O grito
No início, quase parecia uma pergunta filosófica: interroguei-me de onde vinha, quem o dava, por que razão. Era um grito intenso, assustador, forte, sofrido. Durava uns segundos, o que fazia com que o alarme inicial que me provocava nem sequer tivesse tempo de ser investigado ou socorrido, pois logo se instalava, de novo, a calma. Mas naquela fracção de tempo a casa tremia, as paredes tornavam-se de papel, trespassadas por aquele som angustiante, o meu coração acelerava de pânico e os meus cinco sentidos disparavam em alerta: Que raio era aquilo?!
Depois, com o tempo, fui-me habituando. A experiência dizia-me que nada de mal dali advinha, que aquele horror era passageiro e inconsequente, que daria lugar novamente à calma e à ordem. Apercebi-me, contudo, que não era a horas certas. Umas vezes à tarde, outras de madrugada, outras aos fins-de-semana de manhã, era aleatória a sua exclamação. Previsível era a rotina que se lhe seguia e em que comecei a reparar: um descer de escadas, um bater da porta da entrada, um ligar de carro na rua.
Um dia, a curiosidade foi mais forte do que eu e segui-o. Depois de o ouvir, colei o olho à mira da porta, espiando as escadas do prédio. Vi-o descer descontraído, assobiando, aliviado. Vi um homem alto, entroncado, ligeiramente calvo, mas de viris braços peludos, aquele mesmo que um dia, à entrada de casa, vira roubar um beijo à cinquentona inquilina de cima e percebi finalmente o porquê de todo aquele clamar: aquele grito de dor, de aflição, de tormento, mais não era do que o orgasmo histriónico do histriónico namorado da vizinha.


Parabéns à Sofia pelo conto. E parabéns ao calvo e à sua cinquentona, que conservam uma pujança gritante.
Obrigada, João.
Quanto aos outros dois, a tal da pujança é mesmo, literalmente, gritante. E pior — para mim, pelo menos — quase diária! 😉
Beijinhos
Posso imaginar.
:o)
Beijinhos para si.
Olá, Sofia. Gosto em tê-la por cá 🙂
Olá, Teresa. Também gosto muito de lê-la por cá 🙂
Obrigada por me terem convidado.
Beijinhos
À atenção de Sexa, o Ministro das Finanças: lançar um imposto sobre decibéis em excesso para diminuir o buraco das contas públicas.
(viva, Sofia, gosto de a ver por cá)
Ohh, é agora que o namorado da vizinha vai à falência! Já as contas públicas, essas, ficarão de certo equilibradas 😉
Beijinho, e obrigada pelo convite, Pedro.
Os meus cinco sentidos também disparam em alerta com o pouco interesse deste texto.
Felizmente apareceu você com o seu brilhante, anónimo e interessantíssimo comentário.
Nem mais. É um consolo ler tão douta opinião. Aprendemos tanto!
Douta e corajosa.
Mais do que um alerta, é um grito de alerta. Será o calvo?
Ahh, os anónimos, esses “quidos” que pululam por toda a blogosfera! O que seria de nós sem eles?! 😉
Anónimo concorda com anónimo.
Parece que aqui tem que haver carneirada, irem todos para o mesmo sítio. Intelectuóide grave?
Parece-vos mal, anónimos. Mas dou de barato que vos tenha escapado a variedade de opiniões no Delito, presumindo que vêm cá pouco. Tudo para não considerar-vos intelectualóides distraídos. Ou burros.
Peço desculpa à autora pela curiosidade. Então e a vizinha cinquentona ( que maldade) não se manifesta? nem um ai ou mesmo um uuiii?
Pois é. Coitada da vizinha. Não é justo que não se pronuncie.
Quanto ao texto adorei.
Obrigada, Hélio 🙂
Nada, Alexandre. Esperemos que não seja por ficar constrangida com o comportamento do parceiro, mas sim por ser apenas mais discreta na performance 🙂
Oh, Sofia, mas não é já só isso o que nos resta de bom, sem pagar impostos? Admito que não seja muito agradável para os vizinhos, mas ainda bem que ainda há quem se vingue assim da crise.
🙂
Bem-vinda ao Delito, com esta denúncia gritante!
Obrigada, Ana!
Como diriam os nossos irmão brasileiros, aqueles “gozam” com a crise. É uma alegria! 🙂
Beijinhos
“A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha”.
A Sofia tem a certeza que o homem calvo, de braços viris e peludos, alto e entroncado não é um estimável seguidor de provérbios e um indefectível admirador de galináceos? De resto, pelo que li… só ele é que grita… e a vizinha, coitada? Hummmm …. cheira-me a provérbio :))))
Sofia, estou a brincar, não a conheço, mas diverti-me com o grito. :))
Dela, não se ouve nada. Mas também seria difícil fazer-se ouvir, sobre aquela barulheira toda do parceiro.
Ainda bem que o texto o divertiu, Nelson 🙂
Para além de concordar com os comentários das pessoas que assinam anónimo, ainda acrescento isto ao do primeiro ilustre e inteligente incógnito: seis sentidos (pelo menos)! «Contos» destes nem merecem ser dados a ler, de tão primário. Parece um iogurte líquido. Cara Sofia, não escreva; é um conselho vindo de mim.
Estimada Sofia
Este pequeno conto é de fazer inveja à Margarida Rebelo Pinto.
Já agora permita perguntar -lhe: o Simão e o Martim também partilham essas sonoridades?
Se sim, e atendendo que se trata de duas crianças prodígio, podemos imaginar os seus comentários pertinentes e sagazes.