Convidado: RUI HERBON


Pedro Correia,

 

Bonecas, fadas e princesas

 

No princípio do século, o semiólogo italiano Umberto Eco percebeu alguns sintomas de amnésia no estado mental da Europa. Quando os países perdem parte da sua memória, do mesmo modo que as pessoas, sofrem graves crises de identidade. É o que sucede connosco; e, para melhor compreensão, proponho a leitura de “A passo de caranguejo” (Difel), uma selecção de textos do ensaísta, romancista e catedrático de semiótica mais famoso do mundo. Lendo Eco comprovarão a sua perspicácia ao descrever esses momentos históricos em que temos a sensação de que o progresso se detém e se fecham as portas que durante muito tempo permaneceram abertas para que as ideias circulassem livremente. Perdemos parte do aprendido e, em vez de avançar, parece que desandamos caminho. Uma involução que não afecta apenas a economia ou o estado social, mas também certos direitos adquiridos que considerávamos irrenunciáveis e, de modo especial, os direitos dos trabalhadores e das mulheres. 

«Estava convencida de que, uma geração depois, a minha filha cresceria num mundo muito mais livre. Dava por certo que o triunfo da geração da minha mãe havia tornado possível que a feminilidade se tivesse convertido numa escolha em vez de uma armadilha. Acreditava que as meninas se livrariam de ser fadas ou princesas, do mesmo modo que as mulheres adultas podíamos escolher adoptar determinados símbolos da feminilidade que as feministas dos anos sessenta haviam considerado opressores, como os tacões ou a maquilhagem». O parágrafo pertence ao livro “Living dolls: the return of sexism” (Virago Press), de Natasha Walter, escritora e jornalista britânica que há uma década deu por finalizada a luta pela igualdade entre homens e mulheres. Agora arrepende-se, corrige o seu erro e mantém que, longe de se alcançar a igualdade, os direitos das mulheres estão em claro retrocesso. Descobre, de repente, que o cor-de-rosa volta a ser uma obrigação, em lugar de uma escolha, e que as meninas são incitadas a sonhar de novo com ser princesas, enquanto que os meninos se vêem obrigados a transformar-se em super-heróis.

Ao cabo de dois séculos da aparição dos primeiros movimentos feministas, produz-se um retrocesso para velhos estereótipos (os estereótipos são, aliás, o melhor amigo do marketing, e esta, apesar da crise, continua a ser uma sociedade de consumo) que marca as diferenças tradicionais entre o comportamento feminino e masculino. Natasha Walter responsabiliza tanto os homens como as mulheres por esta regressão sexista, que se manifesta claramente através da linguagem, da educação, das relações afectivas ou das obsessões estéticas. Para dar sentido às diferenças apela-se à genética e à livre escolha das mulheres, mas não podemos aceitar que a testosterona ou a oxitocina sejam a causa final que justifica que os homens tenham mais poder ou ganhem mais que as mulheres pelo mesmo trabalho. A autora defende que nem a biologia, nem as diferenças hormonais, nem as descobertas científicas sobre a estrutura do cérebro ou a química das emoções, nem a suposta liberdade de escolha das mulheres, são razões concludentes para aceitar determinadas injustiças. Como é evidente. Mas os sinais e os símbolos estão aí, à nossa volta, embora suficientemente camuflados para que a nossa consciência os possa ignorar sem remorso.

 

Rui Herbon

13 comentários em “Convidado: RUI HERBON”

  1. Este livro vem mostrar que a escola não tem que ser amordaçada por burocratas do ministério e dos sindicatoshttp://estrolabio.blogspot.com/2010/11/lancamento-do-livro-escolha-da-escola_18.htmlhttp://estrolabio.blogspot.com/2010/11/lancamento-do-livro-escolha-da-escola_18.html

  2. Não há dúvida de que ainda há muito por fazer pela igualdade entre homens e mulheres. Mas não acho que os “estereótipos” sejam tão maus, ou prejudiciais, como se pensa. Que as meninas gostem mais de rosa e os meninos de azul, que as meninas sonhem em ser princesas e os meninos guerreiros ou piratas é, na minha opinião, irrelevante. Há diferença entre os sexos e essa diferença é bem-vinda, fossem todos iguais, nos seus gestos e desejos, e o mundo seria bem aborrecido. O importante é considerar a princesa ao nível do guerreiro, o rosa tão forte como o azul…

  3. O que me tem, também, assombrado a visão é o facto das raparigas ainda muito jovens já se comportarem como mulheres adultas, no vestuário, na pose, no modo de estar, etc. Isso preocupa-me devido a uma espécie de hiato na vida dessas jovens, uma perda de infância camuflada pela ridícula aparência de ser adulto. Quando na verdade não o são intelectualmente, muito longe disso.

  4. Olá, Rui! Questões interessantes, estas, as relacionadas com a igualdade entre homens e mulheres. Em tudo isto o que eu não percebo é porque é que a autora que cita, em alguma altura, pode ter pensado que essa “luta” estava finalizada. As acções desenvolvidas pelas feministas, não querendo diminuir a importância de todas as mulheres que as levaram a cabo, tiveram sucesso em determinadas épocas, e em determinadas áreas geográficas, pelo contexto económico e político ao qual servia a entrada das mulheres em esferas de actividades das quais, até aí, estavam arredadas. Mas a questão principal deste seu texto, o recrudescimento dos estereótipos, associados ao sexo, acompanha supostamente o aumento generalizado do acesso à educação e à informação o que nos leva a pensar que essa universalização não foi acompanhada de um efectivo empenho na mudança de mentalidades. E a verdade é que os princípios da igualdade de género devem fazer parte da socialização em todas as frentes, começando pela família. E é aí que muitas vezes os bons exemplos não abundam. Dos valores pregados até à prática vai, normalmente, um imenso abismo. E são habitualmente as mulheres que mais contribuem para perpetuar as desigualdades. Por exemplo, o mito da supermulher que é boa mãe, boa profissional, boa dona de casa, etc. tem sido transmitido como verdadeiro quando é apenas uma ficção que tem causado, de longe, mais mal que bem. E, na minha opinião, com a diminuição acentuada da taxa de natalidade nos países ocidentais, avizinham-se tempos difíceis para as mulheres uma vez que são cada vez mais as vozes dos que lhes atribuem culpas por, ao quererem mais liberdade e mais igualdade, relegarem para segundo plano a sua função tradicional de terem filhos. Esperemos que o “passo de caranguejo” não seja grande de mais.

  5. Não tenho assim tanta certeza que os direitos das mulheres estejam em claro retrocesso. De que direitos falamos, afinal? Do direito à educação, ao trabalho? Creio que os problemas das mulheres se colocam mais ao nível das funções, do papel social, do que, propriamente, ao nível dos direitos. O que tenho observado, quer no dia a dia, quer na minha vida profissional, é que há muita mulher «baralhada» no que respeita à sua função. Ao longo de séculos as mulheres tiveram um papel social bem definido: eram mães de família. Hoje em dia já não são «mães de família» mas, de alguma forma, continuam a ser, porque existem mães e existe família. Não são «esposas», mas casam-se (ou vivem em união de facto), e por isso, não sendo «esposas», também não deixam de ser. O problema, a meu ver, é esta desintegração dos «modelos», a desarticulação, a necessidade de encontrar novas referências. Depois, tal como os homens, estão à mercê do mercado, e são vulneráveis à manipulação. Tenho duas filhas. Não me parece que tenha havido retrocesso na condição delas relativamente à minha. Bem pelo contrário…
    Seja como for, é um sinal positivo encontrar um bom e descomplexado texto sobre a condição feminina escrito por um homem. Julgo que é a prova mais evidente de que houve um significativo progresso nesta matéria. E seja qual for o assunto, concorde-se ou não com a opinião, ler um texto do Rui Herbon é sempre bom. [e até rimou! :-)]

  6. Concordo com a Nicolina. Se é verdade (e como!) que “os estereótipos são o melhor amigo do marketing”, também é verdade que eles não se formam e se cimentam por acaso. Respondem à tal diferença essencial entre homens e mulheres, que pessoalmente bendigo: não quero um mundo uniformizado no género, cuja monotonia me maçaria de morte. Quero o desafio da descoberta do “outro povo” que representa, quer se queira quer não, o sexo oposto. Nada contra os meios termos, mas não me estimulam.

    Outra coisa, bem diferente, é a questão dos direitos e deveres. Defendo intransigentemente essa igualdade, e parece-me muito injusto dizer que está a haver retrocesso nessas conquistas. Basta recuar um pouco mais na história (do mundo ocidental, pelo menos), para concluirmos que, malgré tout, muito se avançou. Estou pronta a discutir o preço altíssimo que as mulheres têm pago e continuarão a pagar por essas conquistas, mas não duvido de que estas são irreversíveis (pelo menos nos próximo milénios…)

    Interessante e desafiante texto. Parabéns ao Rui Herbon, que o trouxe ao Delito. Seja muito bem-vindo.

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