Há hoje uma forma de escrever nos jornais que abastarda a língua portuguesa e dificulta a compreensão dos textos, tornando o acto de comunicar por escrito uma tarefa apenas para iniciados. Refiro-me à invasão descontrolada de vocábulos importados da pátria do Tio Sam, a coberto de um certo jargão “económico” ou “cultural”, que transforma muita prosa numa espécie de crioulo luso-americano, cada vez mais indecifrável para uma camada vastíssima de pessoas.
Com isto afugentam-se os leitores em percentagens crescentes, como se tem visto nos últimos anos. Não perceber isto é não perceber nada de essencial do acto de comunicar – que deve ser claro, conciso e compreensível.
Para se entender melhor a que me refiro, fica um exemplo concreto de um artigo de duas páginas inserido num jornal e assinado por um conhecido jornalista “cultural”. Em certos trechos, que passo a transcrever, aposto que nem ele próprio saberia muito bem o que estava a redigir:
– “Nem é preciso recuar aos tempos de Frank Sinatra e da sua rat pack.”
– “Tão poucos anos e o cool já se gastou.”
– “A série está agora mais high tech.”
– “Parecem todos guest stars do seu próprio filme.”
– “Provavelmente se captou que era o mais disponível para exorcizar este pacto com o entertainment.”
– “O cinema que explorava novos caminhos era também o cinema mainstream.”
– “Em tempo de promoção de uma sequela não se espera que alguém declare morta a franchise.”
– “Tão poucos anos e o cool já se gastou.”
– “A série está agora mais high tech.”
– “Parecem todos guest stars do seu próprio filme.”
– “Provavelmente se captou que era o mais disponível para exorcizar este pacto com o entertainment.”
– “O cinema que explorava novos caminhos era também o cinema mainstream.”
– “Em tempo de promoção de uma sequela não se espera que alguém declare morta a franchise.”
“Não é o 13 que é um número azarado, o cool é que já não pode ser o que era.” (Frase de abertura)
Se ler cansa e confunde, transcrever é ainda mais penoso. Desculpem lá, mas agora vou fazer uma pausa. Comigo o cool já se gastou. Seja lá o que isto queira dizer.


Não sabia que o Zeinal Bava era Jornalista “cultural”.
Boa!
…é a viding!
Bem visto!
Bem lembrado! (refiro-me ao Jerry Lewis)
Sem dúvida. A imagem do nonsense. Puro entertainment ajustado ao cool mainstream das guest stars mais franchising do rat pack.
Mas o que é um rat pack? É um pacote de ratazanas?
A tua tradução é um must, mas um rat pack parece que é um conjunto de agências de rating.
Apetece dizer com David Bowie “This is not America”!!
Indeed.
É algo que me irrita bastante também, sobretudo na kinguagem oral! Mas confesso que é na cultura que isso me chateia menos. Eu própria também escrevo que uma banda está em tour, que lançou um single, que vai haver uma sessão de dj set. Guilty 🙂
Sim, Sara. Mas há limites para o jargão, em qualquer escrita jornalística. A descodificação é essencial. Esta é uma das regras básicas da profissão.