Convidada: CRISTINA NOBRE SOARES


Pedro Correia,

 

Pemberley

 

Ela faz lentamente a cama de lençóis brancos. Num quarto igualmente branco. Suspira quando olha para a cadeira de madeira preta perto da janela. Ela sentava-se todos os dias ali, diz. A olhar uma janela que para ela já só tinha dentro. O nome? Não tinha. Ou pelo menos o que os filhos aqui deixaram não era o dela. Nem a morada. Para que não tivesse um sítio de retorno. Trazia a roupa do corpo e as pernas negras. Caiu, disseram. Todos os velhos que perderam o nome e o sítio no mundo acabam por cair. E ficam aí. Os que ainda se lembram, esperam. Os que, como ela perderam a memória, apenas ficam. Os outros esperarão por eles.
Senta-se na beira da cama, de mãos cruzadas no colo. Eu sentava-me aqui todas as manhãs. Lia-lhe duas ou três páginas do livro que a minha mãe costumava ter à cabeceira, e que eu nunca tive tempo para lhe ler. E lia-lhe, mesmo sabendo que ela não me ouvia. Porque era a mim quem eu queria ouvir. Sou mais uma infeliz presa no que devia ter sido e que se tenta redimir no tempo dos outros. Morreu ontem. Dois anos depois da minha mãe. Um dia depois de ter terminado ler o livro.  Escrevi Júlia no papel da funerária. O nome que os filhos deixaram. Pedi a uma colega que a lavasse, que a vestisse. Isso eu já tinha feito. A fingir que era dedicação. Não era. Era apenas o lado formal da culpa. Cuidar dos mortos, limpar-lhes a campa, mudar as flores que imaginamos serem as suas preferidas. Fingimos que não somos egoístas, que fizemos o melhor possível. Porque há sempre uma justificação para sermos o pior que há em nós. O livro? Esse guardei-o na mesa de cabeceira. Na minha. E percebi porque era tão importante. Porque me estendia o livro e pedia. Só um bocadinho. Tira-me daqui só um instante e leva-me. Leva-me lá. A Pemberley.

 

Cristina Nobre Soares

6 comentários em “Convidada: CRISTINA NOBRE SOARES”

  1. Belíssimas palavras, como sempre. A expressão “o lado formal da culpa” é tão verdadeira e está tão bem aplicada que a senti na pele também assim que a li. O que fazemos por eles é sempre pouco, mesmo que seja o melhor possível.

    Gostei de vê-la por cá, Cristina.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *