As desvantagens de uma liga ibérica


Rui Rocha,

Na ressaca da candidatura conjunta de Portugal e Espanha ao Mundial de 2018, regressaram algumas vozes que sugerem que a parceria poderia ser aprofundada, deixando entrever uma eventual fusão dos Campeonatos dos dois países. A proposta não é nova. Do lado de cá, há um par de anos, Dias Ferreira defendeu que este é um caminho inevitável. Do lado de lá, o então Presidente do Barcelona, Joan Laporta, sugeriu também, com evidente alfinetada política, um campeonato de Espanha, Catalunha e Portugal.

As razões invocadas para esta proposta são, em geral, a falta de competitividade da Liga Portuguesa e a sua inviabilidade económica, a prazo.

Se virmos bem, estes são também os argumentos utilizados para acenar o fantasma da perda de independência de Portugal enquanto país e de uma possível integração política numa união ibérica.

Procurando analisar os méritos de uma eventual proposta de fusão futebolística, diria:

  • um Campeonato Ibérico teria, quando muito, 5 equipas portuguesas na 1ª Liga.
  • mesmo as melhores equipas portuguesas só poderiam aspirar a ganhar a competição ocasionalmente.
  • a prazo, e tendo em conta o maior poderio económico das equipas espanholas, o equilíbrio relativo tenderia a deteriorar-se em favor daquelas.
  • as equipas portuguesas estariam longe de ter garantido o acesso às competições europeias, podendo bem as vagas que lhes cabem ser ocupadas pelas equipas espanholas com a consequente perda de competitividade e receitas.
  • os adeptos portugueses teriam muita dificuldade em acompanhar as equipas portuguesas em grandes deslocações, diminuindo assim o apoio nos jogos fora.
  • as equipas de segunda linha portuguesa seriam completamente arrasadas atendendo à fragilidade das suas estruturas.

Deste modo, e mesmo que dos dois lados existisse consenso (e isso não é claro do lado português e, sobretudo, do espanhol) não vejo qualquer vantagem na situação. Ainda mais se tivermos em conta o modo como foi feita a repartição da candidatura ao Mundial 2018 e que bem poderia repetir-se.

Assim, tal como acontece no que diz respeito à garantia de independência do próprio país, o foco deveria colocar-se em

  • lideranças credíveis
  • modelos de gestão eficientes e profissionais
  • sistemas de regulação independentes
  • aproveitamento de recursos e das oportunidades
  • aposta na inovação, na produtividade e em novos mercados (Angola, por exemplo, com uma fortíssima relação emocional com as equipas portuguesas e uma classe média em formação, poderá constituir uma boa aposta em termos de merchandising e direitos televisivos).

Na economia, na política ou no futebol, não há almoços grátis. É preferível fazer o trabalho de casa para podermos continuar a comprar os ingredientes e a confeccionar o prato.

27 comentários em “As desvantagens de uma liga ibérica”

  1. concordo plenamente. Esta submissao a Espanha não me agrada nada.

    Coitado dos Sportinguistas, Benfiquistas e portistas que andavam a lutar pela Europa.

    Temos é de promover o nosso futebol, as nossas equipas, encher os estadios, os nossos jogadores.

    Só assim chegaremos alto.

    Acho que todos deviam apostar mais na formaçao e o sinal dado pelo Presidente do SP Braga que quer construir uma academia é um sinal muito positivo.

    As academias chegaram com 20 anos de atraso ao nosso futebol mas ainda bem que vieram…

      1. claro que nao. mas desde quando resolveu?

        Uma liga ibérica é a maior estupidez, tal como a junção de campeonatos por regiões como o sr. Rui Santos uma vez sugeriu….

        Porque o futebol tb é feito dos Distritais, daquelas equipas que ano a ano vão crescendo e se impondo no panorama futebolistico nacional e internacional.

        temos é de fazer o nosso campeonato o melhor do mundo!

          1. Caro Rui faltou ai a criaçao de academias.

            nos outros paises o mais modesto clube já tem estas infraestruturas.

            Mais uma coisa :

            acho que a dificuldade financeiras dos clubes tem a ver com o facto de sermos clubes ecleticos. Ou seja, as despesas são muitas e nem tudo está canalizado para o futebol.

            A questão é saber se : queremos clubes virados para o futebol apenas ou com diversas modalidades?

            Benfica, Sporting e FCP conseguem sobreviver mas os outros…

          2. Concordo, Francisco. A formação é a única forma de termos um futebol competitivo. Quanto ao ecletismo, de facto vale mais focar numa actividade e ser competente numa só do que medíocre em várias.

  2. Subscrevo a não aceitação em tal devaneio iberista.
    No entanto, e sem ser um seguidor atento da ditadura do futebol, ouvi há algum tempo pela voz de um entendido que as receitas televisivas em Espanha são negociadas de uma forma mais equitativa o que dilui a possibilidade de que três equipas se perpetuem como grandes no topo do futebol de um país.
    Seriam interessante ver menos proteccionismo e mais equilíbrio entre os competidores. Estou certo que o beneficiado seria o espectador e próprio o futebol.
    Atenção pessoal de esquerda, não concordem com esta última frase… pois este é um discurso neo-liberal…

    1. Concordo, Paulo. Daí ter referido a questão da ‘regulação independente’. Penso, no entanto, que o melhor exemplo de igualdade de oportunidades será a Liga Inglesa.

    2. ainda bem que trouxe a questão dos direitos televisivos.

      Penso que será por aí que vai começar uma revolução.

      Acho que o Benfica e tambem os outros grandes recebem 8 milhoes, imaginem os pequenos….

      O SLB acaba os contratos televisivos em 2013 e já avisou que vai querer mais do bolo.
      Quem der o primeiro passo a pedir mais, depois os outros virão tb a exigir mais…

      depois é meter os bilhetes mais baratos. Um sócio da União de leiria, portimonense não pode gastar mais do que 6 euros num ingresso.

      os horarios são muito importantes, mas todos sabemos a dependencia dos clbes em relação a tv.

      Assim, acho que só os grandes deveriam jogar à noite quando jogassem em casa devido ao facto de serem os clubes com mais adeptos…

      quanto aos outros deviam jogar a tarde ou fim da tarde quando jogassem contra grandes.
      Agora jogos á sexta e sabado a noite não, porque as pessoas querem sair e aproveitar a folga…

  3. Ideia de jerico, à laia de révanche pelo facto de se ter visto fugir o Mundial-2018.
    Se fosse por diante, só de muito longe em longe uma equipa portuguesa ganharia essa Liga. Basta-me este argumento para ser frontalmente contra.

  4. Numa liga ibérica, ainda ficaríamos numa posição mais insignificante do que aquela que tínhamos na organização do Mundial.
    E, francamente, basta que Dias Ferreira pense que é uma boa ideia para eu ter a certeza que não o é.

  5. Não percebo muito (ou nada) de futebol, estratégia e afins, mas será que a constituição de uma liga ibérica não poderia funcionar como o motor para a estruturação do futebol português e para a sua gestão de uma forma mais eficiente? As dificuldades motivam o aperfeiçoamento, e talvez uma regulação adequada dos direitos televisivos permitisse distribuir de forma equitativa receitas… Não… pois.

    1. O seu ponto faz sentido, Sílvia. Mas, tal como na economia, a abertura ao exterior só pode ter sucesso depois de termos assegurado que somos minimamente competitivos. Não parece ser esse o caso do futebol português.

  6. Tem razão. Temos um campeonato que gira em torno das três grandes equipas, se bem que se vão fazendo sentir algumas novidades no panorama futebolístico, de que o SCBraga e o Académica são um exemplo. Certo é, porém, que a nível europeu apenas uma equipa (o FCP)tem uma estrutura suficientemente consolidada e estável, que permita enfrentar desafios numa óptica que ultrapasse o territorio nacional.

  7. A Liga Ibérica é inviável para os nossos clubes. Mesmo com viagens em autocarro próprio e no dia do jogo já não há tesouraria que aguente salários ou prémios. Muito menos com deslocação, hotel e avião de duas em duas semanas.
    Só vejo futuro na nossa Liga com tectos salariais credíveis e consensuais, com execução devidamente auditada e de implementação urgente. Promovia-se o recrutamento interno de jovens, potenciava-se a exportação de talentos e fazia-se circular dinheiro entre clubes menos apetrechados.
    Entristece-me ver clubes que sobreavaliam o passe para uma venda nacional e depois deixam sair mais barato para a Roménia, Chipre ou Bulgária (sendo que os jogadores regressam meses depois porque o clube deixou de pagar a renda do apartamento).
    Uma nota: o ex-presidente do Barcelona chama-se Joan Laporta.

  8. Mas ainda há dias comemoramos o dia do Miguel de Vasconcelos …. e nuestros hermanos ainda pensam na duquesa de Mântua?

      1. Sem dúvida, foi lapso meu.
        São alguns de nós, de facto e era isso que eu pretendia dizer.
        Sei que estamos a perder o litoral, a sermos empurrados cada vez mais para trás, mas em futebol? Seríamos engolidos tão rapidamente quanto os bares de praia da Caparica.

        Ponha-se ordem nos organismos correspondentes, nos seus dirigentes, nos direitos televisivos, apostem nas escolas de formação de jovens, controlem-se os salários milionários dos pré-adultos que formamos e exportamos de seguida, mais os prémios de jogo, de golo, de permanência sentado, etc, etc. e vejamos se há inviabilidade económica.

        Se há futebol que aprecio, é mesmo o espanhol e o inglês. Numa liga ibérica, como em quase tudo o mais ibérico, seríamos totalmente esmagados. E creio que até poderia ser por mérito.
        Reduzidos à ínfima espécie …

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