Pemberley
Ela faz lentamente a cama de lençóis brancos. Num quarto igualmente branco. Suspira quando olha para a cadeira de madeira preta perto da janela. Ela sentava-se todos os dias ali, diz. A olhar uma janela que para ela já só tinha dentro. O nome? Não tinha. Ou pelo menos o que os filhos aqui deixaram não era o dela. Nem a morada. Para que não tivesse um sítio de retorno. Trazia a roupa do corpo e as pernas negras. Caiu, disseram. Todos os velhos que perderam o nome e o sítio no mundo acabam por cair. E ficam aí. Os que ainda se lembram, esperam. Os que, como ela perderam a memória, apenas ficam. Os outros esperarão por eles.
Senta-se na beira da cama, de mãos cruzadas no colo. Eu sentava-me aqui todas as manhãs. Lia-lhe duas ou três páginas do livro que a minha mãe costumava ter à cabeceira, e que eu nunca tive tempo para lhe ler. E lia-lhe, mesmo sabendo que ela não me ouvia. Porque era a mim quem eu queria ouvir. Sou mais uma infeliz presa no que devia ter sido e que se tenta redimir no tempo dos outros. Morreu ontem. Dois anos depois da minha mãe. Um dia depois de ter terminado ler o livro. Escrevi Júlia no papel da funerária. O nome que os filhos deixaram. Pedi a uma colega que a lavasse, que a vestisse. Isso eu já tinha feito. A fingir que era dedicação. Não era. Era apenas o lado formal da culpa. Cuidar dos mortos, limpar-lhes a campa, mudar as flores que imaginamos serem as suas preferidas. Fingimos que não somos egoístas, que fizemos o melhor possível. Porque há sempre uma justificação para sermos o pior que há em nós. O livro? Esse guardei-o na mesa de cabeceira. Na minha. E percebi porque era tão importante. Porque me estendia o livro e pedia. Só um bocadinho. Tira-me daqui só um instante e leva-me. Leva-me lá. A Pemberley.


Parabéns. É bonito.
Belíssimas palavras, como sempre. A expressão “o lado formal da culpa” é tão verdadeira e está tão bem aplicada que a senti na pele também assim que a li. O que fazemos por eles é sempre pouco, mesmo que seja o melhor possível.
Gostei de vê-la por cá, Cristina.
Gostei muito desta visita, Cristina. E do texto, claro.
Gostei muito desta visita delituosa. Obrigada pelo convite, Pedro.
Belo texto sobre uma realidade que só compreenderemos bem quando estivermos nós sentados, de mãos cruzadas no colo.
Não fiquei surpreendido com mais este excelente texto
mas estou como sempre grato pelo momento