Um país que vê passar os comboios


Pedro Correia,

Chego a casa cansado, de noite. Afundo-me no sofá, ligo a televisão num canal ao acaso. Aparece-me a RTP-N, está a começar um programa que nunca vi: a Liga dos Últimos – ideia de Daniel Deusdado, apresentação de Álvaro Costa. Dois ou três minutos depois, estou conquistado: é um programa brilhante. Contrariando toda a lógica das emissões “desportivas” da TV, que só sabem lançar os holofotes sobre os primeiros, esta Liga dos Últimos vai à procura dos clubes que estão no fundo de todas as tabelas. Em Portugal e até no estrangeiro.
Esta original ideia materializa-se aqui num jornalismo de qualidade. Que nos mostra um retrato pitoresco do País – não o País que figura nos telejornais, o dos casos de sucesso ou o que grita nas ruas. É um país humilde, de gente incapaz de triunfar mas que nem por isso deixa de disputar desafios. O país dos jogos Atalaia 3-Pedra 2 e Anços 0-Santa Iria 1. Um futebol onde se contam tostões em vez de se ganhar milhões. Um futebol onde é possível o treinador perder todos os jogos e mesmo assim manter-se em funções porque é simultaneamente o presidente do clube. Um futebol onde o jogo que se pratica é tão mau que os escassos espectadores desistem de olhar para a bola.
– Porque é que está de costas para o jogo? – pergunta a jornalista.
– Porque estou mais interessado na bifana – responde o desiludido tifoso, entre duas dentadas.

É um futebol de mães desiludidas com a prestação dos próprios filhos.
– Porque está aqui?
– Porque o meu filho pertence aqui à bola. O meu filho é aquele alto que está lá dentro.
É um país espontâneo, sem truques nem maquilhagens. Um país em que um dos frustrados futebolistas amadores, cantoneiro de profissão, se apresenta desta forma defronte das câmaras:
– Sou Xuxu, um dos melhores jogadores da equipa. O problema é que chega-se ao jogo, começa logo tudo a discutir, e assim não há motivação para ganhar.
Um país em que um treinador-de-trazer-por-casa, depois de levar cinco secos, desabafa assim:
– Qual é a motivação que um treinador tem em vir para aqui à chuva para treinar quando só seis jogadores aparecem para os treinos? Além de treinar, tenho também que apanhar bolas, tenho que abrir o balneário, tenho que fechar o balneário.

É um país que vê passar os comboios. Literalmente.
– Já ganhámos cá um jogo porque a equipa adversária nunca tinha visto um comboio e quando passou o comboio começou a olhar para o comboio e nós ganhámos – lembra um fervoroso adepto do Anços.
É um país que não escolhe as palavras para dizer o que pensa:
– Esse árbitro é um passarinho e o bandeirinha é um passarão. Não são capazes…
– Porquê?
– Se fossem árbitros capazes, não vinham para aqui.
Este programa conquistou-me como nenhum outro o tem feito de há muito para cá. Os últimos, neste caso, são os primeiros.
É Portugal no seu melhor.

Reedição

17 comentários em “Um país que vê passar os comboios”

  1. Tal e qual… e saiba o Pedro que o Dr. Paquete entende que o programa estigmatiza e ridiculariza uma parte da população, estando muito longe de representar, por isso,… “serviço público”.

    1. Desconhecia essa posição do provedor, Pedro Ulrich. Confesso que não posso emitir uma opinião global sobre o programa: sou um espectador parcelar. Mas do que vi, como se percebe do texto que aqui deixo, ficou-me a impressão de ser um saborosíssimo e muito impressivo retrato de um certo Portugal que nunca é retratado pelas televisões. E prendeu-me ao ecrã desde o primeiro momento.

  2. Tem toda a razão, caro Pedro!
    É um programa brilhante e que revela pedaços de um país que existe.
    Não consigo ver nenhum dos programas da “bola a sério” e este, sempre que posso, vejo. E, a maior parte das vezes, tenho pena quando acaba.

    Bom fim de semana e… descanse, se puder!

    1. Estamos em sintonia, António Luís: também gosto tanto deste programa como desgosto dos da ‘bola a sério’.
      Este meu fim de semana é passado a trabalhar, como tantas vezes acontece. Vá aparecendo por cá: é sempre bem-vindo.
      Abraço.

  3. Já foram à minha aldeia filmar o clube de futebol da terra, num jogo disputadíssimo da eliminatória para a primeira divisão distrital. Hilariante. Claro que o facto de reconhecer toda a gente que apareceu no programa também ajudou..!

  4. A melhor parte de Portugal é sem dúvida a que não costuma aparecer nos jornais e na televisão. Infelizmente para quem só olha para o país através dessas lentes mal polidas.

      1. Ah, claro. Como diria o Thomas Jefferson “were it left to me to decide whether we should have a government without newspapers or newspapers without a government, I should not hesitate a moment to prefer the latter.” Mas penso eu de que dão uma imagem muito míope do país.

  5. Por exemplo, independentemente do que se achar dos famosos números do PIB, ou da própria convicção do jornalista, é por acaso admissível que num texto com uma única fase negativa seja essa que é escolhida para título?

    http://economico.sapo.pt/noticias/crescimento-e-uma-gota-de-agua-no-problema-de-portugal_104262.html

    Repare, não faço ideia quem escolheu o título, o jornalista pode não ter metido para aí prego nem estopa. Eu podia ter dado outro exemplo qualquer porque este tipo de falta de rigor é muito frequente, mas acontece estava a ler esta entrevista ao mesmo tempo que este blogue. A incapacidade de informar, simplesmente, de ir a contra-corrente, se for caso disso, de dar contexto em vez de repetir lugares-comuns está cada vez pior.

    Por outro lado, ouvi dizer ontem que o Expresso
    despediu a semana passada onze jornalistas. Não se fazem omeletes sem ovos.

    1. Numa coisa estou totalmente de acordo consigo: é impossível fazer omoletes sem ovos. Também é verdade que a exigência dos leitores, ouvintes e telespectadores é hoje muito maior do que foi no passado. E ainda bem.

  6. Aconselha-se a senhora IsabelPS a ver as contas e a comparar o crescimento económico com o crescimento da dívida. Verá que não há crescimento económico algum
    a não ser que assumamos que o dinheiro pedido emprestado pelo estado português tem efeitos negativos no crescimento.

    Por uma vez estou de acordo com o jornalista.

    1. Parece-me evidente que a questão não está aí: trata-se de uma entrevista a Campos e Cunha e é com ele que o leitor tem de concordar ou discordar, não com o jornalista. O problema é que quem ler “as gordas” fica com a impressão de que é o que se oferece a Campos e Cunha dizer sobre os mais recentes números do PIB, e não aquilo que a Lígia Simões acha que é o ponto fundamental da questão.

      Mas eu já aprendi que, quaisquer que sejam os temas e as notícias, tenho de ler os artigos de cabo a rabo porque estão muitas vezes em oposição ao título. Praticamente sempre no sentido de o título ser mais negativo do que o texto aliás (qualquer que seja o tema). Porquê, não faço ideia. Temo que seja simplesmente porque é o que está a dar.

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