Depois de ter convidado a população a correr com uns certos inspectores à pedrada se eles se aventurassem pelo seu município adentro, o inefável símbolo dos autarcas deste país, perante a perspectiva de se fazer a única coisa lógica e que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso recomendaria, veio a correr dizer que “não são os loucos de Lisboa que nos dizem onde vamos viver“.
Quer-me parecer que Fernando Ruas não está a ver bem o assunto. Sofre de um erro de perspectiva. Os “loucos de Lisboa” não lhe vão dizer nada. O problema não está em Lisboa.
A sua perspectiva, e o afã com que defende a manutenção da actual situação – dir-se-ia com unhas e dentes – é revelador de que ainda há muita gente com responsabilidades que acredita que são os contribuintes que estão ao serviço das freguesias e dos municípios e que essa canga deverá continuar a ser suportada em nome das clientelas que regularmente se abastecem nas manjedouras do poder local.
Quem um dia irá dizer a Fernando Ruas que nada do que ele defende faz sentido serão os contribuintes. E estes, ao contrário do que Fernando Ruas possa pensar, não estão só em Lisboa. Eles já são hoje uma verdadeira praga, que nos últimos anos tem crescido, para bem de todos nós, graças aos esforços de sucessivos ministros das Finanças e à acção de uns “loucos de Lisboa“, ali para os lados das Amoreiras. Porventura fruto da desertificação do interior, Fernando Ruas ainda não se terá dado conta de que os contribuintes estão por todo o lado. Até em Viseu.
E embora tenha razão num ponto, o de que não será a diminuição do número de freguesias e de municípios que irá acabar com esse desperdício, nada autoriza a sua posição porque o papel de combate ao desperdício está reservado a todos nós, incluindo ele, Fernando Ruas.
Como Presidente da Associação Nacional de Municípios, Fernando Ruas deveria ser o primeiro a perceber e a dizer aos seus associados que a excelência de uma obra não se mede tanto no número de rotundas inauguradas ou de lápides que se descerra ao lado de um qualquer “louco de Lisboa“. Nem no número de palmadas nas costas que um presidente de câmara recebe dos seus munícipes. Está antes na forma como gere o dinheiro destes e nos resultados que apresenta. Com transparência.
Houve um tempo em que os municípios ajudaram a consolidar a democracia. Depois veio um tempo em que ajudaram a miná-la. E agora estamos num tempo em que estão a enterrá-la.
Fernando Ruas tem mostrado muita dificuldade em entender esta coisa tão simples. Ainda bem que houve quem lhe desse a merecida resposta.
