Chego a casa cansado, de noite. Afundo-me no sofá, ligo a televisão num canal ao acaso. Aparece-me a RTP-N, está a começar um programa que nunca vi: a Liga dos Últimos – ideia de Daniel Deusdado, apresentação de Álvaro Costa. Dois ou três minutos depois, estou conquistado: é um programa brilhante. Contrariando toda a lógica das emissões “desportivas” da TV, que só sabem lançar os holofotes sobre os primeiros, esta Liga dos Últimos vai à procura dos clubes que estão no fundo de todas as tabelas. Em Portugal e até no estrangeiro.
Esta original ideia materializa-se aqui num jornalismo de qualidade. Que nos mostra um retrato pitoresco do País – não o País que figura nos telejornais, o dos casos de sucesso ou o que grita nas ruas. É um país humilde, de gente incapaz de triunfar mas que nem por isso deixa de disputar desafios. O país dos jogos Atalaia 3-Pedra 2 e Anços 0-Santa Iria 1. Um futebol onde se contam tostões em vez de se ganhar milhões. Um futebol onde é possível o treinador perder todos os jogos e mesmo assim manter-se em funções porque é simultaneamente o presidente do clube. Um futebol onde o jogo que se pratica é tão mau que os escassos espectadores desistem de olhar para a bola.
– Porque é que está de costas para o jogo? – pergunta a jornalista.
– Porque estou mais interessado na bifana – responde o desiludido tifoso, entre duas dentadas.
Esta original ideia materializa-se aqui num jornalismo de qualidade. Que nos mostra um retrato pitoresco do País – não o País que figura nos telejornais, o dos casos de sucesso ou o que grita nas ruas. É um país humilde, de gente incapaz de triunfar mas que nem por isso deixa de disputar desafios. O país dos jogos Atalaia 3-Pedra 2 e Anços 0-Santa Iria 1. Um futebol onde se contam tostões em vez de se ganhar milhões. Um futebol onde é possível o treinador perder todos os jogos e mesmo assim manter-se em funções porque é simultaneamente o presidente do clube. Um futebol onde o jogo que se pratica é tão mau que os escassos espectadores desistem de olhar para a bola.
– Porque é que está de costas para o jogo? – pergunta a jornalista.
– Porque estou mais interessado na bifana – responde o desiludido tifoso, entre duas dentadas.
É um futebol de mães desiludidas com a prestação dos próprios filhos.
– Porque está aqui?
– Porque o meu filho pertence aqui à bola. O meu filho é aquele alto que está lá dentro.
É um país espontâneo, sem truques nem maquilhagens. Um país em que um dos frustrados futebolistas amadores, cantoneiro de profissão, se apresenta desta forma defronte das câmaras:
– Sou Xuxu, um dos melhores jogadores da equipa. O problema é que chega-se ao jogo, começa logo tudo a discutir, e assim não há motivação para ganhar.
Um país em que um treinador-de-trazer-por-casa, depois de levar cinco secos, desabafa assim:
– Qual é a motivação que um treinador tem em vir para aqui à chuva para treinar quando só seis jogadores aparecem para os treinos? Além de treinar, tenho também que apanhar bolas, tenho que abrir o balneário, tenho que fechar o balneário.
– Porque está aqui?
– Porque o meu filho pertence aqui à bola. O meu filho é aquele alto que está lá dentro.
É um país espontâneo, sem truques nem maquilhagens. Um país em que um dos frustrados futebolistas amadores, cantoneiro de profissão, se apresenta desta forma defronte das câmaras:
– Sou Xuxu, um dos melhores jogadores da equipa. O problema é que chega-se ao jogo, começa logo tudo a discutir, e assim não há motivação para ganhar.
Um país em que um treinador-de-trazer-por-casa, depois de levar cinco secos, desabafa assim:
– Qual é a motivação que um treinador tem em vir para aqui à chuva para treinar quando só seis jogadores aparecem para os treinos? Além de treinar, tenho também que apanhar bolas, tenho que abrir o balneário, tenho que fechar o balneário.
É um país que vê passar os comboios. Literalmente.– Já ganhámos cá um jogo porque a equipa adversária nunca tinha visto um comboio e quando passou o comboio começou a olhar para o comboio e nós ganhámos – lembra um fervoroso adepto do Anços.
É um país que não escolhe as palavras para dizer o que pensa:
– Esse árbitro é um passarinho e o bandeirinha é um passarão. Não são capazes…
– Porquê?
– Se fossem árbitros capazes, não vinham para aqui.
Este programa conquistou-me como nenhum outro o tem feito de há muito para cá. Os últimos, neste caso, são os primeiros.
É Portugal no seu melhor.
Reedição


Tal e qual… e saiba o Pedro que o Dr. Paquete entende que o programa estigmatiza e ridiculariza uma parte da população, estando muito longe de representar, por isso,… “serviço público”.
Desconhecia essa posição do provedor, Pedro Ulrich. Confesso que não posso emitir uma opinião global sobre o programa: sou um espectador parcelar. Mas do que vi, como se percebe do texto que aqui deixo, ficou-me a impressão de ser um saborosíssimo e muito impressivo retrato de um certo Portugal que nunca é retratado pelas televisões. E prendeu-me ao ecrã desde o primeiro momento.
Sou fã da Liga dos Últimos, Pedro. Bela análise.
Obrigado, Leonor. Vou à bola contigo.
Tem toda a razão, caro Pedro!
É um programa brilhante e que revela pedaços de um país que existe.
Não consigo ver nenhum dos programas da “bola a sério” e este, sempre que posso, vejo. E, a maior parte das vezes, tenho pena quando acaba.
Bom fim de semana e… descanse, se puder!
Estamos em sintonia, António Luís: também gosto tanto deste programa como desgosto dos da ‘bola a sério’.
Este meu fim de semana é passado a trabalhar, como tantas vezes acontece. Vá aparecendo por cá: é sempre bem-vindo.
Abraço.
Já foram à minha aldeia filmar o clube de futebol da terra, num jogo disputadíssimo da eliminatória para a primeira divisão distrital. Hilariante. Claro que o facto de reconhecer toda a gente que apareceu no programa também ajudou..!
Eheheh. Deve ter sido bem divertido, João.
A melhor parte de Portugal é sem dúvida a que não costuma aparecer nos jornais e na televisão. Infelizmente para quem só olha para o país através dessas lentes mal polidas.
Não tenha a menor dúvida de que Portugal seria um país bem pior sem jornais nem televisão. Acentuo: seria um país bem pior.
Ah, claro. Como diria o Thomas Jefferson “were it left to me to decide whether we should have a government without newspapers or newspapers without a government, I should not hesitate a moment to prefer the latter.” Mas penso eu de que dão uma imagem muito míope do país.
Isso é verdade, Isabel. Compete-nos a todos, jornalistas e cidadãos em geral, exigir mais e melhor jornalismo.
Por exemplo, independentemente do que se achar dos famosos números do PIB, ou da própria convicção do jornalista, é por acaso admissível que num texto com uma única fase negativa seja essa que é escolhida para título?
http://economico.sapo.pt/noticias/cresci mento-e-uma-gota-de-agua-no-problema-de-p ortugal_104262.html
Repare, não faço ideia quem escolheu o título, o jornalista pode não ter metido para aí prego nem estopa. Eu podia ter dado outro exemplo qualquer porque este tipo de falta de rigor é muito frequente, mas acontece estava a ler esta entrevista ao mesmo tempo que este blogue. A incapacidade de informar, simplesmente, de ir a contra-corrente, se for caso disso, de dar contexto em vez de repetir lugares-comuns está cada vez pior.
Por outro lado, ouvi dizer ontem que o Expresso
despediu a semana passada onze jornalistas. Não se fazem omeletes sem ovos.
Numa coisa estou totalmente de acordo consigo: é impossível fazer omoletes sem ovos. Também é verdade que a exigência dos leitores, ouvintes e telespectadores é hoje muito maior do que foi no passado. E ainda bem.
Aconselha-se a senhora IsabelPS a ver as contas e a comparar o crescimento económico com o crescimento da dívida. Verá que não há crescimento económico algum
a não ser que assumamos que o dinheiro pedido emprestado pelo estado português tem efeitos negativos no crescimento.
Por uma vez estou de acordo com o jornalista.
Parece-me evidente que a questão não está aí: trata-se de uma entrevista a Campos e Cunha e é com ele que o leitor tem de concordar ou discordar, não com o jornalista. O problema é que quem ler “as gordas” fica com a impressão de que é o que se oferece a Campos e Cunha dizer sobre os mais recentes números do PIB, e não aquilo que a Lígia Simões acha que é o ponto fundamental da questão.
Mas eu já aprendi que, quaisquer que sejam os temas e as notícias, tenho de ler os artigos de cabo a rabo porque estão muitas vezes em oposição ao título. Praticamente sempre no sentido de o título ser mais negativo do que o texto aliás (qualquer que seja o tema). Porquê, não faço ideia. Temo que seja simplesmente porque é o que está a dar.
Já sigo o programa há muitos anos, há vídeos clássicos no youtube. É uma relíquia na televisão portuguesa, o maior defeito do programa é quem apresenta.