Ceci n’est pas un post (8)


Ana Vidal,

 

Nudez

 

Dispa-se primeiro, atentamente, toda a desatenção. Não é indiferente que se dispa a indiferença, logo depois. A seguir, ainda que seja a medo, dispa-se os medos que os anos costuraram até formarem uma capa pesada, sufocante. Defenda-se o espírito de todas as defesas. Desmascare-se cada máscara, cada disfarce. Desproteja-se o corpo da ilusória protecção das cicatrizes. Da guarda armada das cautelas guarde-se distância, cautelosamente. Liberte-se a alma dos desalmados pesos que a vestiam. Lance-se ao vento, desfeitos, velhos preitos e preceitos. Limpe-se os olhos de brumas e de escolhos, os ouvidos de ruídos, a boca de palavras ocas. Dispa-se dos gestos as gestas do passado. Dispa-se da última derme o verme da vaidade. Por fim, dispa-se depressa a pressa, que é preciso saber esperar. E só então, vestindo devagar uma nudez total, se pode receber uma lua inesperada.

 

(Imagem – René Magritte)

14 comentários em “Ceci n’est pas un post (8)”

  1. Receita sedutora, desde logo pelo prometido prémio, mas enganadora pois parece muito mais fácil do que na realidade é, se assim não fosse, a sua concretização não estaria acessível apenas aos melhores chefs mas sim a muitos. É que, bem vistas as coisas, os condimentos para realizar a receita são na sua grande maioria produtos não certificados e como tal proibidos, na verdade não interessam a ninguém, nem aos que podem com receio de logo vir a deixar de poder, nem aos querem vir a poder com receio de nunca o conseguirem. Isto para não falar do ridículo dos que tentam seguir a receita apenas na procura da afirmação da diferença e da originalidade. Uma lua inesperada, que coisa tão bem lembrada.

    1. Ora, João, e achas que vale a pena apontar para objectivos fáceis? Uma lua, sobretudo se for inesperada, é prémio mais do que suficiente para um strip tão arriscado e radical como este… ou não?
      😉

      1. Ana, o que me delicia é a tua escrita, muito pela forma que, obviamente, não posso descontextualizar do conteúdo. Como não me atrevo a comentar a tua escrita mas sou impelido a retribuir, tenho que me refugiar apenas no conteúdo para comentar. Claro que as probabilidades de sair asneira são grandes, que se lixe, gosto do como e do que escreves mesmo que discorde de um ou outro dos teus comentários políticos.

        1. Os meus comentários políticos? Quais? Agora fiquei curiosa, eu que raramente personalizo e faço questão de ser bastante independente… a não ser que defendas o Sócrates e este governo, porque aí nunca estaremos de acordo. Mas obrigada pela fé na minha escrita, anyway.
          🙂

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