E de repente rebenta a bomba: Catroga e Teixeira dos Santos abandonam a meio os bailados nupciais, depois de um curto e atribulado namoro. É a ruptura, o divórcio litigioso antes mesmo do casamento que nunca passou, afinal, de uma ténue promessa. O circo mediático monta a tenda num ápice e esfrega as mãos de contente com a profusão de notícias frescas que tem pela frente. Multiplicam-se os directos, as entrevistas, as esperas em corredores entrecortadas de palavras ocas para encher chouriços enquanto não chega o carrasco ou a vítima, conforme o ponto de vista. Peroram os comentadores e analistas de circunstância em todos os programas de todos os canais de televisão, antevendo o implacável tsunami que nos espera a todos, caso não seja aprovado um orçamento igualmente implacável, que evitará o mal para nos fazer morrer da cura. Muda-se os cenários para tudo parecer ainda mais apelativo e catastrófico, e até o habitualmente sereno jornal da 2 alinha na esquizofrenia geral e passa a usar um formato agressivo de concurso, com o convidado sentado e a pivot de pé atrás de um balcão, como se estivesse a servir-lhe umas bejecas e um prato de tremoços. A Bolsa cai, as bolsas esvaziam-se a uma velocidade estonteante. As empresas públicas anunciam, revirando os olhos de santidade, as suas pias medidas de contenção, depois de terem abastecido as despensas e as garagens nos últimos anos, a preparar os tempos difíceis. Antecipa-se emoções para as oito da noite – como se o país suspendesse a respiração, todos os dias, até essa hora – prometendo conferências de imprensa e debates sortidos ao gosto do freguês. Cada político puxa dos galões para acusar os outros – quaisquer outros, desde que não lhe toque alguma responsabilidade – de todos os males que nos assolam, como se a peste negra tivesse chegado de improviso, sem nos ter acinzentado primeiro até ao tutano. Tira-se dividendos políticos (há quem os tire financeiros também, com toda a certeza) enquanto o circo não pega fogo, ou melhor, enquanto não fica tudo em cinzas. Os monárquicos aproveitam para gritar aqui d’el rei que a república é que tem a culpa de tudo, enquanto a república afina estratégias eleitorais no meio do caos, baralhando ainda mais os confusos figurantes deste carnaval tragicómico. E o tuga, exausto e saqueado, que já não acredita no Pai Natal nem na Branca de Neve vai para muito tempo, corre a pegar no comando da televisão para refugiar-se na Casa dos Segredos e meter na veia, embalado pela voz maviosa da Júlia Pinheiro, a doce anestesia de mais uma dose escaldante de meia dúzia de criaturinhas suburbanas entregues às hormonas e à perversão de outra Voz que as transforma em marionetas inconscientes, pobres ratos às voltas numa gaiola forrada a pelúcia. E assim nos vamos afundando alegremente, ou já nem isso.


Mas não, mas não. Vamos safar-nos, vai ver. Agora até temos um super-herói nacional. É verdade: a Mulher Elástica não vale nada perto do Santos Inflexível!
O Santos Inflexível é o novo Dom Sebastião do burgo? Valha-nos Alcácer-Quibir…
Na mouche! (texto e filme)
Já nem as mouches mudam, Nicolina, quanto mais a m****!
“O quinto império”
Em português, as palavras são um simples meio de simpatia, ou o seu contrário. As pessoas perdem assim horas em conversas inúteis, só com o fim de garantir a sua estima recíproca (95)
Como bom português, sentia-se fascinado pelo desastre e caminhava para o abismo (118)
Dominique de Roux (1977, Paris)
A atracção do abismo é muito nossa, de facto. Afundamo-nos primeiro em palavras, depois no buraco propriamente dito. Mas sempre à espera de um qualquer milagre que nos salve.
e o pior de tudo é que o Benfica tambem nao ganha….
Valha-nos o sentido de humor, Francisco!
neste momento tem de ser, não podemos ajudar á depressão nacional, certo?
Certíssimo.
Já ninguém com dois dedos de testa consegue suportar o massacre das caras e vozes da trafulhice, chamem-se elas Sócrates, Teixeira dos Santos, Vieira da Silva, Francisco Assis, Lacão (esse génio!) ou qualquer outra m****.
O País está farto.
Temos de fazer qualquer coisa rapidamente. Vamos a isso?
Essa agora…vamos a quê, exactamente?
🙂
Ana, continuo fielmente sua fã.
Um retrato rigoroso da nossa realidade, que me deixaria a rir, não fosse a tristeza que me invadiu faz tempo e não fosse tudo isto muito sério.
Também pelos seres que me rodeiam, que por acaso, estão no governo e nos deixaram neste estado e neste Estado.
Em Estado de coma, Macarvalho: de “coma hoje, que amanhã pode já não haver nada”…
Como sempre, a sua nota de humor, desta vez, de humor negro … impagável, de qualquer jeito.
Há quem esteja a andar ligeiro, apanha hoje que o amanhã pode não ser para ti.
Ora nem mais. Há sempre quem se abasteça com calma, antes que chegue a tropa dos esfomeados.
A nossa História é fatal como o destino:
Com a perda iminente da “teta” da UE…
não tenhamos dúvidas: –Portugal saberá encontrar outro meio de “proxenetismo”… foi assim com as indias, áfricas e brasis…
….
Quiçá… um protectorado “made in USA”…
Ou… (Sócrates saberá) venuzuelano!!!!
Acabou o tempo das vacas gordas, Artur. E até das magras, parece-me.
Excelente texto, como sempre. Odeio apenas o termo “suburbana”, como se a ignorância e a parolice estivessem confinadas a áreas geográficas.
E eu tenho de dar-lhe razão, Sara: é injusta a classificação, até porque a ignorância e a parolice já alastraram e invadiram todo o burgo.
Uma fabulosa pintura impressionista do Portugal contemporâneo. A minha vénia ao seu talento, cara colega.
Obrigada, Pedro. Até eu estou impressionada… não com a pintura, mas com o modelo. Nunca vi um tão mau, tão esfarrapado e tão faminto como o deste quadro. E ainda vamos nos esboços.
Exma Srª D. Ana Vidal…
O seu texto é maravilhoso… feio… feio… é o “Lapis Azul”… deito-o p’ro lixo !
Qual lápis azul, Artur? Não tenho a certeza se o percebi bem, porque não costumo usar tal coisa.