
Nudez
Dispa-se primeiro, atentamente, toda a desatenção. Não é indiferente que se dispa a indiferença, logo depois. A seguir, ainda que seja a medo, dispa-se os medos que os anos costuraram até formarem uma capa pesada, sufocante. Defenda-se o espírito de todas as defesas. Desmascare-se cada máscara, cada disfarce. Desproteja-se o corpo da ilusória protecção das cicatrizes. Da guarda armada das cautelas guarde-se distância, cautelosamente. Liberte-se a alma dos desalmados pesos que a vestiam. Lance-se ao vento, desfeitos, velhos preitos e preceitos. Limpe-se os olhos de brumas e de escolhos, os ouvidos de ruídos, a boca de palavras ocas. Dispa-se dos gestos as gestas do passado. Dispa-se da última derme o verme da vaidade. Por fim, dispa-se depressa a pressa, que é preciso saber esperar. E só então, vestindo devagar uma nudez total, se pode receber uma lua inesperada.
(Imagem – René Magritte)

bonito! gosto muito! especialmente da sonoridade!
beijo
Ainda bem que gostas, S.
Beijo
Quantas capas vestimos sobre a nossa nudez? Gostei muito, Ana.
Tantas, que chegamos a não saber qual é verdadeiramente nossa, Cristina…
Obrigada.
Belo.
🙂
Au calme clair de lune triste et beau…
Et tellement pur, mon cher Rocher…
«Ceci n’est pas un post»… Pois não, Ana. Este e os seus outros textos «Magritte» são pedacinhos do melhor engenho literário. 🙂
Obrigada, Luísa. Simpatia sua, é claro.
Receita sedutora, desde logo pelo prometido prémio, mas enganadora pois parece muito mais fácil do que na realidade é, se assim não fosse, a sua concretização não estaria acessível apenas aos melhores chefs mas sim a muitos. É que, bem vistas as coisas, os condimentos para realizar a receita são na sua grande maioria produtos não certificados e como tal proibidos, na verdade não interessam a ninguém, nem aos que podem com receio de logo vir a deixar de poder, nem aos querem vir a poder com receio de nunca o conseguirem. Isto para não falar do ridículo dos que tentam seguir a receita apenas na procura da afirmação da diferença e da originalidade. Uma lua inesperada, que coisa tão bem lembrada.
Ora, João, e achas que vale a pena apontar para objectivos fáceis? Uma lua, sobretudo se for inesperada, é prémio mais do que suficiente para um strip tão arriscado e radical como este… ou não?
😉
Ana, o que me delicia é a tua escrita, muito pela forma que, obviamente, não posso descontextualizar do conteúdo. Como não me atrevo a comentar a tua escrita mas sou impelido a retribuir, tenho que me refugiar apenas no conteúdo para comentar. Claro que as probabilidades de sair asneira são grandes, que se lixe, gosto do como e do que escreves mesmo que discorde de um ou outro dos teus comentários políticos.
Os meus comentários políticos? Quais? Agora fiquei curiosa, eu que raramente personalizo e faço questão de ser bastante independente… a não ser que defendas o Sócrates e este governo, porque aí nunca estaremos de acordo. Mas obrigada pela fé na minha escrita, anyway.
🙂