As enguias
Enterradas no lodo, bem longe do claro céu, mourejam as enguias, sempre desconfiadas das luzes que fascinam as borboletas ingénuas. Repelentes, de hábitos repugnantes, sobrevivem onde o peixe graúdo, que delas se alimenta, desdenharia viver – mas não se pense que, modestas, discretas, ao menos vivem em paz; não: desde pequeninas que as perseguem impiedosamente. Mei×ão, chamam-lhes, e vendem-nas a preço de oiro, devoram-nas às dezenas em cada dentada… As que logram sobreviver, adoptam rudes modos de vida, ou eu ou eles, e todos fechamos os olhos e só nos indignamos quando as suas histórias sobem fétidas do lodo e borbulham chocantes à superfície dos brandos costumes: “Que horror! Más como as cobras!”
Ei-las, evisceradas, palpitantes, contorcendo-se na frigideira, em fuga do azeite fervente, ei-las que caem no lume vivo, nos seus cérebros atrofiados por trevas milenares uma única vontade, a de sobreviver, uma única ânsia, o Mar dos Sargaços da Redenção deste viver ignóbil…
Como as compreendo, como lhes invejo essa força, essa vontade de lutar desesperadamente, inutilmente, indiferentes à crua realidade, perdida já a esperança do regresso à bonança de um qualquer mar… Ah, antes o inferno da escolha entre frigideira e lume. Antes escamados, esventrados, que resignados ao tango do Orçamento…


Obrigado pela visita, José.
(e pelo livro, que entretanto recebi)
Eu é que tenho a agradecer, a amabilidade do convite para o post e a disponibilidade para receber Entre Cós e Alpedriz (onde qualquer burro é juiz…).
Muito obrigado.
Partilho a inveja, José. Parabéns pelo texto.
Muito obrigado. É nos mais humildes, que preferem o tinto ao Xanax, que eu deposito a esperança da sobrevivência deste pobre país. Porque sobreviver é o que fazem desde tempos imemoriais.
Muito bem José Catarino: “antes esventrados que resignados”.
Vida de enguia! Gostei. Parabéns, José Catarino.