Convidado: JOSÉ CATARINO


Pedro Correia,

 

As enguias

 

Enterradas no lodo, bem longe do claro céu, mourejam as enguias, sempre desconfiadas das luzes que fascinam as borboletas ingénuas. Repelentes, de hábitos repugnantes, sobrevivem onde o peixe graúdo, que delas se alimenta, desdenharia viver – mas não se pense que, modestas, discretas, ao menos vivem em paz; não: desde pequeninas que as perseguem impiedosamente. Mei×ão, chamam-lhes, e vendem-nas a preço de oiro, devoram-nas às dezenas em cada dentada… As que logram sobreviver, adoptam rudes modos de vida, ou eu ou eles, e todos fechamos os olhos e só nos indignamos quando as suas histórias sobem fétidas do lodo e borbulham chocantes à superfície dos brandos costumes: “Que horror! Más como as cobras!”

Ei-las, evisceradas, palpitantes, contorcendo-se na frigideira, em fuga do azeite fervente, ei-las que caem no lume vivo, nos seus cérebros atrofiados por trevas milenares uma única vontade, a de sobreviver, uma única ânsia, o Mar dos Sargaços da Redenção deste viver ignóbil…

Como as compreendo, como lhes invejo essa força, essa vontade de lutar desesperadamente, inutilmente, indiferentes à crua realidade, perdida já a esperança do regresso à bonança de um qualquer mar… Ah, antes o inferno da escolha entre frigideira e lume. Antes escamados, esventrados, que resignados ao tango do Orçamento…

 

José Cipriano Catarino

6 comentários em “Convidado: JOSÉ CATARINO”

    1. Eu é que tenho a agradecer, a amabilidade do convite para o post e a disponibilidade para receber Entre Cós e Alpedriz (onde qualquer burro é juiz…).
      Muito obrigado.

    1. Muito obrigado. É nos mais humildes, que preferem o tinto ao Xanax, que eu deposito a esperança da sobrevivência deste pobre país. Porque sobreviver é o que fazem desde tempos imemoriais.

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