Germany goes global, Auf wiedersehen Europa?
“Life was like a box of chocolates. You never know what you’re gonna get”, costuma dizer a mãe de Forrest Gump. Da caixa de chocolates europeia durante décadas foram muitos os que tiraram o bombom do seu agrado, deixando para a Alemanha, que sempre pagou a caixa, a última ou a menos apetitosa das guloseimas. Sucede que com o ajustamento das relações internacionais que se seguiu à queda do Muro – o mundo unipolar evoluiu para uma multipolaridade complexa – a Alemanha não só não está disposta a pagar sozinha os bombons como também quer ser a primeira a escolher. Os restantes parceiros comunitários levantam a sobrancelha e exclamam scandal!!
Muitos governos europeus querem fazer crer às suas opiniões públicas que marcham, como cativos indefesos de grilhetas nos pés, à voz de comando de Berlim. Há-de haver um outro mundo lá fora. Pois há. Um exercício interessante, nestes últimos meses, é uma análise comparativa da imprensa europeia, que tenta convocar a cumplicidade dos cidadãos dos vinte e seis contra Berlim, e do que se publica na Alemanha.
Por detrás de muitas das críticas feitas a Angela Merkel – que passou de bestial a besta na óptica de algumas cabeças bem pensantes – há um anti-germanismo alimentado de ressentimentos e nostalgias várias. O que muitos europeus, que acenam com a bandeira da solidariedade quando lhes dá jeito, já esqueceram foi à forma como reagiram à reunificação alemã e como a todo o custo a tentaram evitar. Também já se esqueceram que o euro foi o preço elevado que a Alemanha pagou por ter recuperado a sua soberania.
Aufschwung XL
Olhando as coisas de uma forma racional, como o fez Timothy Garton Ash, “em numerosos aspectos uma Europa mais alemã seria uma melhor Europa. Há muitas coisas no modelo económico alemão – a sua produtividade, as suas relações laborais consensuais, a sua focalização na qualidade, a sua penetração em mercados emergentes – que outros países fariam bem em copiar”.
A Alemanha vive uma espécie de segundo milagre económico, um Aufschwung XL: o desemprego está ao seu nível mais baixo em décadas, as exportações industriais, em particular da indústria automóvel, cresceram no primeiro semestre de 2010 cerca de 12 por cento. E poupo-vos mais números. A verdade é que este crescimento se deve a uma reorientação da política alemã da geopolítica para o geoeconomia. Cada vez mais Berlim forja coligações de interesses com países como a Rússia ou a China, que são um mercado significativo para os seus produtos. E fá-lo para assegurar a sobrevivência económica num mundo global. Germany goes global. Nada mais legítimo. Significa isso um abandono da Europa?
O argumento é mais subtil do que dizer que a Alemanha abandonou o “europeísmo” de Helmut Kohl e se tornou menos europeia. A Alemanha alcançou o estatuto de um “país normal”, como os restante vinte e seis, e deixou de ser “sobre-europeísta” (este processo iniciou-se muito antes de Merkel na legislatura de Schröder e Fischer). A actual geração de políticos alemães não tem qualquer razão emocional para acatar instituições supranacionais ou para subordinar as suas opiniões à França e à Europa. That’s Realpolitik. A Europa terá de aprender a viver com isso e é contraproducente tentar encostar a Alemanha à parede.
Por outro lado, a Alemanha não deixará cair a Europa nem o euro, não por uma qualquer “visão” – já dizia Helmut Schmidt, “quem tem visões deve ir ao oftalmologista” – mas porque, embora cada vez menos, a Alemanha precisa da Europa, pois de um ponto de vista estritamente racional a moeda única é uma enorme vantagem competitiva para as exportações germânicas. Agora que a Alemanha tem alternativas que os outros vinte e seis não têm é um facto, e nenhuma gritaria contra Angela Merkel pode alterar este estado de coisas.
Se os europeus quiserem, a Alemanha pode ser o motor que potencie as outras economias europeias no mercado mundial. Nolens volens será a Alemanha a determinar o rumo que a economia europeia irá tomar. E não é com vinagre que se apanham moscas, nem alemães…



Um ponto de vista interessante, que é sempre bom lembrar.
Por um lado compreendo o problema: os alemães sentem que já chega de andar a pagar facturas por duas guerras com as quais não têm (estes que são hoje vivos) nada a ver. Se a UE surgiu para evitar as guerras, especialmente para unir a França e a Alemanha, hoje a perspectiva é longínqua e os alemães não vêem porque razão hão-de pagar para estar agrilhoados.
Só que, se por um lado estão a pagar, por outro tiram benefícios da moeda única (como a Helena muito bem escreve). Mais, o Euro não mais é que uma espécie de Deutsche Mark à escala europeia, considerando que a maior parte dos mecanismos financeiros adoptados e a lógica que preside ao BCE são essencialmente aqueles que a Alemanha preconizava. A Alemanha pode então ser uma caixa forte europeia, mas é-o porque foi a própria a construí-la.
Por outro lado, se a Alemanha não quer estar a pagar por nada ter feito de errado, a verdade é que não beneficiaria do caos que um desmembramento da moeda única causaria, bem pelo contrário. Basta ver que apenas 4 países presentes na moeda única (França, Holanda, Itália e Áustria) representaram 30% das exportações alemãs em 2009. Por muito que a Alemanha invista na China ou na Rússia, estes dois países ainda são muito puco representativos, especialmente porque estão apenas a dar os primeiros passos na importação de tecnologia de ponta, área onde a Alemanha se especializa.
Mais que qualquer outra coisa, esta atitude alemã surge por reacção ao eleitorado, o qual se vê a apertar o cinto para conter défices por causa de uma crise que não causaram e depois tem que pagar pelos desvarios de outros que vêem como trabalhando menos e sendo menos regrados. Esta atitude compreende-se. Basta olhar para Portugal…
“a importação de tecnologia de ponta, área onde a Alemanha se especializa”
Quem se especializa em tecnologia de ponta são mais os EUA. A Alemanha está sobretudo especializada em bens de capital: máquinas e ferramentas, produtos químicos, produtos elétricos, instalações industriais, etc. Esses bens de capital não têm necessariamente uma componente tecnológica muito elevada, mas são sobretudo feitos com muito cuidado para serem muito fiáveis. É nisso que a Alemanha se especializou. Um produto alemão está bem pensado, bem concebido, enfrenta todos os testes, é resistente. não se estraga. Isto não exige necessariamente uma tecnologia de ponta. Aliás, muitos produtos de tecnologia de ponta caraterizam-se precisamente por se estragarem à primeira utilização.
Alguns exemplos de tecnologia de ponta:
1.If Germany is known for one thing, it’s
the automotive industry.
Automotive is Germany‘s largest
industry by turnover, accounting for
more than a third of total domestic R&D
spending. German car manufacturers and suppliers are world leaders in innovation
with more than 3,500 registered
patents every year. With 47 OEM components
and assembly plants, 32 industry-
related innovative clusters, 3,600
tier 1, 2, and 3 suppliers and Europe’s
most experienced workforce, Germany
is the primary location for technology driven
companies active in all stages of
the value chain.
2. Germany is Europe’s largest market
for medical devices and the world’s
third largest.
Be it novel applications (such
as laser technology), breakthrough
diagnostic and therapeutic tools, or
the continous advancement of minimal
invasive surgery, medical technology
“made in Germany” is highly
innovative and enjoys an excellent
reputation throughout the world.
The German medical technology
industry employs around 95,000
people in over 1,200 companies
(with more than 20 employees per
company). In addition, there are
roughly 10,000 small businesses
working in the sector, employing
in the region of 75,000 employees.
Approximately 15 percent of
the employees work in R&D – with
the number rising.
3. Germany is the third most inventive country in terms of patents, after the United States and Japan. Over 2005-07, its number of patents per million inhabitant (74) was more than twice the OECD average (33). Germany shows a significant specialization in environmental technologies. It is also the third largest inventor in nanotechnology: 10% of all nanotechnology patents were invented in Germany.
Podia citar ainda a aeronáutica ou a tecnologia espacial, entre muitas outras.
Caro Luís, a Helena em baixo já faz as referências necessárias, mas gostaria de corrigir um ponto que demonstra uma enorme ignorância (e que infelizmente é generalizada).
«máquinas e ferramentas, produtos químicos, produtos elétricos, instalações industriais, etc. Esses bens de capital não têm necessariamente uma componente tecnológica muito elevada»
Esta afirmação está errada. A compnente tecnológica na indústria em geral e na química em particular (a minha especialidade) deve ser altíssima. Se o Luís julga que a garrafa de plástico onde vem a água que comprou não passou por uma apurada tecnologia, então deve julgar que surgem por geração espontânea. Estou actualmente envolvido num projecto conjunto Alemanha-Brasil para recuperação de águas em aquíferos, o qual tem o seu foco no desenvolvimento de novas tecnologias de ponta. Apenas e só para recuperar água.
Não sei o que julga Luís Lavoura ser tecnologia de ponta, mas garanto que não é apenas aquilo que a google possa aproveitar.
Muito interessante, esta visão ‘do outro lado’. Parabéns, Helena.
Eis uma visão realmente interessante (como disse o Rui acima) a que estamos pouco habituados. Parabéns, Helena.
“o euro foi o preço elevado que a Alemanha pagou por ter recuperado a sua soberania”
Como assim? A reunificação (ou anexação, como alguns dizem…) foi em 1989. O euro só foi idealizado após as crises das moedas em meados dos anos 90, e só se materializou em 1999, salvo erro.
Eu vivia na Alemanha no tempo da anexação (ou reunificação, como a maioria diz…) e presenciei as discussões desse tempo. Jamais nessa altura se falava de abandonar o marco.
Caro Luís, embora o Muro tenha caído a 9 de Novembro de 1989. A Reunificação alemã só aconteceria a 3 de Outubro de 1990 ( data que é feriado nacional).
E já em 1989 decorriam negociações secretas entre Paris e Bona sobre a União Monetária Europeia.
“Abdicar do marco alemão em troca de um euro estável foi uma das concessões que abriu caminho à unificação alemã”, palavras do ex-ministro social-democrata Peer Steinbrück
Não há dúvidas de que a queda do regime na ex-RDA precipitou a entrada do projecto europeu numa etapa decisiva da sua história. “É provável que a União Monetária Europeia nunca tivesse acontecido sem a reunificação alemã”, declara o antigo presidente do Bundesbank , Karl Otto Pöhl . Esta concessão acabou por ser proveitosa para os dois chefes de Estado. Ao permitir a união da Alemanha com a sua parte oriental, Mitterrand ajudou Kohl a ser o Chanceler da Reunificação. Em troca, Kohl prometeu abdicar do marco alemão, facto que representou uma das grandes vitórias da presidência de François Mitterrand .
Se quiser ler mais veja este link
Olá, Helena. Obrigado pela visita e pela reflexão sobre os rumos europeus de um ponto de vista de quem vive na Alemanha e sabe muito bem do que fala. É um ponto de vista que com frequência esquecemos ao falarmos dos direitos e deveres de Portugal enquanto membro da UE. Como se os alemães não fossem os maiores contribuintes líquidos da Europa comunitária e, nesse contexto, os maiores responsáveis pela injecção de fundos estruturais de que beneficiamos há um quarto de século. Aliás, em Portugal fala-se imenso em direitos e quase nunca em deveres. Esta é a reforma que mais urge entre nós: a reforma das mentalidades.
Caros “delitantes”, obrigada por esta oportunidade de diálogo.
A todos um Feliz Natal ou melhor Frohe Weihnachten und einen guten Rutsch ins Neue Jahr!
Caros Helena Ferro Gouveia e Pedro Correia,
Quero contribuir para a reflexão sobre este post .
Fala em solidariedade dos países europeus com a Alemanha. Eu venho falar-lhe do dever de solidariedade da Alemanha com os demais países europeus.
Sabe que a Europa (a CCE e agora a UE) surgiu como um projecto de Paz e desenvolvimento da Europa, após a II Guerra Mundial. Ora, esse projecto de Paz incluía a Alemanha (vencida na guerra) e construiu-se entregando à França e à Inglaterra a tarefa de defesa da Europa, fazendo-as suportar um caríssimo arsenal defensivo que actualmente muito contribui para os défices daqueles dois países (que também os têm e de que, entre nós, pouco ou nada se fala).
Ora, isso poupou à Alemanha muitos milhões de marcos e de euros.
A Alemanha “abdicou” do marco como “moeda de troca” política pela reunificação das Alemanhas (não vou falar das famílias vergonhosamente separadas pelo Muro de Berlim), mas manteve todo o modelo institucional de suporte à moeda única, sendo o banco Central Europeu um “alter ego” do Bundesbank .
Os países europeus têm de alinhar pelo diapasão económico da Alemanha e produzir o que a Alemanha produz? A verdadeira solidariedade pressupõe o respeito pelas características e especificidades alheias. Os portugueses nunca serão alemães, tal como os alemães nunca serão franceses e estes nunca serão italianos (só para falar destes). Mas essa riqueza cultural e essa diversidade estão na génese do projecto europeu de Paz e são o seu leit-motiv . Se fossemos todos alemães que felicidade para os nacionalismos…
Quem assegura o êxito das exportações alemães? Para onde vão os BMW, os Audi, os Mercedes, as máquinas de lavar roupa Miele …? Não há, dado o estilo espartano ou luterista /calvinista, se preferir, mercado para esses produtos na Alemanha e, como sabe, em França e outros países europeus, não é comum o uso deste tipo de electrodomésticos em casa de cada um (são equipamentos comunitários; logo um por prédio e não um por habitação como nos países “periféricos” do sul…)
Por outro lado, a visão economicista que coloca a Alemanha como modelo a copiar, é redutor e temporário. Lamento afirmar que a Alemanha não é um país de futuro. Não é uma língua influente, nem muito falada em todo o mundo (nesse particular a língua portuguesa tem um pesso mundial muitíssimo superior) e tem uma população super envelhecida.
A Alemanha é, concerteza, um factor central do projecto europeu, mas não nos devemos deslumbrar, esquecer o passado e seguir acriticamente o seu “ditat”.
A terminar, há muitos alemães, ilustres e menos ilustres, que não partilham da visão e do caminho que a Alemanha vem seguindo, afastando-se do retrato que a Helena aqui nós traz.
Caro anónimo,
Vamos por partes. <
a) De forma alguma eu defendo que todos os europeus se devam tornar alemães Considero a Alemanha a minha pátria afectiva, mas tenho muito respeito pela nacionalidade que o passaporte exibe : a portuguesa.
b) Discordo em absoluto que a Alemanha tenha que
continuar a pagar a factura do seu terrível passado. Já-o fez.
Tem certamente o dever da memória e cumpre-o melhor que todos os outros países europeus que estiveram envolvidos nas Guerras do século XX. Basta olhar para os programas escolares, ver a exposições , passar pelas livrarias.
c) Agora é preciso alguma má vontade e talvezu seja mero desconhecimento desconhecimento para escrever isto.
“Quem assegura o êxito das exportações alemães? Para onde vão os BMW, os Audi, os Mercedes, as máquinas de lavar roupa Miele …? Não há, dado o estilo espartano ou luterista /calvinista, se preferir, mercado para esses produtos na Alemanha e, como sabe, em França e outros países europeus, não é comum o uso deste tipo de electrodomésticos em casa de cada um (são equipamentos comunitários; logo um por prédio e não um por habitação como nos países “periféricos” do sul…)”
Vamos aos números: de acordo com a VAP, dos mais de dez milhoes de automóveis produzidos na Alemanha em 2009, 4 milhoes foram destinados ao mercado interno. os restantes foram exportados para a China, Índia e países da Europa Ocidental ( no seu conjunto). As estatísticas falam por si.
Quanto aos equipamentos comunitários, existem em WGs e nuns prédio alternativos.Ou refere-se à cave comunitária onde toda a gente poe as suas máquinas?
A esmagadora maioria dos lares alemaes tem máquina de lavar e de secar , cozinha equipadíssima, várias televisoes e computadores em casa, para nao falar de toda a parafernália electrónica.
Cara Helena, esse comentário é de quem deve julgar que a Alemanha parou em 1952. É essencialmente de ignorar.
Parabéns pelo óptimo post que deveria ser de leitura obrigatória para alguns dos políticos bem pensantes da nossa praça que, não percebendo um mínimo de “economia doméstica”, persistem na crítica infundada a figuras políticas com o mais alto grau de conhecimento e “savoir faire”.