Nas tuas mãos
Reinventa-me tu. Dou-te pincéis e tintas de todas as cores, uma tela em branco e, mais do que tudo isso, a imensa liberdade de me recriares à tua medida. Redesenha-me: dá-me olhos menos inquietos, mãos menos aventureiras, braços que embalem tudo menos sonhos. Dá-me pernas imóveis, que não acabem em pés andarilhos. Pinta-me o corpo de um tom de mármore belo e pálido como o das estátuas antigas, em que todo o ardor se transformou já em História. Não te detenhas nos cabelos, deixa-os inacabados. Podem ganhar vida própria e enlear-te como algas, e tu sabes como é perigosa a maresia. Evita a curva do pescoço, e foge dos pormenores no peito e no ventre. Passa a correr pela boca, aí todo o cuidado é pouco. Um último aviso: não me pintes um coração nem um cérebro. Porque, se o fizeres, eu volto a construir-me como era.
(Imagem – René Magritte, “Tentando o Impossível”)


Muito bom.
Gostei muito. Muito bem escrito. Muitos parabéns.
… ficaram desejos por pintar
Como um corpo desenhado
por mãos assaz meticulosas
o ardor fica aninhado
em formas e cores melosas…
Nessa tela inacabada
ficaram desejos por pintar,
a pintura é ilibada
por uma paixão de encantar!
Duas maravihas:- O texto e a ilustração!
Parabens…
Muito obrigada a todos.
Manuel Brás, essa inspiração não esmorece, hein?
🙂
Um ‘post’ estupendo.