidade a pedra de toque do seu discurso. Ele bem quer afirmar clareza nas suas posições, mas de cada vez que fala é a ambiguidade que ressalta. Tal como durante todo o seu mandato, nas raras vezes em que foi chamado a tomar posição sobre os assuntos em que se exigia clareza Cavaco Silva primou pela ambiguidade e foi nela que se refugiou, e refugirá no dia em que lhe sejam pedidas responsabilidades. O interesse nacional para tudo serviu: para discordar das leis que assinou, para afirmar a oposição entre o interior e o litoral, entre o campo e a cidade, para apelar ao povo contrapondo-o à elite, da qual por vezes até parece que ele não faz parte. Afinal, sempre a mesma ambiguidade e falta de clareza com que tão depressa pretende afirmar as suas virtudes enquanto primeiro-ministro, embora se candidate a Presidente da República, como cidadão que pretensamente intervém e que entre 1995 e 2005 se limitou, de relevante, a um texto em que apelava ao afastamento da má moeda em prol da boa moeda. Não sei qualquer será neste momento a boa moeda, com excepção dele próprio, mas o que eu sei é que a má moeda – a do cavaquismo como a do santanismo ou do socratismo – tem vindo a ser afastada pela opinião pública, pela comunicação social e pela via judicial, o que tem muito pouco a ver com o seu papel na Presidência ou a sua experiência passada.
A ambiguidade é hoje em Cavaco Silva como que uma segunda pele, já que foi ela que lhe permitiu afastar assessores mantendo-os, conviver durante décadas com Dias Loureiro e toda àquela gente que medrou à sombra do cavaquismo nalgumas universidades privadas, na banca e em toda a espécie de offshores, ou até mesmo justificar posições políticas no tempo da outra senhora (“devo ter feito aquilo que o regime impunha a todos aqueles que queriam trabalhar“, diz hoje à Sábado, esquecendo-se de que houve quem recusasse aceitar essa imposição exactamente nas mesmíssimas circunstâncias). Ainda ontem foi evidente a sua incomodidade no debate (?) com Francisco Lopes.
Temos sido ao longo de séculos um país de meias-tintas. Cavaco Silva corresponde a esse modelo de respeitinho que homens como O’Neill ou Cardoso Pires tão bem retrataram. Um modelo onde a ambiguidade não constitui um tabu. Um modelo onde a ambiguidade é a estratégia de afirmação e de sucesso: na vida académica, na vida profissional, na política e nos negócios. Um modelo que evita confrontar-se com a realidade para não desvalorizar os valores tradicionais, as certezas, o seguro que garante uma reforma tranquila. O final da intervenção de ontem do candidato Cavaco Silva no debate da TVI, quando ele se dirigiu aos portugueses, foi uma penosa reprise de uma conversa em família de Marcello Caetano. Tornou-se óbvio que a ambiguidade é a própria estratégia. Cavaco Silva conta que a ignorância, a falta de memória e o oportunismo da má moeda façam o resto. Para que ele possa ser reeleito à primeira volta.
